Sem o estrondo do Concorde: EUA dão o primeiro passo para reviver os voos supersônicos

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Boom Supersonic Overture — Foto: Divulgação

RESUMO

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GERADO EM: 01/07/2026 - 17:09

EUA Avançam em Regras para Retorno de Voos Supersônicos até 2027

Os EUA deram um passo para reviver voos supersônicos ao propor regras que substituem a proibição de voos acima de Mach 1 por critérios de ruído,permitindo operações sem estrondo sônico perceptível. A FAA visa concluir as regulamentações até 2027. A Boom Supersonic,com pedidos de grandes companhias aéreas,espera iniciar operações em 2029,prometendo viagens rápidas e acessíveis,apesar dos desafios de viabilidade econômica.

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A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) propôs nesta terça-feira a primeira regra que pode acabar com a proibição de 53 anos sobre voos supersônicos no espaço aéreo americano. A medida troca o critério atual,baseado puramente na velocidade da aeronave,por um parâmetro de ruído. Qualquer avião poderá romper a barreira do som sobre o território americano desde que o estrondo sônico não ultrapasse o equivalente ao barulho de um trovão distante sobre a superfície.

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A proposta foi anunciada pelo secretário de Transportes dos EUA,Sean Duffy,e assinada pelo administrador da FAA,Bryan Bedford. Segundo o órgão,avanços em engenharia aeroespacial,ciência de materiais e técnicas de voo possibilitaram operar aeronaves supersônicas sem que o estrondo sônico chegue ao solo,obstáculo que,desde a década de 1970,manteve esse tipo de viagem restrito a rotas sobre o oceano.

A regra publicada nesta terça trata apenas do ruído gerado na viagem de cruzeiro. Um segundo texto,com padrões para pouso e decolagem,ainda será proposto pela FAA ainda este ano. A agência estabeleceu como meta concluir as duas regulamentações até meados de 2027.

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A proibição em vigor remonta a 1973,quando a FAA editou uma norma vetando o tráfego civil acima de Mach 1 sobre o território continental americano. À época,o estrondo sônico gerado pela quebra da barreira do som,perceptível como uma explosão no solo,provocava reclamações de moradores e,em alguns casos,danos a construções ao longo das rotas de teste.

Voo supersônico do avião demonstrador XB-1 — Foto: Boom

A restrição nunca impediu o avião comercial mais famoso da história supersônica,o Concorde,de operar comercialmente,já que suas rotas regulares ligavam Nova York a Londres e Paris sobre o Atlântico. Mas o veto americano fechou a porta para qualquer rota doméstica nos Estados Unidos,limitando o mercado potencial da aeronave e contribuindo para a equação financeira que,décadas depois,selaria seu fim.

A guinada começou em junho de 2025,quando o governo Trump assinou uma Ordem Executiva determinando à FAA que revisasse o banimento. Em paralelo,a Câmara dos Representantes aprovou em março o projeto que obriga a agência a permitir voos supersônicos sem estrondo perceptível no solo. O texto aguarda votação no Senado,com apoio do senador Ted Budd.

Tecnologia que silencia o estrondo

O mecanismo que sustenta a mudança regulatória chama-se Mach cutoff: uma combinação de velocidade,altitude e condições atmosféricas que faz o estrondo sônico se refratar para cima,dissipando-se na atmosfera antes de atingir o solo.

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A FAA citou como referência a demonstração de "cruzeiro sem estrondo" realizada pela Boom Supersonic,fabricante americana que desenvolve o avião Overture,e pesquisas conduzidas pela Nasa. Em janeiro de 2025,o demonstrador XB-1 da companhia rompeu a barreira do som três vezes sem que o estrondo chegasse ao chão.

— O mundo quer viajar de forma supersônica — afirmou Blake Scholl,fundador e presidente-executivo da Boom Supersonic,ao comemorar o avanço regulatório obtido junto à Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) em fevereiro deste ano,quando o órgão fechou um novo padrão internacional de ruído para decolagem e pouso de aeronaves supersônicas.

Modelo acústico de voo supersônico silencioso — Foto: Universidade Estadual da Pensilvânia/Boom

Para o diretor de Ciência e Tecnologia da Casa Branca,Michael Kratsios,a flexibilização regulatória tem um componente geopolítico.

— Por muito tempo,regras ultrapassadas seguraram nossos engenheiros e fabricantes — disse Kratsios,ao defender que a medida fortalece a base industrial americana e garante que o futuro da aviação supersônica seja desenvolvido nos Estados Unidos.

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Já o administrador da FAA,Bryan Bedford,associou a mudança diretamente ao fim do veto histórico:

— Isso significa que poderemos finalmente revogar a proibição dos anos 1970 sobre o voo supersônico em território americano,minimizando o impacto sonoro para comunidades ao longo das rotas e perto dos aeroportos.

O fantasma do Concorde

A última operação comercial supersônica regular do mundo aconteceu há quase 23 anos,um voo da British Airways entre Nova York e Londres,em 24 de outubro de 2003. O Concorde,projeto conjunto entre França e Reino Unido,chegava a Mach 2,04 (cerca de 2.500 km/h) voando a 18 mil metros de altitude,mas operava com prejuízo crônico.

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Entre as razões para a aposentadoria da aeronave estão a baixa capacidade de passageiros,limitada a pouco mais de cem lugares,o alto consumo de querosene agravado pela crise do petróleo dos anos 1970,e os custos elevados de manutenção. O acidente do voo 4590 da Air France,em julho de 2000,costuma ser apontado como o gatilho do fim,mas analistas do setor consideram que ele apenas acelerou um declínio já desenhado pela equação econômica desfavorável.

Publicidade da Air France para a rota do Concorde Paris-Rio — Foto: Reprodução/TravelUpdate

Nenhuma companhia americana chegou a operar o Concorde em rotas comerciais regulares. A exceção foi a Braniff International,que voava o jato em trechos domésticos entre Dallas/Fort Worth e Washington,sempre em velocidade subsônica,justamente por causa da legislação de 1973.

Viagens supersônicas vão decolar?

Nesta nova era,a Boom Supersonic é a empresa com projeto mais desenvolvido. Diferente das companhias tradicionais,que focam em aumentar o conforto das longas viagens internacionais,a verdadeira prioridade da Boom Supersonic é a velocidade. Embora,num primeiro momento,o preço das passagens deva se equiparar às tarifas da classe executiva atual,a meta de longo prazo é democratizar o acesso às viagens supersônicas.

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A Boom já fechou pedidos com American Airlines,United Airlines e Japan Airlines para o Overture,que deve transportar entre 65 e 80 passageiros a 2.100 km/h sobre a água e a velocidades subsônicas sobre terra,até que a nova regra entre em vigor. A empresa projeta início de operações comerciais a partir de 2029.

— Aviões não são navios de cruzeiro,ninguém embarca em um voo comercial porque adora estar em um avião. Quero que as pessoas possam chegar a qualquer lugar do mundo em cinco horas,por US$ 100. Vejo um futuro supersônico,mas para chegar lá será fundamental melhorar a eficiência do combustível e assim as viagens aéreas supersônicas,passo a passo,estarão disponíveis para todos — defendeu Blake Scholl,fundador e CEO da Boom.

A proposta da FAA resolve apenas parte da equação que derrubou o Concorde. A tecnologia de Mach cutoff ataca o problema do ruído,mas não elimina os desafios que tornaram a operação supersônica deficitária no passado. Com o consumo de combustível mais alto,capacidade reduzida de passageiros e custo elevado por assento,o projeto ainda não tem vida longa garantida.

O modelo de negócio da Boom Supersonic aposta em reverter essa lógica com motores mais eficientes,uso de combustível sustentável de aviação e um público inicial disposto a pagar tarifas mais altas.

A meta de Scholl para voos supersônicos a US$ 100,mas o cronograma regulatório e comercial segue em andamento. A data para publicação das regras finais para operação dos supersônicos é em 2027,com os primeiros passageiros pagantes voando em 2029,segundo a fabricante.

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