
Açaí é um superalimento,cheio de nutrientes benéficos — Foto: Wikimedia Commons
GERADO EM: 08/07/2026 - 21:40
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Para muita gente,a palavra açaí faz pensar em uma tigela gelada coberta por leite condensado,granola,paçoca e outras guloseimas. Mas basta voltar à origem amazônica do fruto para encontrar uma realidade bem diferente: a polpa pura reúne fibras,gorduras saudáveis,minerais e compostos bioativos em uma combinação rara entre os alimentos.
Esse foi o principal recado do painel "Saúde,nutrição e desempenho",realizado durante a Mesa Executiva do Açaí,iniciativa da Secretaria do Meio Ambiente,Clima e Sustentabilidade do Pará (SEMAS),dentro da 2ª Semana do Clima da Amazônia,que aconteceu semana passada no Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia (PBIA),em Belém.
— O açaí não é apenas um alimento energético. É um superalimento com densidade de nutrientes muito superior à de diversas frutas amplamente consumidas — afirmou a nutricionista funcional e chef Carina Muller.
Ela lembrou que,em 100 gramas,o fruto oferece cerca de cinco vezes mais fibras que o mamão e concentra quantidades superiores de minerais como cálcio,fósforo,magnésio e manganês em comparação ao mirtilo (blueberry). Também fornece vitamina E,ferro e ácido oleico,a mesma gordura monoinsaturada encontrada no azeite de oliva.
Outro dado ajuda a derrubar um dos principais mitos sobre o fruto. Enquanto muita gente associa o açaí ao excesso de calorias,a polpa pura fornece aproximadamente 68 calorias por 100 gramas — valor semelhante ao de um iogurte natural.
— O problema não é o açaí. São os xaropes,açúcares e coberturas que costumam acompanhá-lo — destacou Carina.
A recomendação é optar pelo açaí mais concentrado,sem adição de xaropes,e consumi-lo associado a proteínas,como fazem tradicionalmente as populações amazônicas.
Além do perfil nutricional,cresce o volume de pesquisas sobre os compostos fenólicos do fruto,especialmente as antocianinas,pigmentos responsáveis pela coloração roxa intensa. Elas conferem propriedades anti-inflamatórias,antioxidantes,anticancerígenas,imunomoduladoras,antimicrobianas,cardioprotetoras e hipoglicêmicas.
A nutricionista Alessandra Luglio lembrou que o fruto reúne uma combinação considerada estratégica para a prevenção de doenças: fibras,gorduras saudáveis e compostos bioativos,especialmente antocianinas e outros polifenóis (substâncias com alto poder antioxidante).
— Hoje temos revisões sistemáticas mostrando que o consumo de antocianinas está associado à melhora do perfil lipídico (redução do colesterol LDL,ruim,e dos triglicerídeos,associada ao aumento do HDL,bom),da função endotelial (restauração dos vasos sanguíneos) e à redução de marcadores inflamatórios — disse.
Estudos também apontam redução do LDL-colesterol e da pressão arterial entre pessoas com maior ingestão de antocianinas.
Na prática esportiva,os resultados também chamam atenção. Segundo Alessandra,as pesquisas indicam que o consumo de açaí pode reduzir o estresse oxidativo e a inflamação provocados pelo exercício,favorecer a produção de óxido nítrico,melhorando a circulação e a oxigenação muscular,e acelerar a recuperação quando associado à ingestão de proteínas:
— Estudos mostram que combinar açaí com proteína pode aumentar a construção de massa muscular em até 33% no início dos treinamentos.
Os antioxidantes presentes no fruto também vêm sendo estudados pelo potencial de proteger a pele contra o fotoenvelhecimento induzido pela radiação solar.
Embora muitos desses achados ainda estejam sendo aprofundados,há um consenso crescente sobre o potencial do fruto na promoção da saúde metabólica e cardiovascular.
Para o pesquisador Hervé Rogez,professor titular da Universidade Federal do Pará (UFPA) e uma das maiores referências mundiais em compostos bioativos da Amazônia,a valorização do açaí representa também o reconhecimento de um conhecimento ancestral.
— Durante séculos,os povos amazônicos consumiram o açaí como um alimento completo. A ciência vem mostrando que essa combinação de gorduras de alta qualidade,antioxidantes e minerais faz sentido também do ponto de vista da prevenção de doenças — afirmou.
Os avanços continuam. Nos últimos anos,pesquisadores sequenciaram o genoma do açaizeiro,esclareceram a formação das antocianinas e identificaram microrganismos com potencial probiótico naturalmente presentes no fruto,abrindo novas perspectivas para pesquisas sobre microbiota intestinal.
Mas Rogez fez um alerta: transformar o açaí em símbolo da bioeconomia exige responsabilidade. Isso passa pelo processamento adequado para eliminar o risco de transmissão da doença de Chagas e pela expansão de sistemas agroflorestais capazes de conservar a biodiversidade amazônica.
A grande lição deixada pelo encontro: a ciência está revelando ao mundo aquilo que os povos da floresta aprenderam pela experiência. O açaí nunca foi apenas uma moda. Sempre foi um alimento completo e,ao preservar sua origem,estamos ajudando a preservar o futuro da Amazônia.
