
Eliana Alves Cruz no Largo de Santa Rita,Centro do Rio — Foto: Ana Branco/Agência O Globo
Eliana Alves Cruz encontra a reportagem do GLOBO ao sair da Igreja de Santa Rita,no Centro do Rio. Padroeira das causas impossíveis,a santa também salva os endividados,brinca a escritora. Curiosamente,é uma dívida que lança a carreira de investigador de Nuno Moutinho,protagonista de “O crime do Cais do Valongo”,sucesso de crítica de 2017. O romance consolidou Eliana como uma das principais autoras de sua geração e marca a primeira aventura do carismático detetive amador.
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Negro nascido livre e dono de uma pequena biblioteca particular,ele transita com cinismo pelo Rio do início século XIX e descortina a hipocrisia de uma sociedade escravocrata em que todo mundo é criminoso ou cúmplice de um crime.
Pois Nuno está pronto para novas investigações. Ele protagonizará os livros da coleção “Crimes coloniais”,que Eliana e a editora Record inauguram com a reedição de “O crime do Cais do Valongo”,recém-chegado às livrarias. A autora já prepara o próximo volume,que deve sair em janeiro com o título de “O roubo da joia do Congo”.
— Esse ambiente do século XIX no Rio de Janeiro é muito rico e ainda pode ser explorado de diversas maneiras — diz Eliana. — Eu pensava: por que o nosso passado ainda não gerou um detetive? Por que esse cara ainda não apareceu? Para a maioria da elite da época,Nuno deveria estar no noticiário apenas como bandido. Mas é ele que vai elucidar,de uma maneira ou de outra,os tais crimes.
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O atual Largo de Santa Rita,onde fica a igreja homônima,é um espaço simbólico na história do Rio. Na época de Nuno,a região fazia parte da freguesia de Santa Rita,que abrigava o Cais do Valongo e todo o complexo comercial ligado ao tráfico de pessoas escravizadas. Ali se encontram vestígios do primeiro cemitério de escravizados recém-chegados.
O sítio arqueológico entrou no debate público durante os estudos para a implantação de trechos do VLT na região,que quase levou à remoção de restos mortais (após uma série de polêmicas,a concessionária do VLT cedeu à pressão de ativistas e pesquisadores e a área não sofreu escavações profundas).
Essa História soterrada,que durante muito tempo permaneceu à margem da memória oficial,ressurge nos casos investigados por Nuno. Antes dos aterramentos,a cidade era uma fração do que é hoje,mas suas cisões já se mostravam abismais. Parte do que entendemos agora como Centro foi,nas palavras de Eliana,uma espécie de “subúrbio”. A poucos passos dos casarões de senhores de escravos,fervia a brutalidade do Valongo e de seu mercado de cativos. Como coloca uma de suas personagens,poucos minutos separavam a “cidade dos mortos da cidade dos vivos”.
— O Rio era formado por mundos relativamente próximos e muito distintos — diz Eliana. — Mostro uma cidade que,desde sempre,tem no seu DNA essa repartição. O abismo que se vê hoje na Zona Sul e o resto da cidade já estava lá (com outra geografia).
Nesse ambiente em que o crime se confunde com a própria estrutura social,Nuno forja seu niilismo. O boêmio livreiro,que herdou do pai um sobrado e algum dinheiro,tem acesso a lugares aonde a maioria dos homens negros não podia ir. A cor da sua pele,contudo,o torna mais próximo de outro grupo social: a “arraia-miúda”,formada por marinheiros,prostitutas,comerciantes,trabalhadores pobres e outros marginalizados.
Um dia,o corpo do principal credor de Nuno amanhece em uma ruela do Cais do Valongo. Sabendo que a investigação fatalmente chegará nele,Nuno mergulha no caso tentando se antecipar ao Intendente Geral de Polícia da Corte,Paulo Fernandes Vianna (uma figura real do período).
— Nuno é um sujeito de moral duvidosa: pode se colocar em qualquer lado da história,dependendo da conveniência — diz Eliana. — Ele não vê problema nenhum em dar uma boa sacaneada em todas aquelas pessoas em volta dele,porque acha todo mundo terrível.
À medida que as investigações avançam,porém,o personagem começa a entender o seu lugar naquele mundo.
— Nuno percebe o que a figura dele significa para as pessoas poderosas — diz Eliana. — Ele pode ter a leitura que for,não importa: sempre será um homem negro para a elite. Ao mesmo tempo,sendo um bicho solto na cidade como é,Nuno tem uma uma capacidade incomum de observar criticamente a sociedade em que vive.
O conceito da coleção “Crimes coloniais” não segue o modelo clássico do romance policial nem reproduz os códigos da chamada literatura noir. A ambientação é sempre mais importante do que a elucidação,e o crime serve como ponto de partida para iluminar a mentalidade colonial que atravessa a história do Rio.
Em “O crime do Cais do Valongo”,a investigação também serve para salvar a memória dos marginalizados. A narração de Nuno se mistura com a de Muana Lomué,uma escravizada de origem moçambicana que introduz a dimensão doméstica da resistência diaspórica. Historicamente silenciadas,as duas vozes escancaram as lacunas da narrativa oficial,representada pela cobertura oficialista da Gazeta do Rio (fundamental na pesquisa de Eliana,o jornal deixa de fora tudo que realmente importa no caso).
Vencedora do Jabuti na categoria contos de 2022 por “A vestida” e do Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras de 2026,Eliana está acostumada a sobrepor passado e presente. Retratando o Brasil colonial em seu romance “Nada digo de ti,que em ti não veja”,ela encontra conflitos enraizados nos dias atuais,como perseguições a grupos religiosos e LGBTQ+,formação de milícias e disseminação de fake news. Em “Água de barrela”,examina a saga de suas antepassadas negras,do cativeiro no Recôncavo Baiano do século XIX até as lutas do Brasil no início do século XX.
Já a sua desconstrução do gênero policial mostra afinidade com a obra do escritor Alberto Mussa,uma de suas referências. Com seu “Compêndio mítico do Rio de Janeiro”,o autor carioca percorre os últimos cinco séculos da cidade a partir dos seus crimes mais emblemáticos.
Entusiasta da obra de Eliana,Mussa retribui a admiração:
— A história social brasileira é constituída,fundamentalmente,de violência e apagamentos. Nesse sentido,a obra ficcional de Eliana tem um papel essencial,porque investiga precisamente as raízes dessa violência,porque tem alto valor estético e porque parte de uma voz mais do que legítima para exercer esse papel,na arte e na vida — afirma o escritor,vencedor do Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras em 2005.
No próximo volume de “Crimes coloniais”,Nuno Moutinho dividirá a condução da história com Tereza,uma escravizada que encarna o vibrante caldeirão cultural do Rio regencial. A jovem transita por comunidades onde se falava o quicongo,idioma da África Central que circulava pelas ruas da Corte.
A trama de “O roubo da joia do Congo” terá como pano de fundo o sequestro do patrimônio material e imaterial,um assunto em voga no mundo todo. O tema não é apenas a apropriação de objetos,mas toda uma lógica exploratória. Com Eliana,afinal,o debate é sempre mais profundo.
— Como definir roubo quando somos roubados na nossa humanidade,na nossa identidade,nos nossos direitos,na nossa cultura e até na possibilidade de futuro e na capacidade de sonhar? — indaga a autora. — Quer dizer,pelo amor de Deus,o que é crime em uma sociedade que açoita gente em praça pública?
