Ventos extremos e previsão de El Niño ampliam debate sobre agroecologia diante da crise climática

Notícias do turismo Aug 7, 2026 IDOPRESS

AFB Agro — Foto: Divulgação

Os ventos intensos registrados em diferentes regiões do Brasil nas últimas semanas,somados à previsão de um novo episódio de El Niño e ao aumento da frequência de secas prolongadas,enchentes e ondas de calor,reforçam os desafios impostos pelas mudanças climáticas à produção de alimentos. Em meio ao avanço dos eventos extremos,cresce o debate sobre modelos agrícolas capazes de reduzir perdas e tornar a produção mais resistente às variações do clima.

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Entre as alternativas apontadas por organismos internacionais está a agroecologia,sistema que prioriza a diversificação de cultivos,a conservação do solo e a recuperação dos ecossistemas. Em seu relatório sobre impactos das mudanças climáticas,o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) cita abordagens agroecológicas entre as estratégias que podem aumentar a resiliência dos sistemas alimentares. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) também relaciona essas práticas à conservação da biodiversidade e à adaptação da agricultura aos eventos extremos.

Diferentemente da monocultura,que concentra poucas espécies e tende a aumentar a vulnerabilidade das lavouras a pragas,doenças e oscilações climáticas,os sistemas agroecológicos combinam diferentes plantas e árvores em um mesmo ambiente produtivo.

Segundo Carla Guindani,CEO da Raízes do Campo,a agroecologia vai além da produção orgânica porque considera o funcionamento de todo o ecossistema onde os alimentos são produzidos. O modelo combina práticas como a diversificação de cultivos,a conservação do solo,a recuperação da biodiversidade e a proteção de nascentes e matas ciliares para reduzir a necessidade de intervenções externas e aumentar a capacidade de adaptação das lavouras.

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— Não se trata apenas do produto final ou da ausência de determinados insumos. A proposta é organizar todo o ecossistema,promovendo a diversificação de culturas,a conservação do solo e a proteção da biodiversidade — diz.

Ela afirma que sistemas equilibrados exigem menos intervenções externas e,por isso,conseguem responder melhor às mudanças climáticas.

— Quando o ecossistema está equilibrado,a necessidade de intervenções é muito menor,tornando a produção mais resiliente e sustentável.

Mitigação e adaptação

Os efeitos da agroecologia costumam ser divididos em duas frentes: mitigação e adaptação. Na mitigação,práticas como o aumento da matéria orgânica no solo,a diversificação dos cultivos e a preservação da vegetação nativa favorecem o armazenamento de carbono e reduzem a dependência de fertilizantes e defensivos químicos. Segundo a FAO,esses sistemas também contribuem para conservar a biodiversidade e restaurar serviços ecossistêmicos essenciais para a produção agrícola.

Já na adaptação,os benefícios aparecem na capacidade de resposta aos eventos extremos. Solos ricos em matéria orgânica conseguem absorver e armazenar mais água do que áreas degradadas,reduzindo os impactos tanto das secas quanto das chuvas intensas.

Guindani avalia que os efeitos positivos também se refletem na ocupação do território. Segundo ela,o fortalecimento da agricultura familiar pode reduzir o êxodo rural e favorecer um desenvolvimento mais equilibrado entre áreas urbanas e rurais.

— A concentração de terras e o êxodo rural estimulam o crescimento acelerado das cidades,ampliando áreas impermeabilizadas e a vulnerabilidade às enchentes e às ondas de calor. Quando fortalecemos a agricultura familiar,também contribuímos para um desenvolvimento territorial mais equilibrado.

A perspectiva de um novo episódio de El Niño reforça esse debate. O fenômeno costuma alterar o regime de chuvas em diferentes partes do planeta e aumentar o risco de secas e precipitações intensas em parte do território brasileiro.

Embora a agroecologia não impeça a ocorrência desses fenômenos,sistemas agrícolas com maior diversidade tendem a apresentar maior capacidade de conservar água,proteger o solo e reduzir perdas durante eventos extremos.

— Não existe uma solução única para a crise climática. Mas sistemas produtivos biodiversos,com solo vivo,água protegida e florestas conservadas,são muito mais resistentes aos extremos climáticos. A agroecologia não impede que esses fenômenos aconteçam,mas ajuda a reduzir seus impactos sobre a produção de alimentos. Essa capacidade de adaptação passa a ser uma necessidade — explica.

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