
Me abraça e me beija. “Meu maior prazer é quando chego ao palco e vejo a galera se emocionar. Isso bate na minha alma e eu sou chorão”,diz Lazzo Matumbi — Foto: Matheus 8/ Divulgação
Aos 69 anos,o cantor baiano gravou seu primeiro projeto audiovisual na Concha Acústica de Salvador,celebrando 45 anos de uma carreira marcada pela resistência ao racismo e pela fusão de ritmos como o reggae e o ijexá. O cantor e compositor baiano Lazzo Matumbi gravou seu primeiro projeto audiovisual,"Matumbi canta a Bahia",celebrando 45 anos de carreira com participações de nomes como BaianaSystem e Rachel Reis. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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O público que esgotara os ingressos da Concha Acústica do Teatro Castro Alves,em Salvador,grita em uníssono: “Lazzo! Lazzo!”. No palco,o cantor e compositor baiano Lazzo Matumbi,considerado “a voz da Bahia”,responde emocionado: “Sempre sonhei com isso aqui.” “Isso aqui” era o show mais importante dos 45 anos de carreira de um dos maiores nomes da música brasileira,que ganha,agora,seu primeiro audiovisual,gravado no mês passado.
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Com direção artística do compositor Manno Góes e direção musical do maestro Ubiratan Marques,“Matumbi canta a Bahia” joga luz sobre uma trajetória marcada pela valorização da ancestralidade,pela difusão de ritmos como o samba-reggae,o ijexá e o reggae e por sucessos como “Alegria da cidade” (eternizada na voz de Margareth Menezes),“Me abraça e me beija” e “14 de maio”.
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Foi diante dessa riqueza rítmica,que Lazzo incorpora na voz de timbre único e joga no mundo com seu corpo preto,que a plateia se viu durante o espetáculo. Embalada por um repertório que celebra artistas da velha guarda,como Dorival Caymmi e Novos Baianos,e também a nova geração,como BaianaSystem,Rachel Reis,BNegão e Ravi Lobo,que participaram do audiovisual,com estreia em novembro no YouTube do artista e do selo Mapa/ADA da Warner. Deve também ser exibido pela TVE.
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Luta. Lazzo Matumbi entre Russo Passapusso e Roberto Barreto,vocalista e guitarrista do BaianaSystem — Foto: Matheus 8
Aos 69 anos de idade,Lazzo vive o momento de maior projeção de sua trajetória. Tem sido reverenciado por novos artistas e convidado para participações em discos (“Matriz”,de Pitty; “Trovão”,de Larissa Luz; e “Calundu”,do BayanaSystem) e shows pelo Brasil. Parece que,enfim,ganha o reconhecimento que merece.
— Lazzo é uma força da natureza. Sua presença no universo musical baiano passa pela ancestralidade percussiva das escolas de samba de onde veio,até sua enorme importância como pioneiro na divulgação do reggae,soul e pop — analisa Roberto Barreto,guitarrista do BaianaSystem. — Ele é pedra fundamental para entender a nossa conexão com a Jamaica e com a música negra norte-americana,além de um compositor que revela,com originalidade,uma Bahia profunda. Para o BaianaSystem,Lazzo é uma referência,que sempre nos incentivou e apontou caminhos.

Dueto. Lazzo Matumbi e Rachel Reis — Foto: Matheus 8/ Divulgação
Já para Rachel Reis é inspiração pessoal:
— O suingue,a musicalidade,até o jeito como ele fala tem um negócio diferente,sabe? Um magnetismo. Lazzo é pedra preciosa da nossa música e merece todo o reconhecimento do mundo.
Manno Góes diz que o cantor é,também,“referência humana”.
— Seu discurso é coerente com o que canta,que nasce de uma trajetória de resistência e compromisso com a cultura afro-indígena brasileira. Lazzo não negocia sua essência. Em tempos de artificialidade,isso é uma característica rara,o que o torna um artista necessário,fundamental para nosso olhar sobre nossas raízes e ancestralidade.

Lotação esgotada. Público da Concha Acústica do Teatro Castro Alves,em Salvador — Foto: Matheus 8 / Divulgação
A costura da narrativa do show espelha a trajetória de alguém que sempre colocou nas músicas que canta reflexões,indignações,questionamentos sociais e raciais que vive em seu cotidiano. Que começou acompanhando a mãe,dona Minervina,em rodas de samba,onde ela riscava a faca no prato e ele tocava a percussão que depois largaria tentando driblar o preconceito.
— Chegava nos lugares e era: “Entra pela cozinha.” A bebida que tinha para todos era vinho,uísque,cerveja. Para nós,músicos,batida de coco. Estrogonofe,só para convidados; para nós,dobradinha. Fui para o canto,chegava nas rádios e falavam: “Mais sambista?” Parei de cantar samba. Já ouvia Fela Kuti,Ray Charles,Marvin Gaye. Fui para a MPB. E aí me compararam com grandes: Emílio Santiago,Gil,Milton Nascimento. Isso foi uma virada. Trago essa ancestralidade para a minha música e ela está ligada à rejeição social,à dificuldade de as pessoas pretas ascenderem — afirma ele,que foi vocalista do bloco afro Ilê Aiyê,entre 1978 e 1980.

Carinho. Lazzo Matumbi e Roberto Barreto,guitarrista do BaianaSystem — Foto: Matheus 8/ Divulgação
Uma das canções mais emblemáticas na voz de Lazzo é “14 de maio”(“no dia 14 de maio,eu saí por aí/ Não tinha trabalho,nem casa,nem pra onde ir/ Levando a senzala na alma,eu subi a favela/ Pensando em um dia descer,mas eu nunca desci) —,cantada em coro,de olhos fechados e com a mão no coração pela plateia da Concha. Composta por Jorge Portugal,critica a forma como ocorreu a abolição da escravidão no Brasil e expõe a realidade enfrentada pelos recém-libertos no dia seguinte à assinatura da Lei Áurea.
— Ainda precisamos cantar e discutir esses temas se queremos um país mais justo,igualitário,respeito às diferenças. Temos mania de lembrar o 13 de Maio como algo maravilhoso,quando sabemos que foi uma enganação. A gente vive na escravidão até hoje,sem acesso. Há um grande déficit no Brasil.

Referência. Lazzo Matumbi e Russo Passapusso,vocalista do Baiana System — Foto: Matheus 8 / Divulgação
Lazzo cita o carnaval da Bahia como exemplo:
— A situação dos cordeiros: ganham um pãozinho com salada e uma garrafa de água para segurar a corda e proteger quem tem poder. Axé Music só fortaleceu a comunidade branca,enquanto artistas negros ficavam no ostracismo. Falta prestar atenção na nossa cultura. Priorizam o turismo e esquecem de algo que é para sempre e atravessa gerações — alerta. — Brasileiro tem mania de se achar eurocêntrico. Esquece que os dois pilares de sustentação desse país são afrodescendente e indígena. Alô,Brasil,se olha no espelho!
Ao longo do tempo,o tom político do discurso de Lazzo,muitas vezes,não foi visto com bons olhos. E o preço que ele pagou foi o boicote.
— Fui tachado de rebelde,questionador demais,problemático e complicado. Quando meu produtor (Arthur Dazzani) começou a trabalhar comigo,perguntaram a ele: “Mas Lazzo está domado?” Vivemos numa sociedade racista excludente. Um artista que questiona é indomável... Por isso,o convidei,um produtor branco,para trabalhar comigo. Eu disse: “Quero te usar.” E expliquei que ele poderia adentrar espaços que eu,como negro,não consigo. Ele desconfiou disso que eu disse,mas,conforme foi trabalhando comigo,percebeu o que eu via e sentia na pele e na alma.
Lazzo ainda luta contra a dificuldade para pagar boletos,mas se nega a medir o sucesso pelo dinheiro ou pelos holofotes. Assim como não coloca na mão dos outros a sua autoestima.
— Acham quem temos que estar sempre na mídia. Meu maior prazer é quando chego ao palco e vejo a galera se emocionar. Quando me fazem chorar dizendo que se emocionam comigo. Isso bate na minha alma,e eu sou chorão — assume. — É a relação direta com o povo que me alimenta. Esse povo que lota a Concha hoje por essa energia. A galera jovem que me tem como referência enxerga um cara que lutou num tempo muito duro e continuou resistindo. E isso dá um exemplo: se tem um objetivo,um sonho,não desista,vai pra cima. Tenho muito orgulho do que sou. Todo dia me olho no espelho e falo: “Me amo,viu,velho! Você é foda!” Se não for isso,tô lanhado!
