
Na Zona Oeste,passageiros fazem fila em ponto sem cobertura para garantir lugar no ônibus — Foto: Gabriel de Paiva
GERADO EM: 06/07/2026 - 22:47
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Entraves nas negociações entre os sindicatos dos Rodoviários e das Empresas de Ônibus (Rio Ônibus) podem deixar a população sem transporte pela segunda vez em menos de uma semana. Seis dias após a suspensão temporária da greve dos motoristas do município,o impasse persiste. Em resposta a reivindicações como aumento de 17% e piso salarial a partir de R$ 4 mil,representantes dos patrões sugeriram,ontem,na terceira audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT),elevar a proposta inicial de reajuste de 4,39% para 4,5%,além da manutenção da cesta básica.
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Estão previstas para hoje assembleias nos dois sindicatos. O Rio Ônibus vai discutir com seus associados se é possível apresentar nova proposta,atendendo a pedido feito pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pelo TRT para que o reajuste seja de,pelo menos,5% — esse foi o índice concedido a motoristas nos municípios de Duque de Caxias e Nova Iguaçu,na Baixada Fluminense. O Sindicato dos Rodoviários,por sua vez,discutirá a possibilidade de nova paralisação,caso não seja apresentada oferta superior aos 4,5%.
— É importante mencionar que as coisas têm causa e efeito. Hoje estamos recebendo menos do que em 2023,entre receitas e subsídios — diz João Gouveia,presidente do Rio Ônibus.
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O presidente do Sindicato dos Rodoviários,Sebastião José,afirma que a proposta apresentada após a categoria suspender temporariamente a greve,na última quinta-feira,não lhe parece ser de boa-fé. E diz que não defenderá a nova oferta da Rio Ônibus na assembleia da categoria,marcada para hoje,às 16h.
— Como não houve avanço significativo em relação à proposta apresentada na audiência anterior,ela pode ser recusada. E aí,o que vai acontecer? Vamos reformular a proposta inicial,de 17% de reajuste? Vamos aceitar um prazo maior para negociar? Até o horário da nossa assembleia,eles podem enviar outra proposta. Se não chegar,provavelmente vamos rejeitar os 4,5%. A possibilidade de uma greve dependerá da decisão dos trabalhadores — observa Sebastião José.
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No meio dessa contenda,a população que viaja em ônibus comuns (não articulados) sempre pode ter uma surpresa — boa ou ruim. Em abril de 2026,entraram em circulação mais 102 novos coletivos climatizados. Por outro lado,somente em 2026,duas companhias encerraram suas atividades em razão de dificuldades financeiras. Dados da prefeitura mostram ainda que 4,74% das viagens realizadas na cidade ainda são feitas por veículos sem ar-condicionado.
Equipes do GLOBO foram às ruas ontem e constataram que,dependendo do trajeto a ser percorrido,o passageiro ainda corre o risco de ter que encarar um veículo em más condições de limpeza e conservação,superlotação e climatização insuficiente,entre outros problemas.
De 1º de janeiro a 15 de maio de 2026,o município pagou R$ 261,6 milhões em subsídios aos consórcios de ônibus.
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Linhas com frotas mais novas cobrem Centro e Zona Sul — Foto: Joziane Barbosa/Agência O Globo
Para quem sai do Centro rumo a Copacabana,na Zona Sul da cidade,uma opção é a linha 455 (Méier - Copacabana),que faz parada em uma das pistas centrais da Avenida Presidente Vargas. O ponto é coberto e tem banco,mas não há placas de informação sobre linhas que passam por ali. Quando o coletivo chega,a espera é recompensada: o veículo está limpo e tem ar-condicionado eficiente,que não pinga nos assentos.
A partir de Copacabana,quem espera um veículo da linha 415 (Usina-Leblon) no ponto da esquina das ruas Tonelero e Siqueira Campos conta com a companhia de duas viaturas do programa Segurança Presença,estacionadas diante da estação de metrô Siqueira Campos e da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro,ambas perto dali. O transporte passa a cada cinco minutos.
Em outro ponto do bairro,um painel exibe o QR Code que,escaneado pelo celular,dá acesso ao portal Mobilidade Rio,onde o passageiro consulta as linhas que param ali,além de seus respectivos itinerários. O conforto também marca a viagem da linha LEDC150 (Vila Isabel–Siqueira Campos),antiga 433. Os veículos fazem parte da nova frota de ônibus da cidade e seguem padrão visual adotado pela prefeitura: o amarelo como cor predominante e uma faixa cinza (referente às áreas da Grande Tijuca,do Centro e da Zona Sul). O ar-condicionado é potente,e o interior ainda tem cheiro de novo.
Na volta para o Centro,a linha Troncal 01 (General Osório–Central),dependendo do horário,exige alguma paciência. Com apenas uma das catracas funcionando — como foi verificado na LEDC 150 —,filas se formam no embarque. No interior,o ônibus é limpo e tem ar-condicionado eficiente. A sensação de conforto,no entanto,diminui à medida que o coletivo lota a caminho da Central do Brasil.
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Linha 634,que desde maio é operada pela Mobi-Rio — Foto: Madson Gama
No “test drive” da Zona Norte,a rota começou pela Ilha do Governador,no ponto final da linha 634,que,em maio,passou a ser operada pela Mobi-Rio e recebeu 25 ônibus novos. O longo trajeto até a Praça Saens Peña,na Tijuca,durou 1h50.
O ônibus,limpo,silencioso e com ar-condicionado potente,partiu às 12h da localidade conhecida como Bananal,com apenas um passageiro. Cinco minutos depois,porém,já estava cheio,sobretudo de estudantes,e com muita gente em pé. Assim foi até a estação de BRT da Maré. Uma passageira desabafou ao passar na roleta: “Estou há meia hora esperando”. Com 25 minutos de viagem,ainda na Ilha,o validador do Jaé parou de ler os bilhetes. O motorista parou o ônibus e reiniciou a máquina,que voltou a funcionar após cinco minutos.
Da Saens Peña,a viagem continuou para a Praça Barão de Drumond,em Vila Isabel. O trajeto foi feito de 638,o pior do dia: janelas fechadas,ar-condicionado insuficiente,interior sujo,bancos danificados,barulho excessivo e entradas USB com defeito.
Dali,o próximo destino foi o Norte Shopping,no Cachambi,a bordo do 623. Com ar-condicionado funcionando,o veículo deixou a desejar em outros aspectos: também barulhento,com lixo no chão e sete das dez alavancas das saídas de emergência danificadas. O penúltimo trajeto,no 298,da Viação Pavunense,foi do shopping a Madureira,perto das 16h. O coletivo estampava a nova identidade visual dos ônibus do Rio e tinha climatização a contento,mas estava lotado e,na parte traseira,já exibia assentos pichados e sujeira.
Por fim,da frente do Império Serrano,em Madureira,no ponto sem abrigo e com grande aglomeração,a reportagem partiu para Honório Gurgel. Na linha 650,nenhum problema aparente. A questão é que o ônibus “é quase uma aparição”,como definiu uma passageira: a espera foi de mais de 40 minutos.
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Em Bangu,linha 393: longa espera e ônibus mal cuidados — Foto: Gabriel de Paiva
A diarista Rogéria de Souza,de 45 anos,sai de casa cedo para chegar ao trabalho no horário. Moradora de Inhoaíba,depende da linha 830 (Pedregoso-Campo Grande): no ponto final,a espera muitas vezes supera uma hora,sem bancos ou qualquer conforto. Apenas uma placa indica o local. Enquanto os minutos passam,a fila cresce. Quando o veículo aparece,a expectativa dá lugar à frustração: é um micro-ônibus,incapaz de atender a quantidade de passageiros acumulada.
— Essa luta é diária. Ônibus velho,sujo e sem ar nem horário para sair — resume a diarista.
Ao longo da Rua Campo Grande,paralela ao muro da linha férrea,também na Zona Oeste,ficam os pontos finais de diversas linhas com destino ao Castelo,no Centro. Por ali,o tormento da longa espera e da falta de estrutura se repete.
Em Bangu,mais demora,agora para a chegada da linha 393 (Bangu-Candelária) na Avenida Francisco Real,em frente ao Bangu Shopping. Após 27 minutos,a aparição do coletivo impressionou,mas não pelas razões certas: interior tomado por sujeira e pichações,como “Bonde CV”. O ar-condicionado,mesmo com janelas trancadas,não funcionava.
Mais adiante,na Zona Sudoeste,a precariedade persiste. No entorno do Riocentro,ônibus das linhas 348 (Riocentro-Candelária),352 e 368 circulam em condições precárias: portas danificadas,bancos soltos,janelas emperradas,pichações com nomes de facções criminosas e até baratas fazem parte da rotina. Em Curicica,no ponto final da linha 861 (Rio das Pedras- Curicica),o mato alto avança sobre a área,e lixo se acumula em cima da cobertura de concreto.
A chegada ao Terminal Alvorada traz algum alívio. Os ônibus utilizados nas linhas alimentadoras estavam limpos e com o ar-condicionado funcionando,embora não fossem veículos novos.
*Estagiária sob a supervisão de Cláudia Meneses
