
O trono do Brasil no Museu Imperial,em Petrópolis — Foto: Marcelo Piu
GERADO EM: 16/07/2026 - 20:51
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Talvez porque Ancelotti & Cia nos tenham livrado das emoções da Copa,minha atenção se voltou para outra decisão palpitante: o dilema dinástico-afetivo de Dom Rafael de Orléans e Bragança. Pressionado pelo tio,chefe da Casa Imperial,nosso príncipe herdeiro terá de escolher entre a mulher que ama e o trono do Brasil.
Imagino-o pedalando por Londres,onde mora,a cismar com o drama similar vivido por seu primo em 13º grau,o rei Eduardo VIII,que abriu mão de ser rei da Grã-Bretanha,da Irlanda,dos Domínios Britânicos de Além-Mar,Defensor da Fé e Imperador da Índia para se casar com Wallis Simpson.
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Um quarto do planeta ou a divorciada americana,era a questão. Venceu o coração,que tem razões que a geopolítica desconhece. E o já então duque foi viver de smoking,nababescamente,entre pugs e celebridades,sem ter de fingir interesse por primeiros-ministros ou sorrir durante apertos de mão protocolares.
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Dom Rafael há de sopesar prós e contras. De um lado,seu lifestyle hoje na Inglaterra,entre o golfe,o squash e a assessoria em inteligência artificial,junto da aristocrata italiana a quem dará uma vida de rainha. Do outro,a corte e o clima de Brasília,a pendenga com os primos do ramo de Petrópolis (que não reconhecem seu status de herdeiro presuntivo),a coroa de quase dois quilos e o cetro de dois quilos e meio. Sem contar o casamento de conveniência com alguma princesa,daquelas que detectam uma ervilha sob sete colchões de pena de ganso.


É que o futuro Império do Brasil não pode se nivelar a monarquias de segunda linha —como as da Espanha,Dinamarca,Suécia,Noruega,Países Baixos e Reino Unido — que permitem a seus soberanos o acasalamento com plebeus,diluindo o sangue azul e aumentando a variabilidade genética. Conosco não,violão. Não queremos correr o risco de ter um Orléans e Bragança da Silva acenando para os súditos da sacada do Palácio da Alvorada. (Nota mental: Não esquecer de providenciar junto aos órgãos competentes a autorização para construir a sacada — e,claro,para o plebiscito.)
Plebiscito,aliás,que é mera formalidade: o país nunca perdeu sua vocação monárquica. Votamos para presidente,mas aclamávamos o príncipe Ronnie Von e as rainhas do rádio,a Princesinha do Mar e o rei da cocada preta. O golpe do Marechal Deodoro não nos impediu de ter o Rei Pelé,o Rei Roberto Carlos ou Luiz Gonzaga,o Rei do Baião,e Francisco Alves,o Rei da Voz. Tampouco o Rei do Gado,a Rainha da Sucata,o Adriano imperador — sem falar no Rei das Tintas,no Rei do Bacalhau,no tênis Rainha,na folia de reis e na Imperatriz das Sedas.
Nossa moeda se chama Real. Os baianos se tratam de “meu rei”. Juízes vivem como marajás,com o rei na barriga; o Executivo nos toma por vassalos; o Legislativo parece ter feito um pacto com o Príncipe das Trevas. O reinado é de Momo,quatro dias por ano — com a nobreza do samba na Marquês de Sapucaí: as rainhas da bateria,a Imperatriz Leopoldinense,o Império Serrano.
Enquanto Espanha e Argentina peleiam por Sua Majestade,a bola,aguardemos D. Rafael decidir se vai para o trono ou não vai. Se escolherá tomar posse no Real Gabinete ou no Paço Imperial,veranear no Engenho da Rainha ou em Angra dos Reis. E poderemos finalmente assumir que,de fato,jamais deixamos de ser uma monarquia: a única república que deu certo por aqui foi a de estudantes.
