Lula repete a expansão pré-eleitoral de Bolsonaro, mas foca em crédito

Notícias de transporte Jul 7, 2026 IDOPRESS

O presidente do Brasil,Luiz Inácio Lula Silva,durante anúncio do programa de incentivo ao pagamento da dívida no Palácio do Planalto,em Brasília,em 29 de junho de 2026. — Foto: Evaristo Sá/AFP

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GERADO EM: 05/07/2026 - 21:51

Governo Lula Lança Pacote de R$ 215 Bi e Reacende Debate Fiscal

O governo Lula repete a estratégia pré-eleitoral de Bolsonaro ao lançar um pacote de estímulos,mas foca em crédito,com medidas que somam R$ 215 bilhões. Apesar de abordagens distintas,especialistas alertam para efeitos negativos a longo prazo nas contas públicas,com aumento da dívida e incertezas fiscais. A execução envolve isenções fiscais e programas sociais,impactando a economia e a política.

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Em julho de 2022,a três meses da eleição,o governo de Jair Bolsonaro conseguiu aprovar no Congresso uma proposta de emenda à Constituição — conhecida como PEC Kamikaze — para liberar gastos de R$ 41,2 bilhões em benefícios sociais,em uma estratégia criticada à época por seu viés eleitoral. Quatro anos depois,é a vez de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciar pacote de iniciativas que têm potencial de ajudá-lo a subir nas pesquisas de intenção de voto.

Embora as ações tenham naturezas distintas e,segundo economistas,os cálculos de impacto fiscal não sejam comparáveis,a avaliação desses especialistas é que ambas têm efeitos negativos a longo prazo para as contas públicas,elevando a dívida e a incerteza sobre a capacidade de o país honrar os compromissos.

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Em comum,Lula e Bolsonaro tiraram da cartola no ano eleitoral medidas para turbinar o consumo das famílias e a sensação de bem-estar econômico em meio a conjunturas desfavoráveis,seja o desemprego gerado pela pandemia ou o alto endividamento por causa da escalada de juros. No entanto,agora,o petista adota um método diferente do antecessor,que priorizou gastos diretos e desonerações. Lula foca em medidas de crédito.

Levantamento do economista Marcos Mendes,pesquisador associado ao Insper,calculou que medidas adotadas pelo governo Lula entre meados de 2025 e maio de 2026 somam R$ 215 bilhões em ações de estímulo. Isso inclui desde a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil,programas de renegociação de dívidas,como o Desenrola,até a ampliação de políticas sociais,como o Gás do Povo e o Luz do Povo.

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O estudo de Mendes mostra que 39% (R$ 83 bilhões) do impacto aparecem como despesa ou renúncia primária nos demonstrativos oficiais. O restante,61%,compreende linhas de crédito subsidiado (R$ 97 bilhões) e fundos extraorçamentários (R$ 35 bilhões),que não entram nas regras de limite de gastos nem no resultado primário (diferença de despesas e receitas). Segundo o estudo,apenas 4% do total entram diretamente no teto do arcabouço fiscal.

No entanto,tanto o pacote eleitoral de Bolsonaro quanto o de Lula aumentaram a dívida pública,considerada por Mendes como o “real termômetro da saúde fiscal”. “Ou seja,o contorcionismo no desenho das medidas não evita a deterioração fiscal que elas provocam”,afirma o estudo.

Fazenda: ‘temporário’

Alguns estudos ajudam a dimensionar os efeitos de cada pacote além do resultado primário. O economista Alexandre Manoel,da consultoria Global Intelligence and Analytics,por exemplo,elaborou um Monitor de Expansão Fiscal Ampliada,que mensura despesas financeiras e o estoque de restos a pagar. Ao comparar o início do período eleitoral dos dois governos,ele identificou que,no primeiro trimestre de 2022,a expansão nesse conceito era de 1,71% do Produto Interno Bruto (PIB). Na mesma época de 2026,chegou a 2,19%.

O cálculo de Manoel,que foi secretário nos ministérios da Fazenda,no governo de Michel Temer,e da Economia,no de Bolsonaro,não inclui,o efeito de um dos artifícios usados pelo ex-presidente: as desonerações de tributos de combustíveis de abril de 2022,após a eclosão da guerra na Ucrânia,que resultaram em déficit fiscal para os estados e precisaram ser compensadas nos anos seguintes.

Estimativa de mercado feita à época apontava impacto fiscal de cerca de R$ 250 bilhões sobre a União,estados e municípios. Esse número inclui tanto aumento de despesas quanto perda de arrecadação,não apenas gastos do governo federal.

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O economista destaca que a maioria das medidas de Lula não afeta o resultado primário,que caminha para ficar dentro da meta neste ano,mas aumenta a dívida pública da mesma forma que os gastos diretos,sem falar no impacto inflacionário,o que acaba levando o Banco Central a manter os juros elevados:

— Os programas de expansão de crédito estão ganhando volume desproporcional,que está alimentando a demanda,o PIB e atrapalhando o Banco Central. Ao mesmo tempo,o governo está cumprindo a meta do arcabouço fiscal. A participação do governo federal na economia vem se dando por meio de receitas financeiras e empurrando (para frente) restos a pagar (para cumprir a meta fiscal).

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Procurado,o Ministério da Fazenda argumentou que todas as medidas do governo cumprem a legislação fiscal e que as despesas financeiras “são computadas no Orçamento e,por serem despesas financeiras,não se confundem com as primárias”. Ainda de acordo com o texto,as despesas financeiras viabilizam “funding reembolsável,operacionalizado por instituições financeiras,focalizado em alguns setores que compõem elos relevantes da estrutura de oferta,como transporte rodoviário e mobilidade e logística urbanas”.

A Fazenda disse ainda que parte relevante das medidas tem caráter temporário,foram adotadas para mitigar choques externos,como a alta do petróleo. A pasta acrescentou que acompanha com “muita preocupação a dinâmica da dívida pública e segue sua trajetória de consolidação fiscal para ajudar a estabilizá-la”.

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Esse padrão de alívio no resultado primário de curto prazo,com passivo que retorna maior mais adiante,já havia sido observado no ciclo eleitoral anterior,embora com o uso de outros instrumentos,como impor desoneração à revelia de estados e municípios.

Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU),depois de reduzir o déficit para R$ 35,9 bilhões em 2021,o governo Bolsonaro fechou 2022 com superávit de R$ 54,9 bilhões. O próprio tribunal,porém,relaciona o déficit de R$ 264,5 bilhões de 2023,já sob Lula,em parte a deduções no cálculo feito no ano anterior,apontando indícios de que o resultado positivo de 2022 refletia regras contábeis específicas e receita extraordinária,não uma correção estrutural das contas.

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Parte dessa engenharia começou a tomar forma em dezembro de 2021,quando o Congresso promulgou a PEC dos Precatórios,que limitou o valor que a União era obrigada a desembolsar anualmente para pagar dívidas judiciais sem possibilidade de recurso,o que abriu espaço orçamentário para o aumento do Auxílio Brasil (nome dado pelo governo da época ao Bolsa Família) naquele ciclo eleitoral. A medida não era expansionista em si,mas evitou que o governo paralisasse suas atividades para pagar essas despesas obrigatórias.

Além disso,a chamada PEC Kamikaze,de 2022,driblou o teto de gastos para incrementar os benefícios sociais em R$ 41,2 bilhões,a três meses das eleições. Com isso,o Auxílio Brasil subiu de R$ 400 para R$ 600,caminhoneiros e taxistas passaram a receber vouchers de R$ 1 mil mensais e o Auxílio Gás passou a cobrir 100% do botijão para famílias inscritas no CadÚnico.

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Para a economista Juliana Inhasz,professora do Insper,a ausência de prazo em algumas medidas do pacote atual pode se tornar o principal fator de risco estrutural:

— A PEC de 2022 tinha um pacote fechado: eram cerca de R$ 41 bilhões,e estava dado. Já o desenho de 2026 é mais difuso e fragmentado,tem medida temporária,como a subvenção ao diesel,e medidas permanentes (como a ampliação da isenção de Imposto de Renda). Quando a medida não tem data de validade,ela altera a base do Orçamento de ano para ano. Na prática,você está dizendo para a sociedade que aquela mudança é para sempre.

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O diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI),órgão vinculado ao Senado,Marcus Pestana,faz leitura semelhante e aponta preocupação com a ausência de medidas estruturantes.

— Há um princípio muito simples na Lei de Responsabilidade Fiscal: a cada nova despesa ou a cada renúncia de receita,você tem que tomar medidas compensatórias,para não agravar o desequilíbrio — afirmou,ponderando que o cenário não é de crise fiscal aguda. — Não estamos à beira do abismo como a Argentina estava. Mas é uma situação delicada,com tendência muito ruim.

Efeito limitado

Felipe Salto,economista-chefe da Warren Investimentos,é mais assertivo na distinção entre os dois pacotes,embora concorde que ambos pressionam a trajetória fiscal.

— Lá,em 2022,foi algo realmente irresponsável. Nossas contas para o resultado primário estrutural indicam que,em 2026,deverá haver algum impulso fiscal positivo,mas nada fora do normal. O desafio é avançar pelo lado do gasto,conter o crescimento das despesas obrigatórias e discutir a rigidez orçamentária.

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O uso de medidas econômicas para reforçar candidaturas já foi adotado no passado. Em 2006,Lula elevou o salário mínimo de R$ 300 para R$ 350 em abril,com ganho real de 13%. Em 1998,Fernando Henrique Cardoso privatizou a Telebrás em julho,dois meses antes do pleito,e sustentou artificialmente o câmbio até a eleição. Em 2014,Dilma anunciou na véspera do Dia do Trabalhador um reajuste de 10% no Bolsa Família.

Para a cientista política Luciana Veiga,da FGV,o efeito eleitoral dessas medidas é limitado:

— Bolsonaro buscou evitar uma avalanche de votos da classe baixa em Lula. Talvez Lula queira segurar o que for possível no segmento de renda média. As medidas funcionam mais para reter do que para avançar. Esse tipo de estratégia não reverte rejeição.

Algumas medidas de estímulo no fim de mandato

Governo Bolsonaro

Ampliação do Auxílio Brasil/Bolsa Família para R$ 600Redução do ICMS sobre itens essenciaisRedução do IPI e isenção de impostos federais sobre diesel e gásAuxílio para taxistas e caminhoneiros de R$ 1 milCriação do Vale-gás para a população de baixa rendaCrédito consignado do Auxílio Brasil e BPCCrédito Brasil EmpreendedorSaque extraordinário do FGTS

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Governo Lula

Isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 milSubsídio e desoneração de combustíveisCrédito do Trabalhador,com foco em quem tem carteira assinadaDesenrola para empresas,famílias,adimplentes e FiesProgramas Luz do Povo e Gás do PovoMove Brasil para caminhões,motoristas de app e entregadoresMinha Casa,Minha Vida para renda de até R$ 13 milSaque complementar do FGTS

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