Biografia revela que Brizola procurou Cuba para tentar evitar golpe de 1964

Notícias de transporte Jul 31, 2026 IDOPRESS

Leonel Brizola usa o rádio para articular Cadeia da Legalidade e garantir a posse de João Goulart — Foto: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

A jornalista Karla Monteiro já chamara o elevador quando Almino Affonso pediu que ela aguardasse mais um minuto. O ex-ministro do Trabalho de João Goulart,após três longas sessões de entrevistas,queria lhe dar uma dica: “Fale com o Raulito.” Ele se referia a Raúl Roa Khoury,o jovem embaixador de Cuba no Brasil em 1964,filho do então chanceler Raúl Roa García. É dele uma das principais revelações de “Brizola,volume 1: lobisomem contra o império”,o primeiro tomo de alentada biografia de um dos protagonistas da política brasileira do século XX.

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Raulito revelou à biógrafa que,diante do recrudescimento nos dois lados do tabuleiro político do pré-golpe,o cunhado do presidente dera um passo ousado. E o procurara para saber se,em caso de tomada de poder à força pela direita,“poderíamos contar com Havana”. O encontro se deu numa residência insuspeita perto da embaixada,com a presença de Almino. E,afirma o ex-diplomata,Brizola foi direto.

“Ele pediu US$ 500 mil da época (cerca de US$ 5,3 milhões hoje,ou R$ 26,5 milhões) para o seu movimento. Solicitei imediatamente viajar a Cuba para falar pessoalmente com o primeiro-ministro.” Assim foi feito e,após a repercussão do Comício da Central do Brasil,em que Jango moveu seu governo decididamente à esquerda,Fidel avaliou que “ou bem ele tem tudo amarrado com militares,dirigentes sindicais e políticos,ou Goulart não dura mais um mês no poder”. E determinou que seu embaixador regressasse imediatamente com a resposta a Brizola. Os militares,no entanto,moveriam as peças do tabuleiro bem mais rapidamente,e em oito dias o presidente seria deposto.

Leonel Brizola abraça João Goulart após a Campanha da Legalidade — Foto: Fundo Correio da Manhã/ Arquivo Nacional

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Não houve tempo para Brizola receber a notícia de que a ilha não só entregaria de bate-pronto metade da ajuda pedida,como incluiria a oferta pessoal de Che Guevara para comandar uma eventual resistência armada. “Como Brizola estava no Rio Grande do Sul,não pude vê-lo para entregar a mensagem de Fidel,com a ajuda prometida e a proposta de Che”,contou Raulito.

'Che poderia ter vindo'

Almino confirmou a história e disse que jamais a revelara anteriormente por contingências que incluíam a própria reinvenção política de Brizola durante o exílio e inevitáveis questionamentos relacionados à soberania nacional,parte central de seu apelo.

— Se Roa tivesse voltado ao Brasil a tempo,Che poderia ter vindo organizar a resistência com Brizola e morrido aqui. Ou não. De qualquer forma,teria mudado a história da América Latina — diz Karla Monteiro.

O restante é História. E é ela que serve de guia para a jornalista,que destrincha a trajetória de Leonel de Moura Brizola (1922-2004),da infância pobre no interior gaúcho e sua preocupação com a educação pública até o retorno ao Brasil,em 1978,uma década e meia após o exílio forçado pelos militares. Ficarão para o segundo tomo a fundação do PDT,as duas passagens pelo governo do Rio de Janeiro,a candidatura à Presidência da República em 1989 e a ascensão à esquerda do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Antes de retornar quatro décadas,para destrinchar os primeiros passos de Brizola e as raízes do trabalhismo,o livro começa em 1962,com a encampação,pelo então governador gaúcho,da subsidiária da americana International Telephone & Telegraph (ITT),por ele incorporada à recém-criada Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações (CRT). Ato que o governo de John F. Kennedy equipararia às estatizações de empresas de seu país em Havana após a Revolução Cubana,três anos antes,no auge da Guerra Fria.

O lobisomem do título do livro é referência à alcunha dada ao político por conta do programa que comandava na Rádio Farroupilha. Inicialmente com o objetivo declarado de prestar contas de seus governos na Prefeitura de Porto Alegre e no Palácio Piratini,se revelaria peça central para a Cadeia da Legalidade. A mobilização comandada por Brizola garantiu,em 1961,a posse do então vice-presidente João Goulart,irmão de sua mulher,Neusa,em missão oficial na China,quando da renúncia de Jânio Quadros. O resultado imediato seria o único e curto experimento parlamentarista da República no Brasil.

Após o rompimento com o inimigo íntimo Jango,especialmente pelo presidente deposto não ter optado pela repetição de 1961 três anos depois,cioso em evitar uma guerra civil,Brizola foge para o Uruguai. Outros pontos altos do livro são a recuperação da única entrevista dada pelo político na clandestinidade antes de cruzar a fronteira,a um jovem Eduardo Galeano,mais tarde autor de "As veias abertas da América Latina",e o passo a passo das ações do ex-governador no país vizinho,incluindo as tentativas frustradas de iniciar o combate armado à ditadura no Brasil e seu envolvimento com os Tupamaros.

Em Washington

Também há uma análise do abrigo do governo de Jimmy Carter ao político após a expulsão de Brizola do Uruguai. Em Nova York,o brasileiro se torna símbolo da nova política de defesa dos direitos humanos de Washington,com a denúncia dos arbítrios das ditaduras do Cone Sul. O gaúcho,por sua vez,migra da pregação da revolução latino-americana para a social-democracia do outro lado do Atlântico,afinado com Mario Soares,François Mitterrand e Willy Brandt.

O livro termina com uma reflexão sobre o efeito direto do processo de radicalização de Brizola a partir do suicídio de Getúlio Vargas em 1954,que pode ter retardado ou involuntariamente acelerado o golpe dez anos depois.

Serviço:

'Brizola Vol. 1: Lobisomem contra o império'

Autor: Karla Monteiro. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 456. Preço: R$ 99,90.

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