
Uma fazenda de arroz danificada após enchente histórica no Rio Grande do Sul,em maio de 2024 — Foto: Bloomberg
GERADO EM: 29/06/2026 - 17:07
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A aproximação do El Niño ameaça aprofundar uma crise financeira entre produtores de arroz no sul do Brasil,onde anos de eventos climáticos extremos já elevaram os custos e obrigaram a principal região produtora do país a reduzir os planos de plantio futuro.
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O Rio Grande do Sul,responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz,conclui a colheita com produção total prevista para recuar 10,4%,para perto de 7,8 milhões de toneladas,segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Otavio Sousa,no extremo sul do estado,encerrou o ciclo atual sem perspectiva de melhora no curto prazo.
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— Estou tentando,mas não tem coisa que a gente faça que pague—,disse o produtor e agrônomo de 60 anos. — Este ano,com certeza vamos marcar prejuízo com o preço que nós estamos vendendo hoje.
O surgimento de um padrão climático El Niño ocorre depois de produtores brasileiros já terem sofrido neste ano,depois que guerra no Irã elevou os preços dos fertilizantes e os custos com combustíveis. Isso se soma a uma série de outros problemas que vêm pressionando os agricultores — incluindo outros eventos climáticos severos.

Silos e plantação de arroz inundadas em Eldorado do Sul,no Rio Grande do Sul — Foto: Nelson Almeida/AFP
Evandro Oliveira,analista da Safras & Mercados,disse que a pandemia,o histórico de estiagem e,em seguida,a sequência de chuvas intensas ajudaram a desequilibrar as finanças do produtor. Para ele,a relação entre “custo,preço e produtividade” saiu do eixo,com perdas de rendimento,despesas mais altas e preços de comercialização estagnados.
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— O El Niño é o pior cenário possível para o arroz— disse Oliveira. — Mas agora resta saber qual a intensidade. Se for um El Niño forte,o cenário para o arroz vai ser bastante complexo.
Caso os padrões climáticos do passado se repitam,acrescentou,a produção nacional pode ficar abaixo dos níveis de consumo.
O El Niño,confirmado por cientistas no início deste mês,altera padrões climáticos globais,e o atual pode estar entre os mais fortes já registrados. Um relatório de junho do Itaú BBA indicou que chuvas acima da média podem atrasar o plantio de arroz,que começa em setembro,enquanto a falta de sol provocada pelo tempo nublado também pode limitar a produtividade.
O clima tem sido uma ameaça recorrente para produtores no Rio Grande do Sul. A região enfrentou seca em 2022,enchentes em 2023,chuvas devastadoras entre abril e maio de 2024 e uma nova rodada de precipitações intensas em maio de 2025,que atingiu regiões tradicionais do cultivo de arroz,como Santa Vitória do Palmar e Alegrete.
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— A gente perdeu muita coisa— recordou Otavio,incluindo cerca de metade do arroz plantado durante o episódio mais crítico de chuvas fortes.
Qualquer nova safra desenvolvida sob influência do El Niño volta a acender o alerta,e a principal preocupação para o arroz é o risco de alagamentos,segundo Ludmila Camparotto,agrometeorologista da Rural Clima.
—Nós tivemos no último ano enchentes no Rio Grande do Sul,que trouxe perdas principalmente para a parte civil,mas,claro,também para o agro— disse ela.
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Em Alegrete — município de cerca de 72,4 mil habitantes e reconhecido como “capital gaúcha” culturalmente —,as chuvas de maio de 2025 forçaram moradores a deixar suas casas. Produtores locais que perderam lavouras em anos anteriores foram atingidos novamente e ainda não se recuperaram plenamente,com o impacto da guerra no Irã acrescentando mais pressão.
O produtor rural de Alegrete Lucas Di Napoli disse que o custo “ficou fora da realidade” para agricultores que precisam equilibrar despesas enquanto os preços dos grãos caem.
— Não tem conta que feche — acrescentou.
Mesmo sem outro choque climático,o setor entra enfraquecido no próximo ciclo. Sousa já havia reduzido a área de arroz em cerca de 15% em 2023,mas disse que um corte de 20% teria sido o ideal. Apesar do aumento da produção na safra atual,ele provavelmente reduzirá ainda mais a área plantada.
—É muita preocupação no futuro,porque a gente já perdeu na enchente— disse Sousa.
O aperto já redesenha o mercado de arrendamento rural no Rio Grande do Sul. Alessandro Acosta,sócio-fundador da Safras & Cifras,disse que produtores começaram a encerrar contratos ou a renegociar valores menores quando os arrendamentos chegam ao vencimento.
—Esse é o momento de ficar só com os ótimos,porque os bons estão ruins,tamanha a situação— recorda Acosta,citando o que ouviu de um cliente.
Com a aproximação da próxima temporada de plantio,produtores seguem presos entre mercados voláteis e um clima imprevisível.
—Ainda tem muitas variáveis a serem pensadas. Por isso que o produtor está se sentindo numa sinuca de bico— disse Oliveira.
