
Argentinos que vivem na Inglaterra contam como está a expectativa para a semifinal da Copa — Foto: Reprodução
GERADO EM: 14/07/2026 - 22:01
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A pergunta começou a se repetir assim que terminou a partida que confirmou o confronto entre Argentina e Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo de 2026. Ela chegou a escritórios,escolas,lojas,bares e até mesmo conversas casuais com vizinhos. "E agora,o que vai acontecer?","Dessa vez vamos ganhar deles","Você está nervoso?".
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Para os milhares de argentinos que construíram suas vidas na Inglaterra,a partida que a seleção nacional jogará amanhã não é mais apenas um evento esportivo. Longe da rivalidade que costuma surgir na Argentina quando a Inglaterra aparece no horizonte,os argentinos que vivem na Inglaterra descrevem uma atmosfera bem diferente. Não falam de hostilidade ou confrontos,mas de olhares curiosos,brincadeiras sobre futebol e uma expectativa que crescia com o passar das horas.
— Todo mundo sabe que sou argentina — resume Denise Servat Vinokurov,uma portenha de 38 anos que mora em Londres e trabalha para uma empresa de artigos esportivos.
Desde que a partida foi confirmada,seus colegas não falam de outra coisa.
— Sou a única argentina no escritório e os comentários já começaram. Alguns dizem que vamos perder desta vez; outros levantam a hipótese de que a Copa do Mundo é manipulada. É tudo brincadeira,mas claramente o jogo já começou — conta ela ao jornal argentino La Nacion.
As conversas se repetem ao longo do dia de trabalho. Entre reuniões e tarefas diárias,sempre há alguém pronto para fazer uma previsão.
— Já disse a eles que,dependendo do resultado,provavelmente trabalharei de casa amanhã — diz ela,rindo.
O comentário gera mais piadas entre seus colegas,que aguardam a partida com a mesma ansiedade que ela.
A cena também se repete a centenas de quilômetros de distância,em Manchester. Mené Bahillo,de 52 anos,de San Isidro,vive lá há anos. Desde que a Inglaterra avançou para as semifinais,admite que o clima mudou completamente.
— Até agora,estávamos curtindo a Copa do Mundo tranquilamente,mas quando anunciaram que jogaríamos contra a Inglaterra,os comentários começaram. Todo mundo sabe que somos argentinos — explica ela,professora de espanhol.
Diferentemente de outras partidas,desta vez o peso da história inevitavelmente vem à tona em muitas conversas. Embora a maioria das interações seja respeitosa,ela reconhece que alguns argentinos preferem ser mais cautelosos.
— Há pessoas que simplesmente decidiram não ir a certos bares para assistir ao jogo. Não porque algo tenha acontecido,mas porque preferem evitar situações constrangedoras. É uma partida que também é vivenciada de uma forma especial aqui — diz ela.
No entanto,quem mora na Inglaterra há anos concorda que a rivalidade que muitos argentinos imaginam de longe não é a que percebem no dia a dia. Referências à Guerra das Malvinas são praticamente inexistentes. O que domina as conversas é o futebol.
— Aqui eles não misturam as coisas. Para eles,é apenas uma partida de futebol,ponto final — explica Alejandra Feller Connor,uma argentina de 44 anos que vive em Londres há mais de duas décadas.
Essa diferença era evidente até mesmo na escola de seus filhos,onde,há dias,colegas,professores e outros pais a questionam sobre a partida.
— Todo mundo sabe que sou argentina e,obviamente,me zoam um pouco,mas sempre de forma bem-humorada. Eu respondo também. Faz parte do jogo — diz a argentina,que trabalha como supervisora na escola primária de suas filhas.
Para Alejandra,a reação inglesa quebra muitos preconceitos que ainda persistem na Argentina.
— Muitas vezes,as pessoas lá acham que existe uma rivalidade permanente,mas a realidade do dia a dia é diferente. Eles veem essa partida como um importante clássico do futebol,nada mais.
As piadas começaram assim que o adversário foi anunciado. Em grupos de WhatsApp,em escritórios e até mesmo entre amigos que compartilham aniversários,churrascos ou passeios há anos,a partida monopolizou as conversas. Alguns ouvem apostas; outros,palpites; e há aqueles que já começaram as brincadeiras. A maioria concorda em uma coisa: nunca tinham vivenciado um jogo Argentina-Inglaterra sob a perspectiva inglesa.
Juliana Lara,uma designer de 40 anos de Buenos Aires que mora em Londres há sete anos,conta que desde segunda-feira não parou de trocar mensagens com amigos ingleses.
— Os memes já começaram. Um deles me escreveu: 'Só seremos amigos na quinta-feira'. Obviamente,rimos porque somos muito próximos,mas dá para perceber que para eles também é um tipo diferente de jogo — diz ela.
Embora a conversa seja sempre descontraída,ela admite que já tomou uma decisão.
— Não quero assistir em um bar cheio de ingleses. Prefiro compartilhar com outros argentinos. Não porque eu ache que algo ruim vá acontecer,mas porque quero vivenciar isso em paz e poder comemorar um gol sem pensar duas vezes sobre onde estou — explica.
Denise descreve o mesmo sentimento. Em seu escritório,onde é a única argentina,a Copa do Mundo se tornou o assunto obrigatório de conversa.
— Toda vez que entro,alguém vem com um comentário novo. Me perguntam se estou nervosa,dizem que desta vez vamos perder mesmo,ou brincam dizendo que a Copa do Mundo é armada para a Argentina — conta.

Argentinos assistem a jogo da Copa do Mundo em um pub,na Inglaterra — Foto: Reprodução
Embora as conversas nunca ultrapassem as brincadeiras sobre futebol,ela admite que a partida já mudou o clima do dia a dia.
— Vou chegar na quarta-feira e sei que todos estarão esperando para me dizer alguma coisa,não importa quem ganhe.
Denise descreve o mesmo sentimento. Para Kevin Troilo,que trabalha em um restaurante em uma cidade de mil habitantes,a expectativa também permeou sua rotina de trabalho.
— É impossível passar despercebido. Os clientes ouvem meu sotaque e imediatamente perguntam de onde sou. Todos querem falar sobre a partida. Alguns me dizem que a Inglaterra vai se vingar desta vez,e outros me perguntam diretamente como eu acho que vai terminar — diz o argentino,originário dos subúrbios do sul de Buenos Aires.
Ele mora lá há oito anos. O que mais o surpreendeu,segundo ele,foi que muitas pessoas conhecem jogadores argentinos,lembram de partidas anteriores e estão acompanhando de perto a trajetória da seleção nesta Copa do Mundo.
Na Inglaterra,onde o futebol ocupa um lugar central na cultura popular,a classificação para as semifinais também gerou enorme entusiasmo entre os torcedores locais. Jornais esportivos,programas de televisão e conversas do dia a dia passaram a girar em torno da partida contra a seleção argentina.
Embora o confronto entre as duas equipes inevitavelmente evoque uma rivalidade histórica para os argentinos,aqueles que vivem na Inglaterra descrevem uma realidade cotidiana muito mais tranquila. A conversa gira em torno do futebol e da situação atual de ambas as seleções nacionais,sem constantes referências a outros episódios do passado.
Mené Bahillo reconhece que,embora na Inglaterra quase ninguém mencione o conflito das Malvinas,para quem cresceu na Argentina,a partida tem um significado diferente.
— Você chega com toda essa história porque foi assim que a vivenciamos desde a infância. Aqui,por outro lado,a maioria das pessoas simplesmente vê como uma partida de futebol. Isso realmente me impressionou — explica.
Juliana Lara também percebe essa diferença.
— Na Argentina,muitas vezes pensamos que essa partida é vivenciada de forma muito diferente aqui,mas a verdade é que os ingleses falam de futebol. Obviamente,eles querem ganhar e provocam,assim como nós faríamos se a situação fosse inversa,mas é só isso.
Ao longo dos anos,vários dos argentinos entrevistados pelo La Nacion formaram famílias na Inglaterra,construíram carreiras profissionais e desenvolveram amizades profundas com ingleses. Essa integração significa que a partida também é vivenciada sob uma perspectiva diferente da que imaginam aqueles que acompanham a Copa do Mundo da Argentina.
Alejandra Feller Connor resume a situação com uma cena que se repetiu nos últimos dias.
— Fui vestir a camisa da Argentina e os comentários começaram imediatamente. Todos me perguntavam se eu estava preparada para perder. Eu disse para conversarem depois do jogo — relembra,rindo.
Para ela,essa troca de farpas reflete melhor do que qualquer análise como os ingleses vivenciam essa partida: com entusiasmo,confiança na sua seleção e uma forte vontade de falar de futebol,mas sem levar a rivalidade para fora de campo.
Além das piadas e previsões,para muitos argentinos a partida também serve como uma lembrança da distância. A seleção nacional se torna,mais uma vez,uma ponte para o país que deixaram para trás e,ao mesmo tempo,uma forma de reafirmar uma identidade que,longe de se apagar com o tempo,parece se fortalecer a cada vez que a camisa da Albiceleste entra em campo.
Mené Bahillo reconhece que esse sentimento é especialmente forte em datas como essa.
— Moramos aqui,trabalhamos aqui,nossos filhos estudam aqui,temos amigos ingleses,mas quando a Argentina joga,é impossível não sentir que uma parte de nós ainda está do outro lado do oceano — diz ela.
Para quem emigra há anos,a Copa do Mundo costuma ser uma desculpa para conversar mais com a família,trocar mensagens antes e depois de cada partida e reviver costumes que fazem parte da identidade argentina. Desta vez,a seleção rival intensifica essas emoções.
— Meu telefone não para de tocar. Familiares da Argentina,amigos daqui e até colegas de trabalho estão me escrevendo. Todos querem saber como estou me sentindo — conta Denise,que completa: — É estranho,porque você se sente pertencendo aos dois lugares ao mesmo tempo. Você vive sua vida aqui,você se sente exatamente como quando estava em casa.
Em meio a essa atmosfera de expectativa,muitos argentinos reconhecem que a partida os força a responder a uma pergunta que nunca lhes foi feita com tanta frequência: o que significa se sentir argentino depois de tantos anos vivendo na Inglaterra. Para alguns,a resposta vem quase automaticamente; para outros,surge enquanto tentam explicar por que uma partida de futebol pode interromper toda a sua rotina semanal.
— Moramos aqui há anos,trabalhamos,pagamos impostos,criamos nossos filhos neste país e somos gratos pela vida que construímos. Mas quando a Argentina joga,não há muito em que pensar — resume Mené Bahillo.
A frase encapsula um sentimento que se repete,com nuances,em cada um dos imigrantes argentinos entrevistados.
— Todo mundo quer conversar com você — Alejandra Feller Connor concorda que a seleção nacional acaba servindo como um ponto de conexão com suas raízes.
— É o momento em que todos se lembram de que você é argentino — explica ela.
Durante esses dias,ela conta que colegas de trabalho,vizinhos e outros pais da escola começaram a abordá-la novamente para falar sobre o jogo,fazer comentários ou simplesmente perguntar como acham que a semifinal vai terminar.
— Cria-se uma atmosfera diferente. De repente,todo mundo quer conversar com você.
Para Denise,a semifinal também servirá para mostrar uma parte da cultura argentina que seus colegas de classe muitas vezes só conhecem por meio dela.
— Eles sabem que,quando a Argentina joga,a gente vivencia de forma diferente. Eles me perguntam por que ficamos tão emocionados ou por que ainda estamos falando sobre o jogo dias depois. É difícil explicar; acho que existem coisas que você só entende se nasceu lá.
