Pista destruída na região de Surucucu,na área do garimpo do Rangel — Foto: Bruno Mancinelle/Casa de Governo

Pista destruída na região de Surucucu,na área do garimpo do Rangel — Foto: Bruno Mancinelle/Casa de Governo
GERADO EM: 05/05/2026 - 22:09
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Ocultas em meio à densa floresta,a Amazônia soma 2.837 pistas de pouso irregulares,aquelas que não têm cadastro junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Quase 30% dessas estruturas (814) estão situadas dentro de Terras Indígenas (TIs) ou Unidades de Conservação (UCs),áreas que,em tese,deveriam ser refúgios de preservação. Os números são de um levantamento do Ministério da Defesa obtido pelo GLOBO via Lei de Acesso à Informação (LAI). Na avaliação de especialistas,os dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) evidenciam o espraiamento da rede de infraestruturas que servem de base,sobretudo,para o garimpo ilegal e o narcotráfico.
ECA Digital: governo aumenta classificação indicativa do YouTube para maiores de 16 anosLeia mais: Polícia apreende 156 kg de cocaína escondida sob esterco,naftalina e graxa em caminhão no interior de SP; carga é avaliada em R$ 3,1 milhões
Dentro da chamada Amazônia Legal,as maiores concentrações estão em Mato Grosso (967),Pará (942) e Roraima (385). O município campeão de ocorrências é Itaituba (PA),um dos principais polos de mineração de ouro da região,que reúne,sozinho,218 pistas de pouso clandestinas. Parte do seu território abarca a TI Munduruku,onde o Censipam encontrou 22 aeródromos não registrados. Diretora de pesquisa do Instituto Escolhas,Larissa Rodrigues frisa que o ranking espelha o histórico da garimpagem no país,concentrada nesses três estados:
— As pistas são a principal estrutura logística do ouro. Todo ouro,legal ou ilegal,é exportado de avião,pois tem muito valor para o mercado,mas um volume pequeno — diz a pesquisadora. — Sabemos que elas também são usadas pelo tráfico. São duas economias ilícitas que compartilham da mesma estrutura logística por facilidade e redução de custos.
As amplas dimensões da Amazônia são um dos principais desafios das autoridades no combate ao garimpo ilegal. Professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme),Tássio Franch frisa que isso prejudica até mesmo a instalação de equipamentos de detecção.
Continuar Lendo
— Há uma dificuldade física em relação aos radares. Por conta dos modelos e da curvatura da Terra,eles enxergam até uma determinada distância e não pegam voos baixos. Aviões-radar resolveriam isso,mas temos poucos. E não temos radares espalhados ali porque são estruturas caras,que não se justifica colocar no meio da floresta — enumera Franch,que se dedica a pesquisar o tema.

Pista inutilizada na TI Yanomami na Operação Catramani — Foto: Divulgação
Deflagrada em 2021 pela Polícia Federal (PF),a Operação Urihi Wapopë ajudou a revelar o funcionamento das redes que articulam empresários,garimpeiros e condutores de avião e helicóptero. Condenado em janeiro deste ano pelo caso na Justiça de Roraima,o empresário Rodrigo Martins Mello,mais conhecido como Rodrigo Cataratas,foi apontado como o principal responsável por gerenciar uma rede de pilotos e aeronaves responsável por transportar suprimentos e minérios,como ouro e cassiterita,para dentro e fora da TI Yanomami.
Os investigadores chegaram a Cataratas após a prisão de um homem que pilotava um helicóptero carregado com 450 cartuchos de munição e 350 litros de combustível no território indígena. Documentos na aeronave levaram ao empresário e,após a apreensão de equipamentos eletrônicos,os agentes tiveram acesso a planilhas que detalhavam o funcionamento do esquema.
Os pilotos eram pagos por meio de comissões e podiam receber os valores em ouro ou em dinheiro. Em um dos documentos,a soma dos valores relativos a 67 voos ocorridos entre setembro e novembro de 2020 chegava a R$ 2,2 milhões. Aos pilotos,cabia o recebimento de 10% do valor dos fretes.
Os serviços de aviação de Cataratas atendiam também o poder público. A empresa Icaraí Taxi Aéreo,da qual ele era sócio,chegou a receber,em 2020,R$ 24,3 milhões do Ministério da Saúde para transportar indígenas e profissionais da saúde na Amazônia. Ativo nas redes sociais e líder do movimento “Garimpo é legal”,ele foi candidato pelo PL nas eleições de 2022,mas não obteve votos suficientes para conquistar uma cadeira de deputado federal por Roraima.
No ano passado,o empresário voltou ao radar das autoridades após a PF encontrar indícios de que ele teria ajudado o ex-deputado Alexandre Ramagem — condenado na trama golpista liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — a deixar o país pela fronteira de Roraima com a Guiana,onde Cataratas é dono de garimpo. Procurada pelo GLOBO,a defesa de Cataratas não retornou.
As pistas de pouso ilegais também integram uma rota de contrabando que tem ganhado força nos últimos anos após mudanças na legislação dificultarem o chamado “esquentamento” do minério,processo pelo qual o ouro extraído de áreas proibidas torna-se legal pela vinculação fraudulenta com lavras garimpeiras autorizadas pelo poder público. Assim,com o fim da presunção de boa fé na venda do minério,decretada pelo Supremo Tribunal Federal em 2025,e a obrigatoriedade de notas fiscais eletrônicas,determinada pela Receita Federal em 2023,os garimpeiros teriam passado a optar por escoar o minério para países vizinhos como a Guiana.
Segundo o professor da UFRR e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública,Rodrigo Chagas,se antes os garimpeiros levavam o ouro extraído no estado para Itaituba,onde ele era “esquentado”,os indícios apontam que a rota,agora,se inverteu. Nos últimos dois anos,o estado liderou as apreensões de ouro da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no país.
— Com as mudanças e a pressão do governo,a estrutura do garimpo mudou para a Guiana. Podemos ver isso pela quantidade de apreensões de ouro na BR que vai de Boa Vista para lá — diz.
Apesar do número de pistas em Roraima ter diminuído com as operações na TI Yanomami,o estado ainda figura como o terceiro com maior número de aeródromos irregulares. Pará e Mato Grosso,por outro lado,viram o número de pistas aumentar,com 121 novas ocorrências identificadas pelo Censipam entre 2024 e 2026. Segundo Larissa Rodrigues,os números podem indicar maiores investimentos no contrabando:
— Em 2022,o garimpo legalizado produzia 30 toneladas. Ano passado foram cinco — diz a pesquisadora,referindo-se ao impacto das medidas para coibir o “esquentamento” do minério — Uma parte,sim,deixou de ser produzida,mas outra persiste e sai do país pelo contrabando.
Em setembro passado,as pistas irregulares nos estados do Amazonas,Acre,Roraima e Rondônia tornaram-se alvo de uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal (MPF) que pede a uma série de órgãos federais e estaduais um Plano de Ação e Fiscalização para combater o problema. Uma das críticas do MPF é a concentração dos esforços de repressão na TI Yanomami,em Roraima.
Segundo a Anac,o estado concentrou 74 dos 94 processos sancionatórios instaurados pela agência entre 2022 e 2024. Apenas 11 foram feitos no Amazonas,além de cinco em Rondônia e quatro no Acre.
Em março deste ano,após todos os órgãos terem se manifestado no processo,o MPF voltou a reforçar o pedido inicial. Ele identificou sobreposição de competências e “troca de responsabilidades” entre as diferentes entidades. A Anac afirma não ter a atribuição de inutilizar as pistas clandestinas. Já o Ibama e o ICMBio argumentam não ter meios operacionais para tal. “Os órgãos estaduais condicionam sua atuação ao apoio federal,enquanto a Aeronáutica mantém atuação concentrada em Roraima”,pontuam os procuradores.
As pistas clandestinas são inutilizadas principalmente por meio da detonação de explosivos ao longo de sua extensão,como forma de impedir o pouso de aeronaves. Apesar de efetividade em um primeiro momento,o resultado não é definitivo.
— É como enxugar gelo. O que acontece é que nas pistas mais importantes isso vai dar um refresco de três meses,a depender do grau de isolamento da área,até o grupo que opera ali refazer a pista — sustenta Tássio Franchi,destacando que os criminosos têm aprimorado as técnicas para ocultar esses espaços. — Elas são escondidas dos satélites de maneira inacreditável,como sendo colocadas entre dois campos de futebol ou em um trecho de estrada.
Na ação,o ICMBio afirmou que 15 comunidades yanomami têm pistas de pouso em áreas de unidades de conservação. Elas são usadas para garantir a atuação do Distrito Sanitário Especial Indígena,garantindo à população o acesso à saúde. Em 2021,durante a pandemia de Covid-19,a Anac publicou uma resolução que estabeleceu regras para a decolagem e pouso em áreas não cadastradas,mas apenas para ações humanitárias.
Procurada pelo GLOBO,a Anac informou que o combate à construção de pistas irregulares é uma atribuição das polícias estaduais e da FAB e que a agência fornece “suporte em conhecimento e informações técnicas”. O Ministério dos Povos Indígenas,por sua vez,comunicou que a atribuição de monitorar e fiscalizar as pistas de pouso cabe à Anac.
Já o ICMBio afirmou que a presença ou não de pistas clandestinas é um dos indicadores para escolher áreas prioritárias de atuação. O Ibama e os ministérios da Justiça e da Defesa não se posicionaram.
