O diabo dançou em um clube de Belford Roxo

Notícias do turismo Aug 7, 2026 IDOPRESS

O grupo Cidade Negra,em 1994: banda nasceu em Belford Roxo,na Baixada Fluminense — Foto: Paula Johas/Agência O Globo

Há alguns dias,publiquei um vídeo nas redes sociais contando a história do suposto aparecimento do diabo em um baile funk no clube Heliópolis,em Belford Roxo. Desde então,recebo dezenas de mensagens de pessoas confirmando o fato,trazendo novas e bombásticas informações ou até mesmo acrescentando outros cantinhos onde o capiroto deu as caras. “Você esqueceu de mencionar que ele dançava até o chão”,pontuou um rapaz. “Não vai gravar que teve um caso parecido em Magé?”,provocou uma,como dizem,seguidora.

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No dia da gravação,já senti que o assunto mexia com o imaginário de uma galera. No boteco em frente,um ex-segurança do clube me contou que ele,apesar da altura e da força,ficou com medo. Outros responsáveis por zelar por uma noite tranquila se esconderam. “Uma bola de fogo bateu no teto”,acrescentou. No Jobi,no Leblon,a quilômetros de distância,um ex-frequentador bateu duas vezes no meu ombro e garantiu que foi verdade. “ Eu estava lá”,disse,olhando nos meus olhos.

Histórias envolvendo o diabo e a dança não são novidade para mim. No meu último livro,“Tá na História Brasil”,pela Globo Livros,pesquisei diversos cantos onde o “coisa ruim” já arriscou coreografias. Minas Gerais e até o Acre são dois exemplos. Em Rio Branco,capital acriana,o assunto foi mais longe: a boate Lua Azul fechou as portas por causa da força do boato. Nos estudos,encontrei testemunhas e com algumas conversei um bocado de tempo. Afirmo: nada é parecido com Belford Roxo. Parece que duas mil pessoas presenciaram o fenômeno das profundezas. Entre a dúvida e o credo,peço licença e troco de papo.

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Em março deste ano,a repórter Sophia Lyrio denunciou aqui em O GLOBO essa prática. Exibicionistas,o que não faltam são vídeos nas redes sociais mostrando as enormes conquistas ( tsc-tsc-tsc) dos rapazes. Em época de IA,o que falta para identificar e começar a punição? A lei de trânsito não funciona mais? A Lei Municipal 6.179/2017,que autoriza a Guarda a punir qualquer perturbação do sossego por barulho excessivo,não funciona? O art. 54 da Lei de Crimes Ambientais,que trata de poluição,incluindo a sonora,não é sério? Sabendo que um órgão vai empurrar a responsabilidade para o outro,fico aqui esperando a próxima exibição. Aviso ao leitor: nada de parar dois segundos em lugar proibido por emergência ou passar além do limite por um dos milhões de pardais por medo da violência. A multa chegará,e ai de você se não pagar.

Por falar em Belford Roxo

Belford Roxo não recebeu esse nome por causa de um jogador,médico,santo ou personagem ligado ao jogo do bicho. O município homenageia Raimundo Teixeira Belfort Roxo,engenheiro maranhense que participou de importantes obras de abastecimento de água no Rio de Janeiro.

Em 1888,uma forte estiagem provocou uma grave crise hídrica na Corte. Diante da falta de água,o engenheiro Paulo de Frontin assumiu o desafio de captar cerca de 15 milhões de litros em apenas seis dias. A operação,considerada praticamente impossível,entrou para a história como o “Milagre das Águas”.

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Belfort Roxo era amigo e colaborador de Paulo de Frontin e trabalhou nas obras que ajudaram a ampliar o abastecimento da cidade. Morreu no ano seguinte,sem acompanhar a dimensão do legado deixado pelo projeto.

Como homenagem,uma pequena localidade da Baixada Fluminense,anteriormente conhecida por nomes como Brejo,Ipueras e Calhamaço Brejo,passou a se chamar Belfort Roxo. Com o tempo,o “t” do sobrenome foi substituído pelo “d”,dando origem ao nome atual do município.

Os 'sinistros são de Bel'

Durante a década de 1990,os bailes funk realizados em Heliópolis,Belford Roxo,atraíam jovens de diferentes regiões da Baixada Fluminense. Muita gente frequentava o espaço para dançar e se divertir,mas os encontros também ficaram marcados pelas brigas entre grupos rivais. Era o período dos chamados bailes de corredor. Como funcionava? Os participantes eram divididos entre Lado A e Lado B,com um espaço aberto no centro da pista. Enquanto o DJ comandava a batida,grupos adversários avançavam uns contra os outros sob a vigilância dos seguranças.

A prática marcou uma geração e também alimentou a imagem de violência associada aos bailes funk daquele período. Anos depois,o verso “os sinistros são de Bel” ajudou a consolidar a fama de Belford Roxo dentro da cultura popular da Baixada Fluminense.

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A terra da banda Cidade Negra

A história do reggae brasileiro passa por um quintal de Belford Roxo. Foi no atual Centro Cultural Donana que jovens músicos se reuniam para ensaiar,trocar experiências e ouvir música. Como havia poucos equipamentos,os integrantes das bandas precisavam se revezar e dividir os instrumentos.

Desse ambiente nasceu o Cidade Negra. Em 1986,a antiga banda Lumiar adotou o nome que a tornaria conhecida em todo o país. O primeiro disco,“Lute para Viver”,foi lançado em 1991 e contou com a participação do jamaicano Jimmy Cliff,que também esteve no espaço cultural.

A capa do álbum valorizava as origens do grupo,com referências à Baixada Fluminense e às cores associadas ao reggae. Em 1992,o Cidade Negra tornou-se a primeira banda brasileira a se apresentar no Reggae Sunsplash,um dos principais festivais do gênero,realizado na Jamaica.

Toni Garrido assumiu os vocais em 1994 e participou da gravação de “Sobre Todas as Forças”. O álbum vendeu mais de 800 mil cópias e projetou definitivamente a banda no cenário nacional,com sucessos como “Onde Você Mora?” e “A Sombra da Maldade”. Nos anos seguintes,músicas como “Firmamento” e “Girassol” ampliaram a popularidade do grupo.

Grande Donana

Dona Ana era rezadeira e ajudava a cidade inteira. Se você estivesse com um problema,de espinhela caída a mal de amor,era um clássico bater na porta da casa da “Donana”. Ela atendia sempre. Além do Cidade Negra,a banda O Rappa também deu os primeiros passos naquele mágico quintal. Infelizmente,ela faleceu antes de ver o sucesso gigantesco que plantou.

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