
Kim Yu-mi (à direita),com seus filhos e sua mãe — todos desertores norte-coreanos — em Seul,Coreia do Sul,em 21 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times
A chuva castigava um frágil barco de madeira enquanto ele era lançado de um lado para o outro em um mar revolto,com o motor lutando contra as ondas. Sob a proteção de uma noite de tempestade,há três anos,a embarcação fugia da Coreia do Norte. A bordo estavam nove pessoas,entre elas duas crianças pequenas e uma mulher grávida de seis meses. O grupo conseguiu escapar de uma embarcação de patrulha e atravessou a fronteira marítima mais fortemente vigiada do mundo.
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Kim Yu-mi,uma desertora norte-coreana,usa o celular para mostrar parte da rota de fuga,em Seul,em 21 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times
Pouco depois de o barco entrar em águas sul-coreanas,uma embarcação de guerra de alta velocidade da Marinha da Coreia do Sul avançou em sua direção,cortando a água em manobras agressivas ao redor da pequena embarcação. Atiradores de elite apontaram miras a laser para o peito dos três homens adultos que estavam no barco de madeira.
Por um alto-falante,uma voz perguntou:
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— Vocês estão perdidos? Estão com problemas no motor?
Os norte-coreanos responderam aos gritos:
— Por favor,nos ajudem. Estamos desertando.


Os pontos vermelhos das miras continuaram fixos sobre seus peitos. Os sul-coreanos não queriam correr riscos: os três homens usavam uniformes militares norte-coreanos,escolhidos como disfarce para a fuga.
Desesperados,eles gritaram para que os demais passageiros saíssem do compartimento apertado da embarcação e provassem que eram civis. As primeiras a aparecer foram as duas crianças — uma menina de 5 anos e um menino de 3 —,ambas pálidas e debilitadas pelo enjoo do mar. Só então os lasers deixaram de apontar para os homens.
Os norte-coreanos eram liderados por Kim Il-hyeok e seu irmão mais novo,Yi-hyeok. Unidos por laços de sangue e casamento,os dois,então na casa dos 30 anos,viajavam com a mãe e suas respectivas famílias: a companheira grávida de Il-hyeok; a esposa de Yi-hyeok; os dois filhos do casal; a sogra de Yi-hyeok; e seu cunhado.

Kim Il-hyeok,um desertor norte-coreano,em um parquinho em Seul,em 24 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times
A família,que desertou em 2023,está entre as poucas que conseguiram escapar da Coreia do Norte depois que o líder Kim Jong-Un impôs um rígido bloqueio durante a pandemia de coronavírus. Eles chegaram à Coreia do Sul trazendo relatos raros sobre um país que permaneceu praticamente isolado do restante do mundo. Alguns detalhes da fuga nunca haviam sido divulgados.
— Naquela noite atravessamos um mar de escuridão para um mar de liberdade — lembra Yu-mi,esposa de Yi-hyeok.
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Os irmãos cresceram em Pyoksong,no sudoeste da Coreia do Norte. Durante a grande fome do fim dos anos 1990,o pai deles,agente de segurança ferroviária,perdeu a confiança no regime após testemunhar a morte de crianças por desnutrição. Antes de morrer,em 2014,levou os filhos até uma colina e apontou para as luzes do outro lado da fronteira,na Coreia do Sul.
— É para lá que devemos ir — disse. — Para viver e andar de cabeça erguida.
Yu-mi,que vivia na cidade costeira de Kangryong,descreve a Coreia do Norte como "uma prisão sem grades". Proibidos de viajar e isolados da internet,os norte-coreanos eram obrigados a assistir propagandas e sessões de doutrinação. Por outro lado,filmes,séries e músicas sul-coreanas circulavam clandestinamente em pen drives contrabandeados da China. Il-hyeok chegou a ser preso por "delinquência capitalista" por consumir cultura sul-coreana.
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Após a morte do pai,porém,o plano de fugir foi deixado de lado. Yi-hyeok casou-se com Yu-mi,teve dois filhos e passou a trabalhar em uma empresa pesqueira administrada pelos militares,chegando a ganhar,em dias de boa pesca,mais que o salário anual de um trabalhador comum. Il-hyeok iniciou um relacionamento com uma professora de jardim de infância.
— Sempre que eu falava em fugir,meu irmão mandava eu calar a boca — lembra Il-hyeok.

Kim Il-hyeok,mostra uma foto de seu casamento em Seul à sua atual esposa — que estava grávida de seis meses quando fugiram — em seu bairro na capital sul-coreana,em 24 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times
Então veio a pandemia.
Durante a pandemia,a Coreia do Norte impôs um dos lockdowns mais rígidos do mundo. O acesso ao mar foi bloqueado com cercas de arame farpado e guardas armados,a atividade pesqueira praticamente parou e as dívidas da família cresceram. Ao mesmo tempo,segundo Yu-mi,a elite continuava tendo acesso a alimentos.
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As execuções públicas também se tornaram mais frequentes. Milhares de pessoas eram obrigadas a assistir à morte de acusados de crimes violentos ou de distribuir conteúdos considerados "antissocialistas",como séries sul-coreanas. Ao fim das mortes,a multidão se dispersava em silêncio.
— O objetivo era espalhar o medo e apagar qualquer fantasia sobre o mundo lá fora — afirma Il-hyeok.
Os irmãos já não discutiam mais se deveriam fugir,mas apenas como fariam isso. No início de 2023,a Coreia do Norte começou a flexibilizar as restrições impostas durante a pandemia. Os barcos de Yi-hyeok estavam entre os primeiros autorizados a voltar ao mar.
Mas eles sabiam que a oportunidade estava se fechando. As autoridades se preparavam para instalar câmeras de vigilância ao longo da costa para impedir novas deserções.
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Os irmãos passaram a conversar por telefone usando códigos. "Bom tempo" significava que uma tempestade se aproximava,obrigando as embarcações de patrulha a retornar ao porto. "Conseguimos uma boa pesca. Venha para cá" significava que Il-hyeok deveria levar a mãe e a namorada para Kangryong.
Na noite de 6 de maio de 2023,o tempo e a "pesca" estavam perfeitos. A mãe de Yu-mi foi a última a decidir participar da fuga.
— Posso morrer tentando escapar — diz ela. — Mas,se minha família chegasse ao Sul e eu ficasse para trás,seria como estar morta de qualquer forma. Eu passaria a ser apenas parente de traidores.

Kim Yu-mi (à esquerda) e sua mãe,ambas desertoras norte-coreanas,em 21 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times
O cunhado de Yi-hyeok saiu de barco antes dos demais e aguardou a família em alto-mar. O restante da família atravessou uma colina costeira repleta de minas terrestres até chegar a uma praia isolada.
Para carregar com mais facilidade as duas crianças pequenas,os irmãos colocaram os filhos de Yi-hyeok dentro de sacos de estopa,fecharam-nos e os carregaram nos ombros.
Antes que os sacos fossem fechados,Yu-mi viu os filhos olhando para ela.
— Pensei que aquela pudesse ser a última vez que os veria — relata. — Chorei,e meu marido também ficou com os olhos cheios de lágrimas.


Do mar,o cunhado avistou o sinal combinado: uma lanterna piscando três vezes na praia. Então conduziu o barco até a areia para buscar o restante da família.
Por volta das 22h,o barco deixou a costa em baixa velocidade para seguir silenciosamente rumo à ilha sul-coreana de Yeonpyeong,a cerca de 15 quilômetros dali.
No compartimento inferior da embarcação,Yu-mi percebeu,de repente,que o motor acelerava ao máximo. A fumaça preta do escapamento invadiu o interior do barco,provocando enjoo nas mulheres e nas crianças.
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O filho mais novo começou a revirar os olhos. Ela o levou para o convés em busca de ar fresco e encontrou os homens em pânico.
— Foi quando vi o holofote de um barco de patrulha norte-coreano varrendo as ondas atrás de nós — conta. — Meu coração afundou.
Caso fossem alcançados,os irmãos planejavam lançar mulheres e crianças ao mar com coletes salva-vidas,confiando que a corrente as levaria até a Coreia do Sul. Eles seguiriam em outra direção para distrair os perseguidores e resistiriam com facas e bombas caseiras.
Para deixar o barco mais leve,Il-hyeok lançou ao mar ferramentas,uma rede de pesca e outros equipamentos.
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Aos poucos,o facho de luz do barco perseguidor desapareceu. Mais tarde,os irmãos levantaram uma hipótese: a rede de pesca que haviam jogado na água pode ter se enroscado na hélice da embarcação norte-coreana.
A aposta de duas horas terminou pouco depois da meia-noite. O barco foi interceptado por uma embarcação da Marinha sul-coreana e os nove integrantes da família foram levados a bordo.
Um oficial os recebeu com uma única frase:
— Bem-vindos ao paraíso.
A adaptação à Coreia do Sul foi marcada por sucessivos choques culturais. A família descobriu uma sociedade com liberdade de informação,eleições competitivas e hábitos muito diferentes dos vividos no Norte.

Kim Yu-mi,em 21 de junho de 2026 — Foto: Woohae Cho / The New York Times
Em junho,Il-hyeok votou pela primeira vez em uma eleição com vários candidatos. Na Coreia do Norte,os eleitores recebiam uma cédula com apenas um nome e depositavam o voto na urna do "sim" diante dos retratos da família Kim.
A nova vida,também trouxe dificuldades. Após 19 meses na Coreia do Sul,Yi-hyeok morreu em um acidente de mergulho. A mãe dos irmãos e a esposa de Il-hyeok também foram diagnosticadas com câncer.
Apesar das perdas e das dificuldades financeiras,Il-hyeok afirma que jamais se arrependeu da decisão de fugir.
— Cem por cento.
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Antes de morrer,Yi-hyeok disse que havia deixado a Coreia do Norte para poupar os filhos da doutrinação nas escolas. Hoje,as crianças frequentam escolas sul-coreanas e,adaptaram-se rapidamente à nova vida.
— Meu marido me deu,a mim e aos nossos filhos,a liberdade que prometeu antes de morrer.
Ao fugir,a família também levou as cinzas do pai,realizando o último desejo dele de alcançar a Coreia do Sul.
