'Pejotização' do crime — Foto: Editoria de Arte
Uma série de fundos de investimento estruturados para cobrar um “desconto” de boletos em aberto,assumindo o risco de inadimplência em troca de ganho financeiro,curiosamente,estava aceitando as duplicatas das companhias praticamente pelo valor de face. Além disso,eram comprados títulos com prazos de vencimento curto,em alguns casos de poucos dias úteis,contra dois a seis meses na média do mercado. Dentro da Operação Fluxo Oculto,o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Receita Federal mostraram na semana passada que os recebíveis eram fictícios,de empresas fantasmas,e os fundos funcionavam apenas para esquentar o dinheiro fruto da atuação de organizações criminosas no mercado de combustíveis.
'Pejotização' do crime: infiltração de facções no setor formal tira R$ 39 bi da indústria por ano e eleva risco de sanção dos EUAEfeitos nos negócios: empresários contam como têm planos e lucros limitados por ações de quadrilhas
Em uma camada anterior,esse dinheiro circulava por meio de fintechs “clandestinas” entre distribuidoras e postos que vendiam gasolina adulterada e,delas,para os fundos. Nesse caso,o principal mecanismo para ocultar a origem do dinheiro eram as contas-bolsão — modalidade em que os valores de todos os clientes ficam juntos,sem distinção de titularidade,o que facilitava a ocultação patrimonial. A maioria dessas fintechs operava sem licença do Banco Central,com menor controle da autarquia e fora do alcance de órgãos de inteligência como a Receita Federal e o Coaf.
O mecanismo é o mesmo revelado pela Operação Carbono Oculto,a primeira a apontar a extensão dos tentáculos do PCC na Faria Lima. Esses casos ilustram um fenômeno mais amplo: a evolução do dinheiro digital acelerou o escoamento e a ocultação de recursos ilícitos,assim como sua reintrodução no mercado formal — e isso ajuda a explicar o avanço das facções sobre a economia legal.
As organizações,com ajuda de especialistas,montaram sofisticadas estruturas financeiras para dar ares de legalidade ao dinheiro sujo. Por outro lado,mecanismos de controle podem auxiliar na identificação e investigação desses crimes.
– Antes o setor formal era o meio para ocultar recursos. Agora o setor passou a ser parte do próprio negócio criminoso. Temos fintechs que são criadas apenas para prestar serviços ao crime organizado. Essa mudança é particularmente relevante no contexto financeiro. Estudos internos mostram a magnitude dos fluxos financeiros e a necessidade de identificar seus beneficiários finais,justamente porque esses volumes podem ser utilizados para lavagem de dinheiro de forma estruturada e sofisticada — sintetizou a superintendente da Receita Federal em São Paulo Marcia Meng,que coordena a equipe do órgão responsável pelas apurações da Carbono Oculto e Fluxo Oculto.
Dados do IR revelam: quantos brasileiros têm a mesma profissão que você? E qual é o ganho deles?
Autoridades reconhecem que é preciso atenção redobrada a fintechs,bets,criptomoedas e até a influenciadores nas redes sociais para evitar a propagação de esquemas criminosos. Após o alerta vermelho provocado pelas operações que correlacionaram fintechs a facções,a Receita Federal conseguiu atualizar comandos para que essas instituições financeiras seguissem as mesmas regras dos bancos no envio de informações sobre movimentações de clientes para o Fisco. Até então,estavam fora do radar do órgão.

O edifício do Banco Central,em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Essa inovação permitiu que a Receita avançasse nas conexões dos criminosos com as fintechs,resultando na operação da semana passada. O BC também teve que agir. O regulador já havia detectado a fragilidade gerada pela operação de fintechs sem licença,mas vinha fechando as brechas lentamente.
Dias depois da Carbono Oculto,baixou norma que obrigava as instituições a obter autorização formal até o fim de maio. O BC também limitou o valor das transferências para instituições fora de seu guarda-chuva,apertou regras para prestadoras de serviço de tecnologia e publicou medidas para acabar com as contas-bolsão.
Fim da escala 6x1: jornada menor avança na América Latina; veja os casos de outros países
— Muito dinheiro proveniente do crime organizado circulou por essa brecha,que foi finalmente fechada — afirma o subprocurador-geral da República e coordenador do Gaeco Nacional,José Adonis Callou de Araújo Sá.
Segue em discussão o cerco às contas laranja,usadas para escoar dinheiro em golpes virtuais,ataques cibernéticos e esquemas de lavagem. Abertas com documentos originais,essas contas são vendidas ou alugadas a criminosos. Uma das propostas em análise,com apoio do Ministério da Justiça,é bloquear o CPF vinculado a essas contas de todo o sistema financeiro.
Hoje,quando se constata que uma conta foi usada para fraude no Pix,a instituição financeira é apenas obrigada a encerrar o relacionamento com o cliente.
Durigan: ‘Quem quiser colaborar,de verdade,no combate ao crime organizado,tem portas abertas',diz ministro da Fazenda
— Quem negocia a integridade do seu relacionamento bancário precisa ser alcançado pelo braço forte do Estado. Defendemos a expulsão por no mínimo cinco anos dos clientes que se juntam a golpistas e fraudadores — defende Isaac Sidney,presidente da Febraban.
O investimento dos bancos associados em segurança corporativa já chega a R$ 5 bilhões anuais,segundo Ivo Mósca,diretor de Inovação e Produtos da entidade — e ainda assim não tem sido suficiente para fechar todas as brechas.

A influenciadora Deolane Bezerra chega à sede da Polícia Civil em São Paulo após ser presa por suspeita de operar para o PCC — Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo/21/05/2026
Com alto poder financeiro,o crime organizado consegue operar na fronteira da inovação,inclusive com uso de inteligência artificial. Diante disso,o BC deve aumentar as cobranças sobre segurança cibernética para os regulados.
"O surgimento de novos modelos de negócio,como fintechs e o crescimento do mercado de criptoativos,traz ganhos importantes de eficiência e inclusão,mas também exige evolução contínua dos instrumentos de regulação e supervisão",destaca em nota o diretor de Fiscalização do BC,Ailton Aquino.
As criptomoedas são outra inovação explorada pelo crime organizado,em razão de a tecnologia blockchain não ter um controlador central. Operação da Polícia Civil do Rio encontrou uma "fazenda" de mineração com 30 computadores dedicados,operando com energia furtada no Complexo do Lins,território dominado pelo CV.
Designado regulador do mercado cripto,o BC determinou que todas as corretoras do setor — inclusive as já em operação — se regularizem imediatamente. A orientação interna é começar pelas empresas com indícios claros de que não reúnem condições de permanecer no mercado,deixando para depois aquelas que precisam apenas de ajustes. O desafio,apontam autoridades,é que nesse mercado cada pessoa pode ter sua própria carteira,sem necessidade de intermediário.
— O uso de criptoativos facilita muito a ocultação do produto do crime. Já avançamos com a regulamentação do mercado,mas precisamos avançar com uma renovação da lei dos crimes financeiros — diz o advogado e professor de direito penal da USP Pierpaolo Bottini.

O dono do Banco Master,Daniel Vorcaro,preso por uma série de fraudes financeiras — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
As investigações do Banco Master e as operações de 2025 que miraram o crime organizado também expuseram o uso de fundos de investimento para ocultar os destinatários finais do dinheiro,por meio de estruturas em cascata — fundos como cotistas de outros fundos — que reduzem a transparência.
Regulados pela CVM,com informações parcialmente compartilhadas com o BC,os fundos têm brechas reconhecidas pelo Ministério da Fazenda,que estuda mudanças.
— Toda a tecnologia permite a invenção de novas formas de escoar dinheiro a partir de brechas do sistema financeiro,e o Estado,que tem que regular,demora a entender o que está acontecendo — afirma o jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos de Violência da USP Bruno Paes Manso.
Em outra frente,os cantores MC Ryan e MC Poze são suspeitos de usar a extensa rede de seguidores para impulsionar bets ilegais e de manter relações com o PCC e o CV. Segundo a PF,eles misturavam nas próprias contas dinheiro de apostas ilícitas e do tráfico com receitas declaradas de shows e contratos musicais. As defesas dos dois negam irregularidades.

MC Ryan SP e MC Poze do Rodo — Foto: Reprodução/Redes sociais
Investigação do MPSP apontou ainda que contas da advogada Deolane Bezerra,também envolvida com bets,eram usadas para repassar dinheiro ao chefe do PCC,Marcola,e seus familiares. O mecanismo é simples: deposita-se o dinheiro sujo,faz-se qualquer aposta — sem preocupação com o resultado — e saca-se o valor já com aparência de legalidade.
Plínio Augusto Lemos Jorge,presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL),afirma que o problema está nas empresas "piratas" e que as bets regulares seguem regras rígidas contra lavagem de dinheiro,reportando ao Coaf qualquer movimentação suspeita.
A entidade disponibiliza ao governo um laboratório para monitoramento de plataformas ilegais,meios de pagamento e influenciadores. Nos últimos dez meses,30 mil sites irregulares foram derrubados e 300 instituições financeiras estão em processo de bloqueio por suspeita de operar com bets ilegais.
Para fazer esse trabalho,a reguladora do mercado,a Secretaria de Jogos e Apostas do Ministério da Fazenda,conta com policiais experientes em lavagem de dinheiro,além de diálogo permanente com o BC e a Receita. Em muitos casos,descobre-se que instituições de pagamento usadas para apostas ilegais já estavam sob monitoramento do BC por outros crimes financeiros.
A Associação Brasileira de Criptoativos (Abcripto) contrapõe que menos de 1% das transações globais do setor são classificadas como ilícitas,segundo a Chainalysis,maior empresa mundial de análise de blockchain — ante os 2% a 5% de lavagem de dinheiro estimados pela ONU e pelo FMI dentro do sistema financeiro tradicional.
"Como qualquer tecnologia financeira de alcance global,ativos digitais também podem ser utilizados de forma indevida. Mas o setor regulado vem evoluindo de forma consistente em mecanismos de supervisão,rastreabilidade e cooperação institucional",disse Julia Rosin,diretora-presidente da Abcripto.
