
Janja no Palácio do Planalto — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
GERADO EM: 17/07/2026 - 20:39
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Em entrevista ao UOL,a primeira-dama Janja da Silva atribuiu à “misoginia pura” a pecha de “gastadeira” que críticos lhe impingiram por conta de suas viagens ao exterior. A declaração tem duas consequências imediatas. A primeira,já apontada pelo cientista político Fernando Schuler,é oferecer um sólido argumento contra o PL da Misoginia,à espera de votação na Câmara. A prevalecer a tese de que questionar despesas da primeira-dama configura misoginia,e dado que,pelo projeto já aprovado no Senado,misoginia é crime equiparado ao de racismo,tem-se que críticos dos gastos de Janja,ou de qualquer figura pública feminina,passam a ser potenciais autores de crime inafiançável e imprescritível. Trata-se de uma exposição didática dos riscos que oferece uma definição jurídica aberta como a do projeto em discussão.
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A segunda consequência da fala de Janja é de expor uma falácia que,no Brasil,vem sendo praticada com vexaminosa frequência por figuras públicas,em geral,egressas do campo da esquerda. Questionadas por seus atos,em vez de responder por eles,voltam seu arsenal retórico contra os questionadores — “racistas”,“transfóbicos”,“misóginos”. A estratégia é levar a controvérsia do campo dos fatos para o da moral e,assim,transformar críticas em “delito de opinião”.
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O ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida recorreu ao expediente quando,em 2024,foi acusado de assédio sexual por diversas mulheres,entre elas,a ministra Anielle Franco. Na ocasião,Almeida não se limitou a alegar inocência. Acusou a existência de uma campanha para “silenciar a voz do povo brasileiro” e atingir sua imagem,“enquanto homem negro em posição de destaque no Poder Público”. Sabia o ministro que a voz do povo brasileiro nada tinha a ver com a situação em que se via metido,e que qualquer homem,de qualquer cor,confrontado com o conjunto de relatos que ex-alunas e ex-colegas fizeram dele à polícia,seria instado a se explicar. Ainda assim,preferiu dividir a bronca com uma coletividade inteira,que tratou de se declarar ofendida em seu nome. Em março deste ano,Almeida foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por crime de importunação sexual.


Mais recentemente,a deputada Erika Hilton usou o argumento identitário não para se defender de uma acusação,mas para pressionar o seu partido,o PSOL,a aumentar sua fatia no bolo dos recursos eleitorais de 2026. Por seu peso na legenda,a deputada afirmou ter recebido da sigla a promessa de que ganharia um “valor substancialmente maior” do que os colegas. Ao saber que candidatos como Juliano Medeiros e Manuela D’Ávila receberiam “a mesma prioridade” que ela,veio a público acusar seu partido de fazer a opção pelo “privilégio branco e cis”. Erika receberá R$ 2,3 milhões,o maior valor do PSOL destinado a uma candidatura proporcional.


No caso de Janja,a alegação de misoginia soa ainda mais descabida porque a cobrança por transparência tem fundamento adicional. Como primeira-dama nunca foi cargo,o custeio das suas atividades como “representante” do governo Lula constituía,até 2025,um desvio institucional. Foi preciso uma manobra da Advocacia-Geral da União para formalizar o pagamento de passagens,hospedagem,segurança e assessores a alguém sem vínculo com o serviço público. Mas se a providência deu lastro jurídico aos gastos,não os tornou transparentes. O Planalto ainda mantém despesas relevantes da primeira-dama dispersas ou sob sigilo,e recusa parte considerável dos pedidos de informação sob o curioso argumento de que,por não ocupar cargo público,Janja estaria dispensada de prestar contas à sociedade. Não está. E ao usar a acusação de misoginia como salvo-conduto para constranger quem lhe cobra explicações,a primeira-dama não defende as verdadeiras vítimas da prática — antes as desmoraliza e serve-se delas.
