Arcos da Lapa. Um dos cartões-postais do bairro,que está entre os preferidos dos turistas que visitam a cidade — Foto: Marcelo Theobald

Arcos da Lapa. Um dos cartões-postais do bairro,que está entre os preferidos dos turistas que visitam a cidade — Foto: Marcelo Theobald
GERADO EM: 23/04/2026 - 22:27
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Em um encontro recente com profissionais do mercado imobiliário,no meio de uma conversa sobre revitalização do Centro do Rio,um executivo soltou uma pergunta que não saiu mais da minha cabeça: “Você acredita que pode acontecer na Lapa o que está acontecendo na Cinelândia?”. A provocação não veio do nada. Minha coluna anterior,inclusive,tratava justamente disso,o avanço da violência em um dos espaços mais emblemáticos da história da cidade. Pensei por alguns segundos,mas a resposta veio direta: “Infelizmente,acho que sim. Se a reorganização da segurança ficar concentrada apenas na Cinelândia,o entorno tende a sentir. E a Lapa,que já não é exatamente sinônimo de tranquilidade,pode ver piorar justamente os trechos que ainda resistem.”
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No Carnaval de 2026,a influenciadora Samanta Alves decidiu gravar o quadro “Cervejinha com Samanta” em frente aos Arcos da Lapa. O cenário era o esperado para fevereiro no Centro: cheio,barulhento,caótico. Até aí,nenhuma surpresa. Ninguém imagina aquele pedaço da cidade como uma versão tropical do paraíso. O que ninguém previa era o que viria junto com a gravação. Enquanto a câmera rodava,o entorno entregava outra narrativa: assaltos,arrastões e até esfaqueamento. “Vão roubar nossa câmera”,alertou o diretor e também namorado Antônio Olavo,tentando convencer a repórter a encerrar tudo ali. As imagens correram a internet e bateram milhões de visualizações. Mudou alguma coisa? Não. Recentemente,outro influenciador apareceu ensinando quais ruas e horários ainda permitem circular com o mínimo de paz.
Estudei no Colégio Zaccaria,ao lado da Lapa. Frequentei a região antes da explosão recente,antes das casas badaladas e da nova fase do Circo Voador. Com colegas de escola e,depois,da faculdade,o roteiro era simples: cerveja barata,festas improvisadas nos sobrados da Mem de Sá e forró no Clube dos Democráticos. Era uma Lapa de transição,entre o imaginário dos malandros e cabarés e a ocupação crescente de turistas vindos de todos os lados. Eu vi a Lapa atravessar crises. Vi moradores serem alvo de preconceito e,testemunharem a chegada da especulação imobiliária. Vi a região deixar de ser apenas passagem e virar destino. Por isso,é difícil aceitar o que se vê hoje. Não é possível ter atravessado tanta coisa para,novamente,conviver com a sensação de insegurança se espalhando pelos quatro cantos de uma Lapa que é uma das sínteses mais evidentes do Rio de Janeiro.
A imagem clássica dos malandros da Lapa,no Rio de Janeiro,ficou marcada por um visual elegante e cuidadosamente composto. O figurino mais associado a esses personagens inclui terno de linho branco S120,sapatos bicolores,chapéu-panamá e camisa de seda,muitas vezes com botões de madrepérola. Em alguns casos,a calça podia apresentar modelagem boca de sino.
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As roupas eram,em geral,bem ajustadas,limpas e passadas — características consideradas essenciais. Peças novas eram ainda mais valorizadas. Alguns também utilizavam anéis como parte do estilo.
O chapéu,além de símbolo visual,podia ter função prática,sendo usado como forma de defesa em situações de conflito. Nos bolsos,era comum carregar dinheiro e fumo,frequentemente prensado à mão,além de objetos como canivetes.
Especialistas destacam que essa representação segue um padrão estereotipado,já que a figura do malandro assumiu diferentes significados ao longo do tempo. A associação automática entre malandragem,criminalidade ou ociosidade é questionada por estudiosos e também por referências culturais.
O cantor Moreira da Silva,conhecido por interpretar personagens ligados à malandragem,defendia uma visão distinta: para ele,o malandro não era aquele que não trabalhava,mas sim quem evitava o trabalho pesado.
Democráticos tem uma origem pouco comum: um prêmio de loteria. No século XIX,um grupo de amigos que frequentava a região sonhava em criar um clube carnavalesco,mas esbarrava na falta de recursos financeiros.
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A situação mudou após uma aposta feita durante um encontro no antigo bar Maison Rouge. O grupo adquiriu um bilhete e acabou premiado justamente no dia de Nossa Senhora da Glória. Com o dinheiro,o projeto saiu do papel e,em 1867,o clube foi oficialmente inaugurado.
Desde então,o espaço se consolidou como um importante ponto cultural e político da cidade. O Democráticos esteve ligado a movimentos como o incentivo ao fim da escravidão e à implantação da República no Brasil.
A sede também chama atenção pelos detalhes arquitetônicos e decorativos. Nos azulejos da fachada,é possível observar figuras clássicas do carnaval,como Pierrot e Colombina,além de homenagens a ícones da cultura popular,como Charlie Chaplin. Saudade de dançar um forrozinho.
