
O mito de Sísifo em pintura de Serge Mazet — Foto: Reprodução
GERADO EM: 20/07/2026 - 22:07
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Outro dia,uma amiga subiu na esteira com a intenção de cumprir seu treino. Mas levou junto o celular e,com ele,as mensagens,as pendências e aquela sensação conhecida de que cada minuto precisa render alguma coisa. Enquanto caminhava e corria,foi respondendo ao que chegava,tentando acompanhar o ritmo dos compromissos.
Ao concluir,percebeu que tinha feito o exercício sem prestar atenção. Não observou direito a passada,a postura,a própria respiração. Seu corpo se movia,mas a cabeça foi parar em outro lugar. Resultado: acabou se machucando.
O episódio me lembrou de uma reportagem do The Guardian sobre o chamado viés aditivo,que me interessou bastante. O nome parece complicado,mas a ideia é simples. Diante de um problema,nossa primeira reação costuma ser acrescentar alguma coisa. Se estamos cansados,buscamos um novo modo de descansar. Se dormimos mal,compramos algo que ajude o sono. Rotina puxada? Logo encaixamos uma atividade de relaxamento,numa agenda em que já não cabe mais nada.
Raramente se considera retirar algo da rotina. O conselho de fazer algo novo costuma ser recebido como estímulo. Retirar alguma coisa pode soar como perda.
Entendo bem esse mecanismo. Acrescentar traz uma sensação de providência. A gente põe no carrinho,se inscreve,agenda,promete. Há um conforto imediato em imaginar que estamos resolvendo o assunto. Já tirar exige outro tipo de coragem. Obriga admitir que determinada escolha envelheceu mal,que uma obrigação entrou na rotina sem pedir licença e ficou.
Essa nossa busca aflita por otimização lembra o mito grego de Sísifo. Ele era o rei de Éfira e o mais astuto dos mortais. Tanto que desafiou os deuses e enganou a própria Morte para estender seus dias. Como punição,foi condenado ao abismo do Tártaro,devendo empurrar uma enorme rocha até o topo de uma montanha. Ao chegar perto do cume,a pedra rolava ladeira abaixo,obrigando-o a reiniciar o ciclo eterno.
Reconheceu-se? Modernamente,nos tornamos Sísifos digitais. A pedra que empurramos diariamente é o acúmulo de funções,metas e,ironicamente,até de rituais de bem-estar. Aquele treino na esteira,que deveria ser um alívio,virou a rocha da vez. Mas,quando estamos perto do topo,o peso da tarefa nos derruba,obrigando a um recomeço sem descanso.
Essa lógica do acúmulo ocorre também à mesa. Quando alguém decide comer melhor,a primeira ideia vem em forma de novidade: uma receita,um ingrediente exótico,um plano alimentar restritivo. Ou seja,mais uma pedra para empurrar. Esquecemos que o primeiro cuidado,muitas vezes,está em subtrair. Em não levar o ultraprocessado para casa. Ou em apenas afastar o celular do prato.
Nada contra tecnologias e descobertas. O ponto é perceber quando a busca por soluções passa a fazer parte do problema.
Subtrair é verbo pouco sedutor. Não promete novidade,não vem embalado,não gera conversa. Ainda assim,pode nos libertar do Tártaro da rotina. Tirar uma obrigação sem sentido,diminuir o ruído em volta,respeitar o tempo de um treino. São gestos pequenos que nos permitem,finalmente,soltar a rocha.
A história da esteira traz uma lição simples. Às vezes,o corpo não precisa de mais uma estratégia. Apenas que a gente esteja ali e faça uma coisa de cada vez. Em tempos de excessos,tirar pode ser a maior forma de cuidado.
A seguir,uma receita que não tenta impressionar pelo excesso: rica em nutrientes com poucos ingredientes,e que pede pouco tempo e quase nenhuma técnica. Porque uma boa escolha pode ser simples,nutritiva e saborosa. O cuidado está em não complicar o prato.
Preparo:
Pegue uma fatia de pão e leve à frigideira ou ao forno até ficar crocante.À parte,amasse levemente uma sardinha em lata de boa qualidade com um pouco de azeite,limão,pimenta-do-reino e salsinha.Rale um tomate e um dente de alho,tempere com sal,limão e azeite a gosto.Ponha o tomate ralado sobre o pão,por cima a sardinha e finalize com raspas de limão ou folhas de manjericão.
