Ao piano, Vanessa Wagner usa Glass e Bach contra a cultura do imediato

Lazer e entretenimento Aug 17, 2026 IDOPRESS

Wanessa Wagner é uma das artistas mais premiadas da indústria fonográfica na França — Foto: Divulgação

Philip Glass estava na plateia do Théâtre du Châtelet,em Paris,quando Vanessa Wagner tocou sua música. Ao fim do concerto,o compositor estava profundamente emocionado. Para a pianista francesa,que antes de gravar os “Études” evitara deliberadamente ouvir tanto as interpretações do próprio Glass quanto as de outros pianistas,a reação teve um significado especial.

— Foi a maior recompensa — conta a pianista,uma das mais premiadas da indústria fonográfica da França.

Havia também uma espécie de confirmação,que estará a disposição dos espectadores de seu recital desta segunda-feira (17),às 19h,pela Série O GLOBO/Dellarte de Concertos Internacionais: Wagner nunca acreditou que a repetição de Glass exigisse do intérprete frieza ou neutralidade. Abordou seus Estudos com a bagagem de quem tocou Mozart,Schumann,Schubert,os impressionistas e a música contemporânea,procurando neles intensidade,liberdade,emoção. E lembra que o próprio Glass oferece uma indicação reveladora: sua música,diz ele,deve ser tocada “como Schubert”.

Nesta segunda-feira,essa resposta toma a forma de um encontro entre Johann Sebastian Bach e Philip Glass. Vanessa intercala nove Estudos do americano com sete prelúdios de “O cravo bem temperado”. Em vez de dois blocos separados,os compositores,distantes quase três séculos,são colocados diante de espelhos.

— Não ouvimos nem Glass nem Bach da mesma maneira quando eles respondem um ao outro e se contemplam dessa forma.

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Vencedora do Victoire de la Musique em 1999 e descrita pelo “Le Monde” como “a pianista mais singular de sua geração”,Vanessa fez dessa permeabilidade uma característica de sua carreira. Toca o grande repertório,recebeu dedicatórias de obras de compositores contemporâneos e já dividiu um disco com o músicos da eletrônica pop. Sua integral dos 20 Estudos de Glass recebeu o Diapason d’Or e a cotação máxima da revista “Télérama”.

A aproximação entre Bach e Glass,insiste ela,está longe de ser apenas uma boa ideia de programação. Vanessa observa que,separados das fugas,os prelúdios de “O cravo bem temperado” quase poderiam ser tratados como estudos. Bach parte de um módulo,um padrão,repete-o,transforma-o,gira em torno dele e às vezes sequer modula. Glass leva esse procedimento “ao paroxismo”.

Há uma correspondência microscópica,nos padrões rítmicos e nas repetições,e outra muito maior: ambos alteram nossa percepção do tempo e carregam,para Wagner,uma dimensão espiritual. Em Glass,sobretudo,repetir nunca significa retornar exatamente ao mesmo lugar.

— Para mim,é como olhar para um horizonte com uma luz que muda imperceptivelmente e que,de um segundo para o outro,nunca mais será a mesma.

O Municipal do Rio acrescenta ao programa uma coincidência biográfica para Vanessa: uma das primeiras memórias musicais é ouvir o pai colocando “The Köln Concert”,de Keith Jarrett. Hoje,ela tocará no mesmo palco onde Jarrett realizou,em 2011,as improvisações lançadas depois no álbum “Rio”.

— Talvez aquela experiência da infância tenha me conduzido à busca por interioridade,intensidade e liberdade que reconhece no repertório minimalista — diz ela,reconhecendo alguns dos valores mais caros ao pianista americano.

Glass,Bach e a lembrança de Jarrett acabam unidos,portanto,por uma mesma matéria: o tempo — justamente aquilo que o mundo contemporâneo parece menos disposto a oferecer. Por isso,prefere não fazer pausas entre as peças: quando toca a integral dos 20 Estudos de Glass,Wagner mantém o público consigo por 2h20. Chama a experiência de “uma rebelião contra o imediatismo”,o que talvez seja um convite a muitos que veem o mundo perder,por exemplo,o hábito da leitura em nome dos vídeos curtos no scrolling do celular.

Para ela,a sobrevivência do recital se deu e se dará não pelas previsões sobre o futuro da música clássica,mas pelo que encontra quando a última nota desaparece.

— Vejo pessoas com lágrimas nos olhos,realmente emocionadas,ou saindo de um concerto com um sorriso imenso,e penso: que profissão mais bonita poderia haver,neste mundo sombrio e louco,do que proporcionar felicidade às pessoas?

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