O ex-comandante-geral da Polícia Militar de SP,Coronel José Augusto Coutinho — Foto: Divulgação

O ex-comandante-geral da Polícia Militar de SP,Coronel José Augusto Coutinho — Foto: Divulgação
GERADO EM: 20/04/2026 - 22:18
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Um depoimento sigiloso do promotor de Justiça Lincoln Gakiya à Corregedoria da Polícia Militar (PM) detalha o funcionamento do núcleo de vazamento da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota),a tropa de elite da instituição,em favor do Primeiro Comando da Capital (PCC),e contribuiu para a queda do ex-comandante-geral da PM de São Paulo coronel José Augusto Coutinho,que deixou o cargo na semana passada. Segundo o promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco),os vazamentos que beneficiaram a facção foram informados a Coutinho,então chefe da Rota.
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Principal nome do combate ao PCC no país,Gakiya relatou ter comunicado pessoalmente ao ex-chefe da tropa de elite da PM sobre um vazamento na Rota que teria contribuído para a fuga do,na época,número 1 da facção paulista na rua,Marcos Roberto de Almeida,conhecido como Tuta. Na mesma ocasião,o promotor contou a Coutinho sobre uma gravação ilegal,feita por PMs da Rota,de uma reunião dos agentes com o promotor,vendida posteriormente a Tuta por R$ 5 milhões. Um documento com o teor do depoimento,de março deste ano,foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo e também foi obtido pelo GLOBO.
Segundo a Procuradoria de Justiça Militar do Ministério Público de São Paulo,Coutinho pode responder por prevaricação e condescendência criminosa,tipificações do Código Penal Militar,por não ter tomado providências e ter se omitido diante de irregularidades praticadas por subordinados.
Na reunião com Coutinho,ocorrida em 30 de novembro de 2021 na sede do Ministério Público de São Paulo,Gakiya,inclusive,reproduziu áudios entre Tuta e uma testemunha protegida implicando a tropa. O ex-comandante-geral da PM,segundo o relato de Gakiya,não apenas deixou de tomar medidas,mas negou que a informação tivesse partido de PMs da Rota. Ele acusou um integrante da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) de ser o responsável pelo vazamento.
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A troca no comando da PM foi oficializada pelo governador de São Paulo,Tarcísio de Freitas (Republicanos),na última quinta-feira. Tarcísio negou,porém,que a saída de Coutinho tenha qualquer relação com a investigação. Segundo o governador,o ex-comandante geral pediu para ir para a reserva. Em seu lugar,assumiu,pela primeira vez na história da PM,uma mulher,a coronel Glauce Anselmo Cavalli.
— Não tem nada a ver. O coronel Coutinho tem uma reputação ilibada,é uma pessoa que sempre prestou excelente serviço na Polícia Militar. Essas trocas são comuns. Eu acho que o coronel cumpriu muito bem o papel dele,a missão — disse Tarcísio.
No dia seguinte,outro depoimento prestado à Corregedoria por um sargento preso sob acusação de ligação com o PCC veio a público e também colocou Coutinho no centro das apurações sobre o elo entre policiais e a facção criminosa. Segundo o relato,prestado em janeiro,Coutinho teria tentado convencer o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário a permanecer na Rota,mesmo após pressão para que fosse transferido. A conversa teria ocorrido em setembro de 2020,ainda quando Coutinho comandava a unidade.
No depoimento à Corregedoria,Romano afirmou que Coutinho minimizou o fato de ele fazer “bico” fora da corporação — prática proibida pela PM — mesmo sabendo que havia criminosos envolvidos. O sargento foi preso em 4 de fevereiro por fazer segurança privada para diretores da Transwolff,empresa afastada do serviço de ônibus na capital após a Operação Fim da Linha,deflagrada pelo Ministério Público em abril de 2024.
Em nota,o escritório Fernando José da Costa Advogados,que faz a defesa de Coutinho,afirma que o coronel é idôneo e que,até o momento,não teve acesso aos autos da investigação. “Não obstante,reitera a absoluta idoneidade de sua conduta,destacando que se trata de oficial da Polícia Militar com 34 anos de carreira,sem jamais ter sido alvo de qualquer processo ou investigação por irregularidades ao longo de sua trajetória profissional”,diz o trecho.
Já a Secretaria de Comunicação do governo de São Paulo diz que não comenta investigações em curso conduzidas pela Corregedoria “tendo em vista o sigilo legal que recai sobre os procedimentos de Polícia Judiciária Militar,conforme previsto na legislação penal-militar”.
“A Instituição ressalta que eventuais apurações são conduzidas com rigor técnico,observância ao devido processo legal e respeito às garantias individuais e reitera seu compromisso com a legalidade,a transparência e a apuração de eventuais irregularidades,adotando as medidas cabíveis sempre que houver indícios de desvios de conduta”,também afirmou.
Segundo o depoimento de Gakiya,Tuta pagou R$ 5 milhões para obter a gravação ilegal de uma reunião ultra-secreta ocorrida em 6 de outubro de 2021,dentro da própria sede da Rota. O encontro contou com a presença do promotor e de uma testemunha protegida que detalhou o funcionamento interno da facção. O conteúdo foi desviado por policiais militares e vendido ao criminoso.
Gakiya detalha que a mesma testemunha protegida ouvida pela investigação informou às forças de segurança sobre o plano do PCC para matar o promotor e o então senador Sergio Moro. Em fevereiro de 2023,a testemunha identificou o criminoso Janeferson Aparecido Mariano,o Nefo,como o responsável por organizar esses atentados. Essa denúncia deu origem a uma investigação conjunta com a Polícia Federal,que culminou na deflagração da Operação Sequaz,em março de 2023,que resultou na prisão de Nefo. e outros envolvidos.
Segundo as investigações,o envolvimento de policiais da Rota com a cúpula do PCC funcionava como um estruturado núcleo de vazamentos de inteligência. O esquema,que contava com oito policiais militares,incluía desde a venda de informações privilegiadas,com o repasse de detalhes de operações que seriam realizadas e dados de viaturas descaracterizadas,até a proteção de criminosos,garantindo a impunidade de aliados.
O monitoramento já havia permitido que Tuta escapasse às pressas de um apartamento vigiado durante a Operação Sharks,em 2020,após ser alertado por um contato dentro do batalhão sobre sua prisão iminente. Na ocasião,os agentes da Rota eram responsáveis pelo cumprimento dos mandados de busca e apreensão e também de prisão.
Segundo o promotor,em áudios obtidos pela investigação e apresentados a Coutinho,o próprio Tuta afirma que o policial militar da Rota responsável pela venda da gravação era o mesmo agente que o havia alertado sobre sua prisão iminente na Operação Sharks. Nesses registros,Tuta detalha o pagamento parcelado aos policiais e menciona a existência de um grupo de WhatsApp entre militares e o informante,do qual constavam até planilhas financeiras da facção.
Os PMs da Rota faziam a segurança de integrantes e advogados da facção,segundo Antônio Vinicius Gritzbach,delator do PCC que acabou assassinado. O colaborador informou que eles eram sócios de empresas de ônibus que foram investigadas em desdobramentos da Operação Sharks e,posteriormente,na Operação Fim de Linha. O papel dos PMs era evitar que esses líderes fossem presos.
