
Plenário do STF durante sessão de julgamento — Foto: Gustavo Moreno/STF
GERADO EM: 19/07/2026 - 20:44
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Entre alianças sólidas,divergências acaloradas e aproximações pontuais,o Supremo Tribunal Federal (STF) reúne quatro blocos de ministros,revela levantamento do GLOBO a partir dos votos em mais de sete mil processos em 2026 e 2025. A análise,feita com o auxílio de inteligência artificial,mostra que a "geopolítica da Corte" tem um grupo mais sólido,porém menos numeroso e muitas vezes vencido; e outros três com integrantes que se movem estrategicamente para formar maiorias.
À frente dos casos de maior impacto no STF no momento,como as investigações sobre o Banco Master e as fraudes no INSS,o ministro André Mendonça forma ao lado de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux o grupo mais coeso — e,por ser minoritário,o que fica isolado com mais frequência. Nos casos em que não houve unanimidade em votações neste ano,os ministros votaram juntos,em alguma medida,em três a cada quatro vezes.
Mais distantes deles,estão três correntes,com formações menos fixas. Uma delas é composta por Gilmar Mendes,Cristiano Zanin e Dias Toffoli; outra reúne Cármen Lúcia e o presidente da Corte,Edson Fachin,os dois mais envolvidos na adoção de um Código de Conduta; e a terceira é representada por Flávio Dino e Alexandre de Moraes. A análise aponta ainda um movimento da última dupla: Moraes está mais perto do bloco com Gilmar,Zanin e Toffoli,enquanto Dino também tem afinidades com Cármen e Fachin.
O GLOBO levou em conta os processos que tramitaram nos plenários físico e virtual do colegiado de dez ministros — a Corte está com um integrante a menos desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso no fim do ano passado. Os dados mostram,além das afinidades entre os integrantes do STF,os ministros que mais figuraram dentro da corrente vencedora nos julgamentos deste ano: Cármen,seguida por Zanin e Gilmar.
A geografia pôde ser observada,por exemplo,no julgamento da tese que definiu a responsabilização das big techs pelos conteúdos publicados,quando Mendonça,Nunes Marques e Fux fizeram contrapontos. Um dos pontos,tratou da obrigação de plataformas retirarem do ar,imediatamente,conteúdos criminosos. O trio defendeu a medida,mas com a ponderação de ser necessário haver "manifesta ilicitude" para tal enquadramento — uma espécie de gradação para a imposição,que não constou da tese vencedora.
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Mendonça,Fux e Nunes Marques também votaram em conjunto,no julgamento de 77 ações penais analisadas no plenário virtual do STF. Em uma delas,defenderam a absolvição,por falta de provas,de acusados por incitação a crimes contra a democracia,em razão da participação em acampamento montado na frente do QG do Exército às vésperas da eleição de 2022. No entanto,os demais ministros votaram pela condenação dos réus,ainda que com ressalvas pontuais de Fachin e Zanin sobre o tamanho das penas impostas aos sentenciados. Fux e Mendonça também votaram para rever a condenação e absolver uma mulher presa dentro do Palácio do Planalto durante o 8 de janeiro.
O alinhamento aconteceu também na análise sobre a prorrogação da CPI do INSS,que foi derrubada pela Corte,com Mendonça e Fux juntos do lado derrotado. Também é possível verificar a convergência entre integrantes do trio em ações que discutem a validade de atos do Executivo,como o julgamento que derrubou decretos municipais que dispensaram a apresentação de comprovante de vacinação contra a Covid-19 para a matrícula escolar de crianças e adolescentes em Santa Catarina,finalizado neste ano. Mendonça e Nunes Marques votaram para validar as normas,mas acabaram isolados.
No caso deles dois,indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro,a proximidade extrapola o STF. A dupla tem demonstrado afinidade também no Tribunal Superior Eleitoral (TSE),instância em que vão comandar a logística da eleição. Ao assumir a presidência do órgão,Nunes Marques destacou que visava uma gestão mais compartilhada com Mendonça,seu vice.
O professor Oscar Vilhena,diretor da Escola de Direito da FGV-SP,acrescenta que os dois magistrados e Fux têm demonstrado grande afinidade,especialmente em temas de natureza criminal e compartilham uma preocupação com a liberdade econômica. O trio foi formado a partir da aproximação de Fux,que ocorreu em 2026.
— Ele (Fux) foi o ministro que se deslocou de forma maior ao longo dos últimos anos. Essa movimentação ficou muito marcada no julgamento de 8 de janeiro,com uma manifestação longa,contundente. Mas ela vem sendo percebida em outras áreas — aponta Vilhena.
O levantamento corrobora essa inflexão de Fux,que passou do grupo "da maioria" na Corte para o mais isolado. Em 2025,o ministro tinha uma convergência maior de votos com Moraes,Cármen e Toffoli e ficava mais distante de Nunes Marques e Mendonça. Além dos dados,o movimento ficou claro com as declarações de Fux no julgamento em que votou pela absolvição do ex-presidente Jair Bolsonaro,no ano passado,quando a mudança de rota começou a ficar mais visível.
Na ocasião,em um voto de nove horas na Primeira Turma do STF,Fux sustentou,que a "simples defesa da mudança do sistema de votação não pode ser considerada narrativa subversiva". Um mês depois,mudou de entendimento em julgamentos sobre participantes do 8 de janeiro e afirmou que a análise anterior "incorreu em injustiças". O ministro pediu,inclusive,para mudar de Turma no STF e passou a integrar justamente o colegiado integrado por Mendonça e Nunes Marques.
Outra manifestação de Fux em desalinho com o bloco que integrava anteriormente ocorreu durante as primeiras sessões de julgamento sobre o formato de eleição no Rio para o mandato-tampão,já que Cláudio Castro (PL) renunciou na véspera da retomada do caso em que foi condenado no TSE por abuso de poder político e econômico e ficou inelegível — Nunes Marques e Mendonça foram justamente os dois magistrados que votaram pela absolvição de Castro.
Após críticas dos colegas,especialmente Moraes,Gilmar e Dino,sobre a segurança no Rio,Fux saiu em defesa de seu estado,citou o caso Master e afirmou que,se os políticos cariocas "tiverem que ir para o inferno,vão acompanhados de altas autoridades".
Na outra ponta do STF,três blocos se encontram a depender do tema em análise. Mais alinhado em geral a Moraes,Dino se aproxima de Fachin em processos trabalhistas e outros que tratam da intervenção do Estado na economia. Nos temas relacionados ao trabalho,Moraes,por sua vez,tem mais afinidades com as visões de Gilmar e Zanin.
Essa mobilidade entre os grupos aconteceu,no julgamento que validou a lei que destinou parte do Parque Nacional do Jamanxim,no Pará,ao projeto Ferrogrão,ferrovia que vai ligar o estado a Mato Grosso. Na ocasião,foram derrotados Dino,que defendeu o estabelecimento de requisitos para a aplicação da lei,e Fachin,que votou para declarar a norma inconstitucional. Os demais ministros votaram para rejeitar a ação que questionava a alteração na área do parque paraense. A ministra Cármen Lúcia não votou no caso porque estava ausente da sessão.
A interação entre blocos distintos também foi vista na análise sobre a nova lei de improbidade administrativa,em que houve certa composição entre os ministros em meio à discussão sobre o prazo de prescrição de ações sobre fraudes e desvio de dinheiro público.
Em uma derrota parcial para o Congresso,a maioria da Corte restabeleceu um período maior para a tramitação de tais processos,ainda que colocando um teto para a duração dos casos. Neste ponto,ficaram vencidos Nunes Marques e Fux — desta vez,acompanhados por Gilmar. Inicialmente,Mendonça acompanhava tal divergência,mas acabou,assim como Toffoli,ajustando o voto,para acompanhar os posicionamentos do bloco com Dino e Moraes.
— Pode haver uma coincidência de interpretações,mas o único alinhamento válido é com a própria Constituição,que é guardada,em última análise,pelo STF. É a única fidelidade que um ministro deve — pondera o ministro aposentado do STF Carlos Ayres Britto.
A professora Maria Tereza Sadek,do Departamento de Ciência Política da USP,avalia que os dados refletem as principais alianças da Corte,mas aponta que elas são circunstanciais e têm um traço "político-ideológico". Para a pesquisadora,mais do que a forma com que os ministros se aglutinam hoje,chama atenção a atuação individualizada dos integrantes da Corte,o que enfraquece a ideia de coesão institucional.
A ponderação está em linha com a leitura de ministros de que o STF passa por um momento de mudanças na correlação de forças,que acabam refletidas nos julgamentos do plenário — especialmente no físico,onde os ministros costumam mandar recados. Interlocutores do Supremo entendem que os grupos seguem as dinâmicas internas e expõem também o grau de tensionamento,que foi evidenciado no caso Master.
A investigação sobre as fraudes do grupo do banqueiro Daniel Vorcaro não chegou ao plenário,pois é tratada na Segunda Turma do STF,mas as discussões no colegiado revelam parte das divisões internas sobre o tema.
O julgamento sobre as prisões do primo e do pai de Vorcaro,Felipe e Henrique,respectivamente,se tornou o maior exemplo do dissenso. Na ocasião,Gilmar fez uma série de críticas à condução de acordos de colaboração premiada e ao papel de magistrados em investigações criminais,buscando traçar paralelos entre o caso Master e a Operação Lava-Jato,que sofreu derrotas no STF. Do outro lado,Mendonça afirmou que as investigações sobre o banco revelaram "contornos de máfia". O relator ainda defendeu sua atuação,relembrando de uma conversa com o próprio decano,sobre ser necessário "ter coragem para ser ministro do STF".
