
O pré-candidato do PL à presidência,Flávio Bolsonaro,e o presidente dos Estados Unidos,Donald Trump — Foto: Leandro Lozada/AFP e Kevin Dietsch/Getty Images/AFP
GERADO EM: 17/07/2026 - 21:09
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O Brasil começa a sentir no bolso os efeitos do bombardeio (não militar) aplicado pelos Estados Unidos para obter rendição política. O Fundo Monetário Internacional (FMI) dedicou a mais recente edição de sua revista quadrimestral “Finance & Development” à ordem global regida pela geoeconomia. Trata-se do uso de sanções financeiras e comerciais em prol de dividendos políticos e econômicos — em outras palavras,a doutrina Donald Trump. Na semana que vem,entra em vigor a terceira onda de retaliações dos Estados Unidos. Em 12 meses,o país já enfrentou tarifaço de 50%,parcialmente revisto; interdição a autoridades,incluindo o ministro Alexandre de Moraes,do Supremo Tribunal Federal (STF); e,agora,taxação de 25% como punição contra (supostas) práticas desleais nas vendas externas.
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A Câmara Americana de Comércio (Amcham) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimaram em US$ 11 bilhões os efeitos do tarifaço nas exportações para os Estados Unidos. Mesmo com mais de dois mil itens poupados,pelo menos três mil produtos brasileiros ficarão mais caros para a clientela americana. A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) calcula que mais de um terço (36,5%) das vendas do agronegócio será impactada. Já o governo informou que a sobretaxa alcançará 18% da pauta,prejudicando sobretudo os setores de madeira,granitos e cerâmicas,químico,açúcar e álcool,veículos,celulose e papel,máquinas e equipamentos.
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O Brasil já se mostrou resiliente,na prática e no discurso,às retaliações trumpistas. Não significa dizer que elas não produzam danos. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil,atrás somente da China,mas valem muito por serem compradores de bens industrializados,de maior valor. A participação dos americanos nas exportações brasileiras atingiu,no primeiro semestre deste ano,o menor patamar desde 1992,início da série histórica da Amcham. O país,que já foi destino de um quinto das vendas externas,hoje representa menos da metade (9,4%). Houve queda nas transações tanto de mercadorias com sobretaxa (-16,6%) quanto nas sem (-8,7%).
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Na diplomacia brasileira,é comum ouvir que,sob Trump,os Estados Unidos deixaram de ser um parceiro confiável. A percepção não é exclusiva. Mundo afora,o que mais se vê é a busca por acordos que reduzam a dependência do mercado americano. Não foi por acaso que o acordo Mercosul-União Europeia saiu do papel após duas décadas e meia empacado. É evidência de que “políticas coercitivas podem ser custosas para as nações que as impõem”,como alertou,em artigo na revista do FMI,Jeffry Frieden,professor nas universidades americanas Columbia (Nova York,NY) e Harvard (Cambridge,MA):
— As políticas geoeconômicas podem limitar o funcionamento eficiente da economia,reduzindo os incentivos à especialização para a máxima eficiência produtiva nacional. Podem desencorajar a inovação doméstica,mas estimular essa atividade por parte de concorrentes estrangeiros. Limitam as atividades disponíveis para empresas e indústrias nacionais. Podem afetar a reputação de confiabilidade de um país e prejudicar suas perspectivas econômicas de longo prazo. E podem prejudicar algumas indústrias ou grupos no país de origem em favor de outros,de maneiras que podem ser politicamente controversas.


O esforço de autoridades,corpo técnico do governo e até de representantes do empresariado local e americano em barrar o tarifaço foi em vão. O ministro das Relações Exteriores,Mauro Vieira,normalmente discreto e cordial,subiu o tom num pronunciamento em resposta a uma postagem grosseira de seu equivalente,Marco Rubio. O secretário de Estado de Trump acusou o presidente e o governo brasileiros de negociarem de má-fé. O chanceler brasileiro mencionou a realização de 30 reuniões,incluindo 11 contatos com o próprio Rubio e Jamieson Greer,titular do Escritório de Comércio dos Estados Unidos,que recomendou a taxação de 25% ao Brasil.


Vieira afirmou que as alegações dos Estados Unidos “não têm lastro na realidade”. Referiu-se especificamente ao Pix,uma infraestrutura pública de pagamentos gerida pelo Banco Central e disponível a qualquer instituição financeira,e à queda no desmatamento na Amazônia e também no Cerrado. Washington impôs aumento de tarifas aos principais parceiros comerciais: China,UE,Japão,Índia,Indonésia. Todos tinham superávit comercial com os Estados Unidos. O Brasil foi punido,mesmo tendo acumulado déficit de US$ 424 bilhões em 16 anos.
Não resta dúvida de que a aplicação de tarifas é tentativa de forçar o país à subordinação a Trump. Em aliança com o bolsonarismo,representado nos Estados Unidos por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo,um ano atrás,o presidente americano anunciou tarifaço,sanções a autoridades e abertura de investigação contra o Brasil por concorrência desleal. Em carta endereçada a Lula,exigia o que chamou de “fim da caça às bruxas” ao ex-presidente Jair Bolsonaro,às vésperas do julgamento pela trama golpista.
As digitais do clã Bolsonaro estão na guerra econômico-financeira de Trump contra o Brasil. E a população sabe disso. A simpatia pelos Estados Unidos,desde o ano passado,só faz cair. Pesquisa Quaest desta semana mostrou que,crescentemente,o eleitorado relaciona Flávio Bolsonaro à retaliação. O pré-candidato à Presidência conta com os Estados Unidos para chegar ao Planalto. Atacou Lula,mas não condenou o tarifaço. Antes do anúncio da sobretaxa de 25%,ciente do benefício eleitoral ao adversário,chegou a propor o adiamento para depois do pleito. É capitulação negociada,avesso da soberania.
