
Seu Adilo,no pátio da sua livraria em Bangu — Foto: Ana Branco/ Agência O GLOBO
Na Rua Professor Clemente Ferreira,uma das mais movimentadas do centro de Bangu,na Zona Oeste do Rio de Janeiro,um pequeno mostruário de livros e revistas antigos funciona como “vitrine” a céu aberto para transeuntes distraídos. Não fosse pelos cartazes pendurados,seria impossível saber que,nos fundos de uma casa amarela,resiste a última livraria de rua do bairro de Castor de Andrade e Zé Keti.
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Ali,espremido entre um estúdio de tatuagem e uma escola de idiomas,o casal de livreiros Adilo do Carmo,de 71 anos,e Silvia Regia dos Santos,de 66,mantém,desde 2015,a A&S Livraria. Seu Adilo,como é conhecido,trabalha com livros há quase seis décadas. Entre feiras de rua e lojas físicas,o mineiro de Juiz de Fora ajudou a formar gerações de estudantes,professores e simples leitores da região.
— Apesar de ser um comércio,acho que temos uma função social — diz Adilo,radicado desde os 3 anos de idade no Rio,e desde os 8 em Bangu. — Tive entre meus clientes um professor de escola que vinha aqui comprar livros para os alunos que não tinham condições. Um dos alunos dele virou professor e hoje é ele quem compra livros para seus próprios alunos.

Seu Adilo no interior de sua livraria,A&S — Foto: Ana Branco/ Agência O GLOBO
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Somente de títulos didáticos,Adilo calcula ter dez mil livros no estoque da sua casa em Rio da Prata,um sub-bairro de Bangu. O catálogo da A&S,porém,agrada a todos os gostos: romance,poesia,ficção,não-ficção,revistas,quadrinhos,entre tantos outros gêneros. No pátio da loja,alguns títulos aparecem empilhados dentro de carrinhos de supermercado. Tranquilo e aconchegante,o espaço recebe volta e meia a visita de saguis. Um homem-palito de metal,pintado de amarelo,dá boas vindas aos clientes.
Antes de abrir sua loja,Adilo passou décadas ganhando a vida em feiras livres. Ele iniciou na profissão de livreiro aos 14 anos,mas a paixão pelos livros vinha de longe. Aos 4,quando sua mãe trabalhava na casa de uma família tijucana,aprendeu a ler com as filhas da patroa,que eram professoras.
— Sempre que sobrava um livro ou uma revista em quadrinho lá na casa dos patrões,minha mãe trazia para mim — diz Adilo. — Desde aqueles livrinhos de historinha do macaco e da onça,do coelhinho e não sei o quê. A gente começa com uma coisa e depois vai pegando,vai aumentando o nível de conhecimento. Eu não melhorei muito,continuo lendo macaco e a onça mesmo (risos). Tem livro que às vezes é bom a gente ler até para indicar para alguém. Eu gosto de fazer isso.
Nos anos 1990,quando a internet chegava a poucos lares de sua vizinhança em Rio da Prata,ele criou em sua casa uma espécie de “locadora” de material de pesquisa para trabalhos escolares. O aluguel de um livro saía a R$ 2,mas era mais do que um simples negócio.
Adilo catalogava em caixas reportagens,mapas,artigos científicos e outras descobertas que considerava útil para a vida escolar. Quando aparecia um aluno pedindo ajuda,ele já tinha o arquivo na cabeça.
— A minha biblioteca,dito pelos alunos que iam lá,era melhor do que a regional — lembra ele. — O aluno chegava meio cru para fazer pesquisa e a gente tinha que ajudar. Por exemplo,chegava lá um camarada: “Estou fazendo um trabalho sobre um Gandhi.” Eu falava: “Calma,cara. Não é isso. Gandhi é uma pessoa,vou te explicar.” Aí fui lá,peguei uma enciclopédia: “Ó,leva aí e copia.” Era assim que a coisa funcionava.
A difusão da internet na década seguinte tornou o experimento ultrapassado e,hoje,o espaço é um mero depósito. A livraria,que concorre com uma unidade da Rede Leitura no Bangu Shopping,a três minutos dali,também tem sofrido os impactos das mudanças tecnológicas. O avanço do comércio on-line e uma recente alta do aluguel do imóvel há dois anos quase fizeram a A&S fechar as portas.
@natashaottoni 📍Rua Professor Clemente Ferreira 1743 - Bangu,Rj #booktok #bangu #sebo #foryou #riodejaneiro #seborj #leia #livrosbaratos
Nesse mesmo período,a livraria conheceu um fenômeno comum no comércio “raiz” da cidade: viralizou. Em um primeiro momento,Seu Adilo estranhou quando uma jovem apareceu na loja “fotografando (sic) desde lá da frente”. Pouco tempo depois,ele e a esposa foram surpreendidos por uma enxurrada de novos clientes. Como o “ápice” do movimento havia sido durante a última Bienal do Livro do Rio,o casal imaginou que o público estava apenas aproveitando a época de pico do evento. Mas não. Era o efeito TikTok.
Publicado na rede social,o vídeo da jovem ganhou repercussão na internet,e a loja de Seu Adilo,com seu estilo autêntico,ganhou uma breve fama entre os mais jovens. Incentivado pela filha,o livreiro cogitou aproveitar o momento de sucesso e expandir seu negócio para a venda on-line. A criação de um sebo virtual,envolvia barreiras demais para um “analfabeto digital”,como ele próprio se define.
— Eu não tenho paciência com computador e a minha esposa também — diz. — Você vai ter que fotografar livro por livro,depois registrar livro por livro. Até precisa de um estagiário. Ficaria um negócio complicado.
O sebo continua pouco ativo no ambiente digital. Seu perfil no Instagram conta,até o fechamento desta edição,com apenas seis publicações e menos de 50 seguidores. Nada disso impede que o espaço físico reúna uma comunidade fiel de leitores,que ali se encontram para comprar livros e trocar ideias.
Morador de Realengo,o historiador Raphael Castelo Branco entrou pela primeira vez na A&S em 2011. Então estudante do primeiro ano do ensino médio,procurava o clássico “As veias abertas da América Latina”,de Eduardo Galeano,indicado por seu professor de História. Encontrou um exemplar com a marcação D,de R$ 10.
— Foi aí que comecei a minha biblioteca,que vem quase toda do Seu Adilo — diz o hoje doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). — É um lugar muito importante para mim,onde fiz muitos amigos e conheci muita coisa. O acervo é maravilhoso e barato.
Em 2020,Raphael perdeu 3.483 livros de sua própria biblioteca em uma enchente. Não teve dúvidas: recorreu ao Seu Adilo para reconstruir seu acervo.
— O curioso é que,pouco antes da enchente,Seu Adilo comprou toda a biblioteca do meu vizinho e acabou,sem saber,salvando todos os livros dele — recorda Raphael.
Para Adilo,o valor do negócio permanece na base do olho no olho:
— Eu gosto de trabalhar assim,em contato com as pessoas. Estou remando contra a maré,e gosto disso.
