
Zico e Rivellino avançam pelo meio de campo em partida da seleção brasileira de 1978 contra selecionado do Rio: craques foram destaques na goleada por 7 a 0 — Foto: Sebastião Marinho/12-03-1978
GERADO EM: 12/06/2026 - 17:46
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Após a estreia da seleção,ontem,vale lembrar um capítulo do futebol brasileiro que contou com presenças ilustres e que teve Niterói como palco. Em 12 de março de 1978,o Estádio Caio Martins recebeu a seleção para um amistoso preparatório para a Copa do Mundo da Argentina,que marcaria a única partida do escrete canarinho no estádio. Seis anos antes,houve ali uma apresentação do time olímpico. A seleção comandada pelo técnico Cláudio Coutinho goleou o combinado do interior do estado do Rio por 7 a 0,em uma tarde marcada pelo brilho de Zico e Rivellino. O Caio Martins recebeu 8.859 pagantes.
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O jogo fazia parte de uma série de partidas contra selecionados estaduais. Para Rodrigo Rainha,professor de história da Uerj e estudioso de Copas,o objetivo ia muito além da preparação técnica.
— Ainda era recente o movimento de fusão do antigo Estado do Rio com a Guanabara. Jogar contra uma seleção que representava o estado,na antiga capital,fazia parte de um projeto de integração,de mostrar para o Brasil que o Estado do Rio existia — explica.
O selecionado do interior do Rio tinha jogadores de clubes de Campos dos Goytacazes,Volta Redonda e São Gonçalo.
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Partida da seleção contra combinado do Rio no Caio Martins terminou em 7 a 0 para o Brasil — Foto: Eurico Dantas


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Partida lotou as arquibancadas do estádio de Niterói,além de prédios no entorno — Foto: Eurico Dantas
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Um dos cinco gols de Zico na partida — Foto: Anibal Philot

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Gol de Nunes,jogador do Santa Cruz — Foto: Anibal Philot
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Jogada de Zico,na época o camisa 8 da seleção — Foto: Sebastião Marinho

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Rivellino entra em dividida pela bola — Foto: Sebastião Marinho
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Segundo Rainha,a circulação da seleção por cidades fora do eixo das capitais ajudava a reforçar a ideia de unidade nacional propagandeada pela ditadura militar.
— O futebol fazia parte desse projeto político de brasilidade. A seleção precisava estar em todo lugar — diz o historiador.
O amistoso ocorreu num contexto político tenso. Assim como o Brasil,a Argentina também era governada por uma ditadura,e a Copa de 1978 foi utilizada pelos dois regimes como instrumento de propaganda.
— Os dois países transformaram a Copa em um campo de batalha simbólico. A Argentina buscava legitimar seu regime,e o Brasil também usava o futebol como elemento de coesão nacional — reforça Rainha.
Ele lembra ainda que a delegação brasileira enfrentou dificuldades impostas pelos argentinos durante o Mundial,como gramados ruins e condições desfavoráveis de jogo,em uma Copa marcada pela suspeita goleada da Argentina sobre o Peru por 6 a 0,que resultaria na eliminação do Brasil por saldo de gols. Naquela Copa,por exemplo,Zico teve um gol mal anulado,pois o juiz encerrou a partida logo depois da cobrança de escanteio,enquanto a bola voava,antes de o Galinho cabecear para a rede. Ele acabou indo para o banco após o terceiro jogo,e uma das razões,pontua o professor,seria a alegação de que os gramados ruins estavam prejudicando seu estilo de jogo técnico.
— A ditadura argentina cai em 1983,logo após a Guerra das Malvinas. O Mundial de 1978 foi uma tentativa desesperada de legitimação de um governo decadente. Eles tinham uma resistência enorme ao Brasil e fizeram de tudo para transformar a Copa em uma guerra — ressalta o professor.
A Argentina foi campeã do mundo pela primeira vez naquela Copa,contra a Holanda.
No Caio Martins,o Brasil teve atuação dominante. Zico,craque do Flamengo,marcou cinco vezes,igualando o recorde de gols em uma única partida da seleção que pertencia a Evaristo. Rivellino,já no Fluminense naquela época,fez um gol e deu assistências para companheiros,enquanto Nunes,do Santa Cruz,completou o placar.
As crônicas da época destacavam a rapidez na troca de passes e a movimentação ofensiva exigida por Coutinho. O técnico elogiou especialmente o entrosamento entre Rivellino,Dirceu e Edinho,além da eficiência de Zico.
Com seus cinco gols,o Galinho de Quintino levantou o público rubro-negro que lotou as arquibancadas,mas o ídolo encarou o entusiasmo da multidão com simplicidade.
— Torcedor é assim mesmo,enlouquece com os gols. Na verdade,também vibro quando consigo marcar. Mas num time como a seleção brasileira é fácil,ainda mais tendo Rivellino na armação — destacou.
A torcida do Fluminense também passou a gritar o nome de Rivellino após o sétimo gol brasileiro,de autoria do próprio Príncipe das Laranjeiras. Capitão da equipe,ele resumiu o espírito coletivo que Coutinho tentava implantar:
— Muitas vezes sei que posso tentar o gol,mas vejo um companheiro em melhores condições e passo a bola — afirmou o armador.
Talvez a história que melhor resuma aquela partida seja a publicada nareportagem do GLOBO no dia seguinte. Enquanto a torcida gritava o nome de Zico,um menino na tribuna de honra perguntou ao pai:
— Pai,é só o Zico que pode fazer gols?
O pai,torcedor do Fluminense,respondeu apontando para Rivellino:
— Olha o Rivellino,meu filho,ele é o fino,é ele quem dá os passes.
Depois daquele período,o estádio,que chegou a ser prisão da ditadura militar,perdeu espaço no cenário nacional. O Caio Martins teve um último momento de grande visibilidade quando o Botafogo mandou partidas no local e viveu uma fase competitiva até o título brasileiro de 1995. Rainha avalia que o projeto de transformar Niterói em polo relevante do futebol acabou esvaziado com o tempo.
— Depois da fusão,as cidades do Rio vão se vocacionando. Talvez pela proximidade de Niterói com os grandes times do Rio ou pela fase ruim do Botafogo,o projeto vai perdendo sentido. Ficou cada vez mais claro que a cidade de Niterói não tinha vocação para o futebol — conclui.
Conforme noticiado pelo GLOBO-Niterói no fim do ano passado,o Complexo Esportivo Caio Martins,em Icaraí,foi retirado da lista de imóveis que poderiam ser vendidos pelo governo do estado,e avançou o projeto que prevê uma transformação radical da área: o estádio deverá dar lugar a um parque esportivo integrado a um grande sistema de drenagem para combater as enchentes que atingem a Zona Sul de Niterói.
A exclusão do complexo da relação de bens alienáveis foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj),durante a tramitação do Projeto de Lei Complementar 40/25,enviado pelo Executivo estadual. A medida acaba,ao menos por ora,com a possibilidade de venda do terreno.
Paralelamente,uma reunião entre o governador em exercício,Ricardo Couto,e o prefeito Rodrigo Neves,divulgada pela coluna de Ancelmo Gois em maio,definiu os contornos do projeto para a área. A principal intervenção será a construção de um reservatório subterrâneo de águas pluviais,o chamado piscinão,destinado a reduzir os alagamentos recorrentes registrados nos arredores do estádio e em outros pontos da Zona Sul da cidade.
A obra faz parte de um conjunto de intervenções de macrodrenagem que prevê ainda a implantação de cerca de seis quilômetros de novas redes de escoamento e melhorias em ruas do entorno. O investimento estimado pelo município é de aproximadamente R$ 350 milhões.
Na superfície,a proposta é criar um parque multiesportivo aberto ao público. O projeto prevê a modernização das piscinas e quadras já existentes,além da implantação de novos equipamentos voltados ao esporte e ao lazer.
