
Paulo Vieira no set de filmagens de 'Pablo e Luisão' — Foto: Divulgação / Fábio Rocha / TV Globo
“Essa meia funciona para você?”,pergunta Paulo Vieira a uma integrante da equipe de produção de “Pablo e Luisão” ao se incomodar com um chamativo par de meias usado por uma atriz nas gravações da segunda temporada da série. Criador,roteirista e ator na produção,Paulo está de olho em tudo e se preocupa com os mínimos detalhes da série inspirada em sua infância em Palmas,no Tocantins,e nas (des)aventuras de seu pai,Luisão,ao lado do melhor amigo,Pablo. No momento,ele faz questão de estar presente no set nos Estúdios Globo,no Rio,mesmo quando não tem cenas para rodar. E também aproveita para promover o lançamento da primeira temporada da atração na TV Globo,com episódios às terças e quintas-feiras a partir de hoje,após a exibição da novela das nove. “Pablo e Luisão” chega à TV aberta após grande sucesso no Globoplay. O horário,inclusive,foi um pedido do ator,que queria ver sua obra no horário nobre.
'Female rage': entenda como a fúria feminina contra injustiças alimenta ficções repletas de sangue e vingança'Quero voltar a contar histórias': Afastada das telas há 18 anos,Cristina Aché relembra fama de musa
— Na série,assumo uma função que não existe no Brasil,que é a de showrunner. A Globo nem tem esse crédito,mas atuo como se assim fosse. É a pessoa responsável por garantir que a coisa saia exatamente da maneira que foi criada para ser. É um trabalho que conversa com todos os setores da produção. Me preocupo com direção,montagem,arte,figurino — diz ele,aos 33 anos. — Estou o tempo inteiro de olho em tudo. Não sei o quanto isso é ser controlador e o quanto é ser preciosista. É um trabalho que começa na sala de roteiro,vai para o set,depois vai para edição,até entregarmos o corte final. E aí ainda entram o trabalho de promoção e o pensamento estratégico da série. Me meto em tudo.
Lançada originalmente em maio de 2025,“Pablo e Luisão” foi a série mais vista no Globoplay em seus três primeiros meses em cartaz. Paulo descreve a experiência no streaming como linda,mas comemora a oportunidade de estrear na TV aberta.
Continuar Lendo
— Estou muito feliz com este momento. Acho que “Pablo e Luisão” vai,de fato,encontrar o público dela. Fizemos a série pensando neste público da TV aberta. Tenho brincado que agora “Pablo e Luisão” será vista por pessoas como Pablo e Luisão — destaca o ator. — É a hora de encontrar esse povo brasileiro que tento tanto representar em meus trabalhos.
A cada um dos 14 episódios,o público mergulha em uma história baseada em fatos (su)reais sobre Pablo (Otavio Muller) e Luisão (Ailton Graça),dupla de amigos que está sempre pensando em novos empreendimentos e atormentando a rotina de Conceição (Dira Paes),casada com Luisão e mãe de Paulo (vivido quando criança por Yves Miguel) e Neto (João Pedro Martins). Entre as empreitadas presentes na primeira temporada estão a vez em que os dois montaram uma cerca com restos de orelhões que dava choque em quem passava pela rua e a vez em que se mudaram para um escritório comercial para economizar R$ 150.
Paulo conta que o sucesso com a série não diminuiu o ímpeto empreendedor da dupla e que eles seguem gerando histórias absurdas na família.

Paulo Vieira entre Pablo (à esquerda) e Luisão,seu pai. — Foto: Divulgação / Léo Rosario / TV Globo
— Eles continuam iguais. Neste momento,tem três novas empresas sendo lançadas. Eles estão com um negócio de bebida,com um ferro-velho e querendo comprar uma máquina de fazer batata chips para competir com uma grande marca nacional. Eles querem fazer a batata “Raiz” para competir com a “Lay’s” — diz. — Eu contei pro meu pai que a gente comprou um caminhão para a segunda temporada e que depois ele seria destruído. E ele falou: “Não destrói,não,me vende baratinho.” A gente usa muito carro velho e ele sempre me pergunta se não tem nenhum sobrando.
Paulo se diverte ao lembrar da reação dos familiares ao serem retratados na tela. Ele conta que a mãe talvez seja a “mais deslumbradinha” por achar “muito chique” ser interpretada por Dira. Pablo é outro que se adora ver em cena e que já viu e reviu a série inúmeras vezes e “ama tudo que ele mesmo fala”. Por outro lado,Luisão passa longe de qualquer deslumbre.
— Ele nem viu a série — diverte-se o ator.
'Não tenho interesse em filmar a miséria': Silvio Guindane celebra 30 anos de carreira dirigindo filme sobre Zeca Pagodinho
Além de “Pablo e Luisão”,Paulo trabalha na finalização da quinta temporada de “Avisa lá que eu vou”,programa do GNT em que viaja pelo interior do Brasil conhecendo pessoas e apresentando suas rotinas e tradições.
— No meu trabalho,estou sempre tentando criar camadas de valorização e afirmação da cultura brasileira numa luta de polimento de uma autoestima nacional. Acho que “Avisa lá que eu vou” é um pai de “Pablo e Luisão”. Nosso objetivo é andar pelo Brasil contando as histórias que merecem ser contadas e recontadas. Amo o interior,amo o povo,me sinto muito à vontade com essas pessoas,sinto que são meus primos — diz. — Acho que a gente,na cidade,tem ficado desconectado da verdadeira alma do Brasil,então vou para o interior também tentando me convencer de que esse país vale a pena. Tudo o que presta no Brasil vem do povo. O que o São Paulo Fashion Week vai mostrar daqui a cinco anos está sendo criado agora em alguma comunidade por uma pessoa LGBTQUIA+.
Paulo Vieira diz que através do trabalho e da espiritualidade conseguiu ressignificar muitas coisas em sua vida,como a casa em que morou. Quando criança,ele escondia a sua casa dos colegas de escola por vergonha. Hoje,mostra a casa em detalhes para milhões de pessoas na tela da TV.
— Tive tanta vergonha deste lugar,mas hoje tenho muito orgulho e alegria de dizer de onde vim. Não consigo não olhar isso também do ponto de vista da espiritualidade. Quando visitei a África,falaram muito sobre meu santo,Xangô Aganju,que em muitos lugares é cultuado como a própria força de vontade,é a força que você chama no momento do trauma para transformar o trauma em riqueza — explica o humorista.

Paulo Vieira durante as gravações de "Pablo e Luisão" — Foto: Divulgação / Manoella Mello / TV Globo
Muito antes de virar série,“Pablo e Luisão” foi uma thread no X,rede na qual ainda está presente,mas não de forma tão ativa quanto no passado.
— O Twitter para mim era uma delícia. Eu adorava,era a minha possibilidade de ser uma pessoa normal. Era verdadeiro,zoeiro. Com o tempo,foi ficando um espaço tóxico e fui diminuindo minha presença — conta Paulo,que não entende as cobranças para se posicionar sobre tudo nas redes hoje em dia. — Nunca fui o cara de dar opinião sobre tudo. Não quero que as pessoas tenham essa ideia de mim. Toda vez que me chamaram para fazer programa de opinião,eu recusei. Tenho medo dessa indústria da opinião,não tenho coisa inteligente para falar toda semana.
No passado,Paulo já reagiu diante de críticas e ataques de haters nas redes sociais. Hoje,diz ter aprendido a ignorá-los.
— Felizmente,sou um cara muito querido e recebo muito carinho ao andar nas ruas. Acho isso mais importante do que qualquer ataque nas redes sociais — diz. — Meu público tem comigo uma relação meio de primo. Temos essa intimidade. Gosto muito de ser amado pelas pessoas e que elas gostem do que faço,mas também não estou aqui para servir ninguém. Meu trabalho é,em primeiro lugar,uma busca interna.
O humorista namora com Ilana Sales há 9 anos. No passado,ele chegou a falar que não pretendia se casar,por não gostar de coisa que “parecem obrigações”. O cenário,no entanto,mudou.
— Acho que estou em um momento mais família. Acho que vou casar e ter filhos,essa coisa toda. Eu e a Ilana já estamos juntos há muitos anos,estamos cada vez mais entrelaçados — conta. — Esse negócio de ser pai,eu também acho que vai rolar. Só tem que combinar co os russos.
Apesar de,hoje,ter a vida bem mais estruturada que os pais durante sua infância e juventude,Paulo acredita que seus filhos não conseguirão escapar de um pouquinho de caos.
— Não é nem opcional. O caos vai estar na criação deles independente de qualquer coisa. Faz parte da organização da minha família,a Ilana fica doida com eles. A minha família é do tipo que liga e fala: “Estamos chegando aí no sábado”. Aí eles alugam um ônibus e vêm todo mundo. Não tem pra onde fugir — conta.
