
O presidente dos EUA,Donald Trump — Foto: Tierney L. Cross / The New York Times
GERADO EM: 23/07/2026 - 20:39
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A obra mais relevante de Donald Trump talvez não seja um salão de festas nem um arco,mas seu muro tarifário.
Ao contrário da maioria das rodadas anteriores de tarifas,inclusive as que acabam de ser ameaçadas contra o Canadá,as novas medidas anunciadas nesta quinta-feira se apoiam em investigações que duraram meses sobre supostas práticas comerciais desleais de outros países. Nenhum tribunal jamais derrubou esse tipo de tarifa.
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Mas o maior obstáculo para desfazer as tarifas de Trump depois de 2028 não será jurídico. Será financeiro. Com a dívida dos Estados Unidos chegando ao impressionante patamar de US$ 39,6 trilhões,o mercado responsável por financiar essa dívida rapidamente se tornou dependente do dinheiro que entra diariamente nos cofres públicos graças às tarifas.

O presidente dos EUA,Donald Trump,e Jamieson Greer,representante comercial americano (USTR) — Foto: Will Oliver/EPA/Bloomberg
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Poucos políticos estão dispostos a contrariar o mercado de títulos,já que ele determina o custo dos empréstimos usados em algumas das compras mais importantes feitas pelos americanos,como carros e imóveis. Em vez de ficar limitado por essas forças,o próximo presidente pode encontrar uma maneira de usá-las a favor do país.
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É uma situação que quase ninguém previu. Afinal,foi justamente o mercado de títulos que frustrou os planos tarifários de Trump apenas 15 meses atrás.
Em abril de 2025,no chamado Dia da Libertação,o presidente ameaçou elevar as tarifas sobre praticamente tudo o que os Estados Unidos importam ao maior nível em quase um século. O mercado de títulos entrou em pânico,temendo que uma guerra comercial global provocasse alta dos preços e desaceleração do crescimento,e despencou,levando Trump a suspender seus planos uma semana depois.
"Eu estava acompanhando o mercado de títulos. O mercado de títulos é muito complicado",ele admitiu na época.
Mas Trump,ainda convencido de que as tarifas são a melhor arma econômica à sua disposição para corrigir o que considera um sistema comercial injusto,nunca abandonou a estratégia. Nos meses seguintes,impôs tarifas de forma contínua a vários países,incluindo alguns dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos.


Desta vez,o mercado de títulos não se abalou. Certamente ajudou o fato de que o risco de uma guerra comercial global diminuiu,já que Europa,Índia e Japão decidiram não retaliar. Ao mesmo tempo,os Estados Unidos acrescentavam cerca de US$ 40 bilhões por semana à dívida nacional. Para Wall Street,esse número se tornou muito mais fácil de digerir graças à nova receita tarifária que entrava no Tesouro.
Três meses depois do Dia da Libertação,o governo Trump usou os recursos arrecadados com as tarifas para convencer o Congresso de que tinha como financiar os amplos cortes de impostos previstos no “One Big Beautiful Bill” (projeto de lei defendido por Trump,que incluía grandes cortes de impostos e mudanças nas regras de gastos federais).
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"O Escritório de Orçamento do Congresso divulgou uma estimativa para dez anos segundo a qual a receita das tarifas que já estão em vigor arrecadará US$ 2,8 trilhões ao longo da próxima década",destacou Kevin Hassett,diretor do Conselho Econômico Nacional.
Segundo ele,isso representava "redução do déficit ali mesmo". Até o fim de 2025,o governo havia arrecadado um recorde de US$ 264 bilhões em receita tarifária líquida — mais de três vezes o valor obtido no ano anterior.
Em menos de um ano,os mercados financeiros dos Estados Unidos passaram de rejeitar as tarifas a conseguir conviver com elas e,depois,a precisar delas para ajudar a lidar com o déficit do país.
A evidência mais recente surgiu neste inverno. Em fevereiro,a Suprema Corte derrubou a autoridade do presidente para usar a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA,na sigla em inglês) na imposição de tarifas. Os investidores venderam títulos rapidamente,preocupados com o custo dos reembolsos e com o fim de uma fonte de receita. Em vez de entrar em pânico com a adoção de tarifas,o mercado de títulos agora temia a possibilidade de perdê-las.
Trump tinha um plano pronto. Em questão de horas,o governo anunciou tarifas alternativas e,até o fim do dia,o mercado havia se acalmado. Com essas tarifas provisórias se expirando nesta semana,o governo volta a agir com as novas medidas anunciadas nesta quinta,desta vez amparadas em uma autoridade presidencial que os tribunais têm reconhecido reiteradamente. Elas poderão gerar quase US$ 1 trilhão nos próximos dez anos.


Ao longo desse período,a dívida nacional,cada vez mais insustentável,provavelmente exercerá ainda mais pressão fiscal sobre os futuros presidentes. Independentemente de quem vencer em 2028,o desejo de evitar a ira do mercado de títulos poderá ser grande.
O sucessor de Trump terá alternativas. O próximo presidente poderá manter algumas tarifas e,ao mesmo tempo,reequilibrar a origem dessa receita — e deveria fazer isso.
A estratégia comercial recente de Trump tem sido impor tarifas a todos,sejam aliados ou adversários. Mas e se fosse adotada uma abordagem mais direcionada? O alvo lógico seria a China. Considerando que o país agora registra o maior superávit comercial da história,os argumentos contra a China são mais fortes do que em qualquer outro momento da última década.
A decisão mais inteligente seria propor um acordo aos aliados. Os Estados Unidos poderiam reduzir parcialmente as tarifas sobre seus parceiros em troca do apoio deles para elevar as alíquotas incidentes sobre setores estratégicos da China.
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Pressionados por uma onda esmagadora de exportações chinesas de produtos que vão de automóveis e produtos químicos a aço e painéis solares,os líderes europeus provavelmente estariam muito mais receptivos a esse acordo do que em anos anteriores.
Uma abordagem coordenada de tarifas e restrições comerciais,que deixasse claro onde cada produto foi originalmente fabricado,faria uma diferença real na proteção dos empregos nos Estados Unidos e ajudaria a atenuar a retaliação praticamente certa do presidente Xi Jinping. Essa é a maneira de preservar uma receita tarifária significativa e,criar uma política estável direcionada ao principal rival comercial do país.
É claro que muitas empresas ainda optarão por pagar uma tarifa em vez de transferir toda a sua estrutura de produção. Isso é compreensível. Mas as tarifas pagas por essas companhias deveriam ser usadas para ajudar a garantir que a próxima geração de tecnologias avançadas seja produzida dentro do país.
As ondas de choque provocadas pelas decisões comerciais de Trump durarão muito além de sua Presidência. A maior economia do mundo deve se tornar mais protecionista no futuro próximo. Os mercados financeiros encontraram um lado positivo nessa nova realidade. Se todos nós teremos de arcar com os custos,deveríamos receber algo duradouro em troca.
*Josh Lipsky é vice-presidente e diretor da área de economia internacional do Atlantic Council.
