Novas imagens de satélite com precisão seis vezes maior devem redefinir a fiscalização ambiental no Brasil

Lazer e entretenimento Jun 24, 2026 IDOPRESS

A imagem à esquerda mostra imagens disponíveis anteriormente; a imagem à direita mostra um novo mapa detalhado criado pelo Google — Foto: Divulgação/Google

RESUMO

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GERADO EM: 23/06/2026 - 19:38

Imagens de satélite revolucionam fiscalização ambiental no Brasil

Novas imagens de satélite com resolução seis vezes superior prometem revolucionar a fiscalização ambiental no Brasil. Lançadas pelo Google e governo federal,as imagens de 2008 oferecem detalhes antes invisíveis,como rios e matas ciliares,impactando a aplicação do Código Florestal em milhões de propriedades. Isso poderá redefinir obrigações legais e fomentar o mercado de Cotas de Reserva Ambiental.

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O Google e o governo federal lançaram uma base inédita de imagens de satélite de alta resolução do Brasil referente a 2008,e o que ela revela pode mudar o que se sabe sobre o cumprimento do Código Florestal em milhões de propriedades rurais do país. Batizado de Brazil Forest Imagery Dataset 2008,o material oferece resolução de 5 metros por pixel,contra os 30 metros do satélite Landsat que o poder público usava até agora,uma diferença de até seis vezes.

Isso significa que na prática,um pixel de 30 metros representa uma área de 900 metros quadrados no solo. Nesse espaço,um rio,a mata ciliar que o margeia e até pequenos fragmentos de floresta simplesmente desaparecem. Se não aparecem na imagem,não existem no mapa. E se não existem no mapa,não geram obrigações legais. É nessa brecha entre o que existia e o que as imagens conseguiam mostrar que viveu,por mais de uma década,boa parte do passivo ambiental não resolvido do Código Florestal brasileiro.

Para entender o peso da iniciativa,é preciso voltar à lógica do Código Florestal. Aprovada em 2012,a lei exige que proprietários rurais protejam ou recuperem uma fração de vegetação nativa em suas terras,mas as obrigações variam conforme o que havia no solo em julho de 2008.

Quem desmatou antes dessa data opera sob regras mais flexíveis,podendo compensar déficits em outras propriedades,ao contrário de quem desmatou depois do marco,que é obrigado a recuperar. O problema é que,durante anos,o instrumento usado para distinguir um caso do outro,o Cadastro Ambiental Rural (CAR),foi alimentado por imagens que proporcionam uma visualização limitada do solo.

Extensão total do Mapa Base Visual (esquerda) e o Mapa Base Analítico (direita) — Foto: Google Earth Engine

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Até agora,as melhores imagens disponíveis para 2008 eram uma combinação do Landsat,de 30 metros,com imagens do RapidEye de 10 metros,adquiridas pelo Ministério do Meio Ambiente em 2012 por R$ 30 milhões. Ainda assim,a cobertura era incompleta e a resolução,insuficiente para propriedades menores.

— Se você imagina um rio de 10 metros de largura e o pixel que você está usando representa 30 metros,é muito difícil de ver esse rio — explicou Henrique Dolabella,diretor do Cadastro Ambiental Rural. — A gente passou a ver coisas que não via antes,remanescente de vegetação,a APP em volta dos rios,se aquilo ali era vegetação nativa ou já estava sendo usado para outra coisa.

APP significa Área de Preservação Permanente,ou seja,as faixas de proteção obrigatória ao longo de rios,encostas e topos de morro. São exatamente essas faixas que mais sofriam com a baixa resolução: pequenas demais para aparecer num pixel de 30 metros,grandes o suficiente para mudar o passivo ambiental de uma propriedade.

— Vamos usar essas imagens na análise automatizada dos cadastros. Quanto melhor o dado que entra,melhor a análise que sai. Temos casos de disputas em que o proprietário fala "não,já tinha desmatado",mas o técnico afirma "não consigo ver isso". Com imagens mais claras,vamos diminuir essas disputas — afirma Giovanna Aguiar,coordenadora-geral de gestão do CAR.

Terabytes de história

O projeto nasceu em 2023,quando representantes do Google foram a Brasília para uma reunião com o Ministério do Meio Ambiente,que manifestou interesse em um parceria que pudesse fornecer imagens melhores de 2008. Ivan Patriota,coordenador de parcerias em Geo do Google no Brasil,descreveu o que veio depois como um desafio de escala raramente enfrentado pela empresa.

— O Brasil é um país continental. São terabytes de imagem que a gente teve que processar. O primeiro grande desafio foi o processamento em alta escala,numa resolução maior do que a que já existia — explicou Patriota.

Para construir o mosaico,o Google mobilizou mais de 6 mil cenas dos satélites SPOT da agência espacial francesa,cobrindo uma janela entre 2007 e 2009 para garantir imagens sem nuvens. Algoritmos de inteligência artificial filtraram pixels de baixa qualidade,removeram artefatos atmosféricos e alinharam geograficamente cada fragmento.

A cobertura do Mapa Base Visua no Maranhão,Mato Grosso,Pará,Rondônia e Tocantins — Foto: Google Earth Engine

Os resultados são um mosaico visual,otimizado para interpretação humana,e um analítico,preparado para sistemas de machine learning. A validade técnica foi chancelada pelo Imazon e pelo MapBiomas.

— Nosso trabalho foi oferecer a melhor imagem possível. O processo de detecção de desmatamento cabe ao MGI. Trouxemos essas instituições para avaliar e chancelar o projeto — sempre seguindo um protocolo de acordo entre todos os envolvidos na questão técnica — afirmou Patriota.

A pergunta que mais interessa ao campo é se quem já tem cadastro validado pode ter a situação revista? A resposta do governo,por ora,é não. A revisão se aplica a cadastros ainda pendentes — que são a maioria dos 8,3 milhões registrados — ou a casos em que o produtor solicite retificação voluntária. O SICAR já saltou de 1.000 para 25.000 análises por dia,e as novas imagens devem qualificar ainda mais esse processo ao longo de 2026.

Dinheiro,florestas e soberania

Além da fiscalização,há um mercado nascente em jogo. As Cotas de Reserva Ambiental (CRAs) são títulos previstos no Código Florestal desde 2012,que permitem a proprietários com excedente de vegetação nativa vender esse ativo para quem precisa compensar déficits. Em 2021,a Lei de Pagamento por Serviços Ambientais ampliou o mecanismo,tornando a CRA também um instrumento de remuneração pela conservação florestal.

Com a plataforma de negociação agora operacionalizada pelo Serviço Florestal,o mercado começa a ganhar escala,já que depende diretamente da precisão das imagens de 2008 para funcionar com integridade.

— Quanto mais preciso eu for na caracterização das áreas consolidadas,não só melhoro a eficácia da lei,como torno os mecanismos de compensação mais eficazes. É como um título lastreado em barras de ouro: você precisa ter a certeza de que aquele ouro está no cofre,conservado e vai continuar lá durante toda a vigência do título — afirmou Márcio Menezes da Silva Alves,diretor-geral substituto do Serviço Florestal Brasileiro.

A imagem à esquerda mostra um exemplo de avaliação CAR para um imóvel,feita usando imagens disponíveis anteriormente. A imagem à direita mostra um exemplo de avaliação CAR mais precisa,resultante do novo conjunto de dados de imagens detalhadas — Foto: Imagem cedida pela Visiona/Google

Sobre soberania de dados,o MGI afirmou que o acordo inclui cópia de segurança das imagens sob custódia do Estado. — O Estado brasileiro vai ter essas imagens para sempre,independente do que o Google vier a fazer com a plataforma. Não geramos uma relação de dependência — garantiu Dolabella.

Do lado do Google,a iniciativa se encaixa numa estratégia mais ampla de oferecer tecnologia gratuitamente a governos,sem transferência de recursos financeiros,num modelo que inclui projetos como o Greenlight,de otimização de semáforos para reduzir emissões no Rio de Janeiro,e o Environmental Insights Explorer,que fornece dados de CO2 para 150 cidades brasileiras.

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