
O premier britânico,Keir Starmer,renunciou às funções como chefe de governo e líder do Partido Trabalhista — Foto: Henry Nicholls/AFP
O primeiro-ministro do Reino Unido,anunciou sua renúncia ao cargo um dia antes de o plebiscito do Brexit,que determinou a saída da União Europeia (UE),completar dez anos. A crise que derrubou Starmer está ligada a múltiplos fatores,mas o pano de fundo da sexta troca de primeiro-ministro em dez anos é a insatisfação crescente da população britânica com os resultados do divórcio da UE. Fica a cada dia mais evidente que o Brexit fracassou,embora a esta altura seja difícil imaginar o retorno do Reino Unido ao bloco.
Reino Unido: Keir Starmer anuncia renúncia ao cargo de primeiro-ministro e à liderança do Partido Trabalhista
O objetivo do então premiê David Cameron ao convocar o plebiscito do Brexit era dar uma satisfação à ala eurocética do Partido Conservador para conter a direita nacionalista que se articulava em torno do populista Nigel Farage. O fracasso foi fragoroso. Não apenas o Brexit foi aprovado — por 51,9% a 48,1% — e se tornou realidade depois de intrincadas negociações com a UE,como o nacional-populismo de Farage se fortaleceu. Ele fundou um partido,o Reform UK,que se tornou uma ameaça tanto aos trabalhistas quanto aos conservadores nas urnas,hoje com apoio ao redor de 30% do eleitorado.
Ao mesmo tempo,as consequências negativas do Brexit saíram do campo das previsões para o plano dos fatos. O PIB britânico ficou entre 6% e 8% menor ao longo da década devido à saída da UE,segundo estudo do National Bureau of Economic Research. O emprego está 3% a 4% abaixo do nível em que estaria se não tivesse ocorrido o divórcio. A perda de produtividade foi de igual proporção. A inflação britânica desde o plebiscito até maio chegou a 41,4%,a maior da Europa Ocidental,excetuando a Áustria.
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Nem a principal promessa que motivou o Brexit — reduzir a imigração — se tornou realidade. Ao contrário,o saldo migratório quase dobrou,de 240 mil em 2016 para 431 mil em 2024. A estratégia geopolítica de se afastar da UE para se aproximar dos Estados Unidos e de outros mercados se revelou uma quimera. Os americanos desviaram sua atenção da Europa,e o Reino Unido é hoje bem menos relevante no mundo do que era há uma década,“uma pequena economia aberta e mais exposta”,nas palavras de Adam Posen,presidente do Peterson Institute for International Economics.
Não é à toa que,em pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR),57% dos britânicos tenham dito que o país errou ao deixar a UE. Em pesquisa do YouGov,62% se referiram ao Brexit como “fracasso”. O humor do eleitorado deu origem a termos como “Bregret” (arrependimento com o divórcio),“Breturn” ou “Breunion” (a volta à UE). Para 75% dos ouvidos pelo ECFR,o Reino Unido deveria estreitar laços com o bloco europeu. Não significa necessariamente retornar à UE nos mesmos termos. “A mera perspectiva de voltar ao mercado comum impulsionaria confiança e renovaria o interesse dos investidores por ativos britânicos”,diz o economista Anatole Kaletsky. O próximo primeiro-ministro terá de lidar com uma realidade incontornável: até agora,o Brexit representou uma década perdida.
