
Edson Celulari e Eduardo Sterblitch em cena de 'O beijo no asfalto',em cartaz no Teatro Gláucio Gill — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
GERADO EM: 15/07/2026 - 16:07
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Diante do palco escuro,ouvem-se sons de trânsito,uma freada e sirenes de ambulância. Ao passo que uma luz central começa a revelar um homem consternado (Eduardo Sterblitch),é entoado o verso “Tá lá o corpo estendido no chão”,da música “De frente pro crime”,de João Bosco. É assim que começa a nova montagem do clássico de Nelson Rodrigues “O beijo no asfalto”,que estreia nesta quinta (16) no Teatro Gláucio Gill. Encomendado por Fernanda Montenegro para o histórico grupo Teatro dos Sete,o texto foi montado pela primeira vez há 65 anos,com ela,Oswaldo Loureiro,Mário Lago e outros. Agora,sob direção de Marco André Nunes,Edson Celulari,Luísa Arraes,Sterblitch e grande elenco contam a história de Arandir,que tem a vida destruída após atender ao pedido de um desconhecido atropelado,à beira da morte: um beijo na boca.
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Um dos maiores sucessos do autor,a peça ganhou várias outras montagens ao longo dos anos e até três versões para o cinema,em 1964,1981 e 2018 (relembre algumas delas abaixo). E uma nova adaptação para as telas está em curso: capitaneado por Maurício Mota,um dos netos do autor,e pela atriz norte-americana Viola Davis,o projeto terá direção de Karim Aïnouz e roteiro da irlandesa Kirsten Sheridan.
Na trama,o repórter sensacionalista Amado Ribeiro (André Mattos),que vê o beijo,transforma o ato de compaixão em narrativa de difamação. Com ajuda do delegado Cunha (Ernani Moraes),a imprensa acusa Arandir de ser amante do morto e até de ter provocado o acidente. Assim,ele,sua esposa,Selminha,(Luísa Arraes) e sua cunhada,Dália (Nina Tomsic),sofrem com o preconceito e a perseguição da sociedade. Cada vez mais isolado,Arandir ainda precisa lidar com o sogro,Aprígio (Edson Celulari),que sempre o reprovou e fica ainda mais duro após o caso.

Luísa Arraes e Edson Celulari como Selminha e Aprígio em "O beijo no asfalto" — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
— Os preconceitos,as manipulações de mídia,tudo isso já existia nos anos 1960,existe agora e provavelmente vai continuar existindo daqui a 20,30 anos. Isso sem falar nas pulsões humanas,que Nelson identificava de maneira brilhante — comenta o diretor,que,sem alterar o texto,buscou mesclar passado e presente para ressaltar a atemporalidade da obra. — Usamos projeções com a sintaxe das redes sociais e os elementos da era dos cancelamentos atual. Em contraste,os figurinos e os móveis são dos anos 1960.
Marco André teve seu primeiro contato com o universo rodrigueano justamente a partir da adaptação cinematográfica de “O beijo no asfalto” de 1981,dirigida por Bruno Barreto. Composto por cinco telões verticais móveis,o cenário de Aurora dos Campos denota a influência da sétima arte,com projeção de cenas gravadas e imagens que transformam o palco em delegacia,redação de jornal e na casa da família. Completam a encenação os músicos Laura de Castro e Nigga,que tocam ao vivo.
— Além da música do João Bosco,escolhemos outras do Roberto Silva e do repertório da Maísa que parecem ter sido feitas para o espetáculo — explica o diretor.
Casada com o protagonista há cerca de um ano,Selminha começa a peça como uma das principais defensoras do marido. “Confio mais em Arandir do que em mim mesma”,repete. Dália,sua irmã,também acredita na versão do cunhado. Com o tempo,porém,a pressão dos boatos desestabiliza até as relações mais sólidas do personagem,que passa até a duvidar de si mesmo.

Ao centro,Eduardo Sterblitch como Arandir,protagonista de "O beijo no asfalto" — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
— Selminha e Arandir são arrancados da inocência da vida perfeita,do casamento,e entendem que o mundo é muito barra pesada,que esse tipo de idealização não cabe na realidade — opina Luísa Arraes. — É quase como um romance de amadurecimento dos dois.
Para Sterblitch,o isolamento do protagonista é um dos pontos mais tocantes do texto,não só pela reflexão que provoca,mas também porque o próprio ator se vê na história.
— Arandir é talvez o personagem mais parecido comigo que já fiz. Nelson o descreve como um cara de grande simpatia,mas que carrega uma certa tristeza,e acho que é a minha cara. Existe uma facilidade de compreensão do que está acontecendo na cabeça dele,pois também se passa na minha — comenta o ator,que se prepara para viver outro personagem do dramaturgo.
Ele será o controverso e imoral Peixoto,de “Bonitinha,mas ordinária”,na próxima novela da Globoplay,“Paraíso perdido”,que mescla ainda as peças “A mulher sem pecado”,“Toda nudez será castigada” e “Os sete gatinhos”.
Fazendo sua estreia no universo rodrigueano,Edson Celulari interpreta um personagem que encarna as contradições e a falsa moral da elite brasileira: por trás da aparência respeitável,escondem-se as ambiguidades e a hipocrisia típicas da obra do autor. Sem querer adiantar as várias reviravoltas da trama — mesmo que o clássico esteja entre nós há mais de seis décadas —,o ator reflete sobre o que mais lhe toca na narrativa: o clamor pela humanidade num mundo cada vez mais individualista.
— Mesmo sendo cancelado,como dizemos hoje,Arandir em nenhum momento se arrepende do que fez. Os jornais inventam notícias,mas ele defende a ideia de que aquilo é a coisa mais bonita que fez na vida. Ao assistir,cada um pensa: “se fosse eu,daria o beijo?”. Esse gesto de delicadeza para com o outro,num momento tão particular da morte,é um convite para reflexão do homem e da mulher contemporâneos — diz.
Relembre algumas das principais versões do clássico de Nelson Rodrigues.
A primeira montagem,em 1961
Dirigida por Fernando Torres,a montagem do grupo Teatro dos Sete ficou meses em cartaz. No elenco,Fernanda Montenegro,Mário Lago e Suely Franco.

Oswaldo Loureiro e Fernanda Montenegro na primeira montagem de "O beijo no asfalto" — Foto: Divulgação
Nos cinemas
A 1ª adaptação foi de Flávio Tambellini,em 1964. Na 2ª,de 1981,Bruno Barreto insere a tragédia na atmosfera descontraída da década. Com Ney Latorraca,Christiane Torloni e Tarcísio Meira.

Christiane Torloni,Tarcísio Meira e Lídia Brondi em "O beijo no asfalto" (1981) — Foto: Divulgação
Até versão musical
Com 16 canções de Cláudio Lins (como Arandir),o musical dirigido por João Fonseca rodou o país em 2015 com Laila Garin,Gracindo Junior e Thelmo Fernandes.

Yasmin Gomlevsky,Cláudio Lins e Laila Garin no musical "O beijo no asfalto",de 2015 — Foto: Divulgação
Em preto e branco
Fernanda Montenegro volta em papel secundário no filme PB dirigido por Murilo Benício,que tem Lázaro Ramos,Débora Falabella e Stênio Garcia nos papéis principais. A montagem alterna uma leitura de texto conduzida por Amir Haddad com encenações.

Débora Falabella e Fernanda Montenegro em cena de "O beijo no asfalto" (2018) — Foto: Divulgação
Onde: Teatro Gláucio Gill,Copacabana.Quando: 16 de julho a 3 de agosto. Que horas: qui a seg,às 20h. Quanto: R$ 20.Classificação: 14 anos.
