
Os novos bispos ordenados pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X nesta quarta-feira,a contragosto do Vaticano — Foto: Fabrice Coffrini/AFP
GERADO EM: 01/07/2026 - 15:15
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A Fraternidade São Pio X,responsável por ordenar,por conta própria,quatro novos bispos,é influente em alguns círculos conservadores. O grupo,que leva o nome do Papa Pio X — um Pontífice do início do século XX ferrenhamente antiliberal —,vem causando problemas à unidade da Igreja Católica,um pilar central do pontificado de Leão XIV. Uma ruptura formal comprometeria esse objetivo.
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A comunidade fundada em 1970 pelo bispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) reúne quase 600 mil fiéis,segundo estimativas,que seguem uma interpretação estrita da tradição doutrinal e litúrgica. A fraternidade rejeita as evoluções da Igreja desde o Concílio Vaticano II (1962-65),defendendo um modelo de sociedade patriarcal e um ideal de Estado teocrático.
Além disso,segue o rito "tridentino",caracterizado pelo uso do latim e por uma liturgia altamente codificada. Nas missas,o sacerdote fica de costas para os fiéis,voltado para o altar.
As reformas da década de 1960 puseram fim a séculos de ensinamentos antijudaicos,buscaram a reconciliação com protestantes e outras igrejas e abraçaram a liberdade religiosa e o engajamento com o mundo moderno. O Vaticano II também trouxe mudanças litúrgicas,como a permissão para a missa em língua vernácula e a celebração com o padre voltado para a congregação. A Fraternidade São Pio X afirma que essas mudanças minam a fé.
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A disputa em torno da antiga missa em latim reflete uma rejeição mais ampla ao rumo reformista adotado pela Igreja desde o Vaticano II e reforçado durante o pontificado de Francisco. Por isso,ele foi frequentemente acusado por grupos e líderes conservadores de abraçar a heresia e semear confusão doutrinária.
Na quarta-feira,a missa de ordenação dos bispos à revelia de Leão XIV aconteceu ao ar livre,diante de milhares de fiéis,na localidade de Ecône,no mesmo lugar onde Marcel Lefebvre ordenou quatro bispos em 1988,conduzida pelo bispo católico tradicionalista suíço Bernard Fellay.
— É um dia histórico. Está acontecendo algo muito importante agora,isso não vai parar aqui — declarou à AFP Jean-Pierre Stauffer,de 79 anos,que viajou de Genebra para assistir à cerimônia,apesar da chuva.


Para o Vaticano,ordenar um bispo sem o aval do Papa é um ato de insubordinação direta que acarreta a excomunhão automática dos bispos (consagrados e consagrantes) e constitui um "ato cismático". A fraternidade alega em sua defesa que ordena bispos por "necessidade",já que conta apenas com dois em atividade,o que limita seu crescimento.
No começo da semana,Leão XIV já havia advertido que,em caso de cisma,os sacramentos,como o matrimônio ou a confissão,administrados pelos bispos deixariam de ser reconhecidos pela Igreja Católica. Em 1988,o Papa João Paulo II fez um apelo semelhante à fraternidade para dissuadi-la de ordenar novos bispos,mas o pedido não foi atendido. A ordenação provocou uma excomunhão imediata,suspensa em 2009.

Fraternidade São Pio X ordena quatro bispos em desafio ao Vaticano e amplia risco de cisma
A nova ruptura por parte dos defensores da missa em latim reacende essa indignação entre muitos católicos de direita. Às vezes,eles defendem a fraternidade suíça; outras vezes,criticam-na por prejudicar a própria causa. No entanto,a crise tornou-se,de modo geral,uma forma de questionar ou opor-se frontalmente às reformas do Vaticano II.
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O bispo Athanasius Schneider,do Cazaquistão — uma liderança global entre os conservadores —,afirmou que excomungar a fraternidade seria "injusto" e que "a exigência de aceitar o Vaticano II" e o atual rumo da Igreja constituem "a raiz do problema". Leila Marie Lawler,comentarista conservadora,descreveu a fraternidade como "quase uma distração":
— Eles poderiam desaparecer,e os problemas que enfrentamos continuariam existindo.
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A crise ameaça arrastar Leão XIV para os conflitos polarizadores que atormentam tantas sociedades,justamente no momento em que ele emerge como a voz moral mais proeminente do mundo em questões como direitos humanos,guerra,inteligência artificial,migrantes e os pobres. O descontentamento ameaça transformar-se em um estado duradouro de alienação,marcado por uma raiva instintiva. É uma atitude que agora ameaça pôr fim à "lua de mel" de Leão XIV.
Uma ação firme do Papa também poderia provocar uma reação negativa da direita,mas também poderia dividi-la. Até agora,os conservadores tentaram interpretar da melhor maneira possível o pontificado de Leão XIV — que já dura um ano — e podem relutar em se voltar contra um Papa de 70 anos que poderá permanecer no cargo por muito tempo.
Eles também podem encarar a censura do Pontífice como um aviso para moderar seus próprios instintos divisionistas,isolando os tradicionalistas radicais e deixando que o movimento deles se esvazie aos poucos. Essa é a vantagem de ser Papa. Democracias modernas que enfrentam insurgências de direita baseadas em ideais de "sangue e solo" nem sempre têm a opção de agir de forma tão decisiva. Você pode gostar disso,caso concorde com o homem que está no comando.
(Com New York Times)
