
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante apresentação do Desenrola Adimplentes no Palácio do Planalto — Foto: Cristiano Mariz/Agência O GLOBO
GERADO EM: 07/07/2026 - 19:23
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Considerado como potencial vitrine eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva,o programa que prevê renegociar dívidas de autônomos que estão pagando em dia só foi lançado após consulta aos bancos públicos. A preocupação no Palácio do Planalto era que a resistência das instituições privadas ao Desenrola Adimplentes pudesse frustrar a iniciativa,que é uma aposta do petista para melhorar sua imagem frente ao público-alvo da medida. A medida só foi anunciada após informações de que as estatais teriam interesse em participar.
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O programa permite que até R$ 15 mil em dívidas no crédito pessoal sem garantia de trabalhadores informais sejam renegociadas com juros de até 1,99% ao mês. Atualmente,essas operações têm taxa média de cerca de 7%. É necessário ainda que o cliente tenha ao menos quatro parcelas já quitadas e que os pagamentos estejam em dia ou tenham atraso inferior a 90 dias. A expectativa do governo é de atender entre 200 mil e 500 mil pessoas.
Para aumentar as chances de o Desenrola Adimplentes ser bem-sucedido,o Ministério da Fazenda incluiu no pacote a cobertura das primeiras perdas da carteira (devido a eventuais calotes nos empréstimos renegociados) pela Fundo Garantidor de Operações (FGO),com 100% de garantia por operação,e disponibilizou R$ 3 bilhões para servir como fonte parcial de recursos para os novos financiamentos.
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Além disso,o programa permite a portabilidade,ou seja,que qualquer banco participante renegocie as dívidas elegíveis,não só aquelas originadas na instituição. Tanto o funding público quanto a portabilidade são novidades desta fase do Desenrola e não estão previstos na iniciativa destinada a pessoas com dívidas em atraso,lançada em maio.
Entretanto,desde a formulação da política,bancos privados indicaram que não tinham interesse em participar. O argumento é que o público elegível é muito limitado e não justificaria o esforço operacional,ainda mais considerando que o público está pagando em dia ou com atraso inferior a 90 dias.
Quando a inadimplência supera esse prazo,os bancos são obrigados a reservar mais recursos para eventuais perdas nas operações de crédito,o que prejudica a rentabilidade.
Mesmo assim,o governo decidiu bancar a medida porque os bancos públicos apontaram que,dentro da política de crédito de cada instituição,faria sentido renegociar parte da carteira. No entendimento do governo e das instituições estatais,com o funding público e a garantia do FGO,vale a pena rever alguns contratos em uma modalidade que tem juros muito elevados,para preservar bons clientes.
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No lançamento do Desenrola Adimplentes,o secretário-executivo do Ministério da Fazenda,Rogério Ceron,informou que,de início,a renegociação poderia ser buscada na Caixa e no Banco do Brasil,os únicos bancos que tinham sinalizado adesão à proposta.
Na prática,mesmo que só Banco do Brasil e Caixa participem,clientes com dívidas em outros bancos podem migrar para as instituições públicas,ampliando o impacto da medida.
Um executivo do setor bancário observa que o governo acabou "empurrando" a iniciativa "goela abaixo" dos bancos públicos diante das indicações de que os privados não entrariam. Os interlocutores do mercado privado,no entanto,minimizam o efeito que a portabilidade pode ter diante da complexidade do processo.
Os bancos participantes teriam que ter informações precisas sobre cada operação,como o saldo devedor e as condições,para conseguir fazer a renegociação. Nesse sentido,entre integrantes do mercado,o que prevalece é a percepção de que o efeito do programa deve ser pequeno.
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Nos bancos públicos,por sua vez,a avaliação é de que o "roubo" de clientes irá acontecer,mas só quando for vantajoso para as instituições.
Questionado,o secretário de Reformas Econômicas da Fazenda,Régis Dudena,diz que nenhum banco,nem público,nem privado,será forçado a renegociar as dívidas. Mas ele acredita que a concorrência possibilitada pela portabilidade deve incentivar instituições que estão confortáveis com a situação atual a participar. O objetivo da política,diz Dudena,é "achatar" as taxas de quem paga muito e conseguir mantê-los na adimplência.
— Uma coisa é você dizer: "Olha,o banco está disposto a avaliar". Até aqui,eu acho que ter uma estatal nos ajuda. Por isso que este governo acha que em alguns casos ter uma estatal pode ser benéfico. Mas se a linha de crédito vai ser implementada na vida real,na operação pessoa por pessoa,isso é análise de cada instituição financeira. Ela vai levar em consideração a sua política,seu apetite a risco,não vai ter uma ingerência — afirmou ele.
Essa não é a primeira vez que o governo conta com a participação dos bancos públicos nas medidas consideradas bandeiras eleitorais de Lula. São exemplos os programas para compras de motos para entregadores e carros para taxistas ou motoristas de aplicativo e o próprio Desenrola para inadimplentes. Nessas outras iniciativas,porém,parte das instituições privadas também se interessou e participa dos programas.
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Como mostrou o colunista Fábio Graner,o saldo de crédito dos bancos públicos já cresce em ritmo mais alto em 2026 até maio (último dado do BC) em relação aos privados,3,1% contra 1,8%.
Em nota,o Banco do Brasil afirma que reconhece a relevância das medidas anunciadas para estímulo à adimplência e que conduz ajustes para operacionalizar a linha,observando as avaliações técnicas e políticas operacionais para concessão de crédito da instituição.
"O Banco do Brasil reafirma seu compromisso com a oferta responsável de crédito,alinhada às suas políticas internas,e o apoio aos clientes na gestão de suas finanças",diz o BB. A Caixa não se manifestou.
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) diz,em nota,que a possibilidade de "roubar" operações no Desenrola Adimplentes "não altera significativamente a dinâmica concorrencial já existente no mercado de crédito".
Na avaliação da associação,deve funcionar de maneira similar à portabilidade tradicional. "Cabe destacar que a decisão de migrar a operação permanece condicionada ao interesse do cliente e à aprovação da instituição que concederá o novo crédito",afirmou.
Já a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) disse enxergar que o potencial de adesão das instituições financeiras tende a ser mais limitado do que o Desenrola para inadimplentes. "Nesse contexto,a participação será uma decisão de cada banco associado,observadas as condições da nova linha,as políticas de crédito da instituição,suas estratégias de negócio e critérios próprios de avaliação de risco."
