
Comportamento raro de javalis acontece devido à superpopulação de coelhos — Foto: Divulgação | JOURNAL OF ECOTOURISM | Ilustração por Eri Kondo
Uma prática comum entre turistas que visitam a famosa Ilha dos Coelhos,no Japão,pode estar provocando mudanças profundas no ecossistema local. Um estudo publicado na revista científica Journal of Ecotourism na última quarta-feira concluiu que a alimentação frequente dos coelhos por visitantes mantém a população desses animais artificialmente elevada,altera a vegetação da ilha e favorece comportamentos incomuns entre diferentes espécies,como javalis tentando caçar coelhos vivos.
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A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Fukushima,do Instituto Nacional de Tecnologia (Kosen) Kure College e do Kobe College. O trabalho surgiu a partir de uma colaboração com os criadores do livro infantil Usagi no Shima ("Ilha dos Coelhos").
Localizada na província de Hiroshima,a ilha de Okunoshima é um dos destinos turísticos mais conhecidos do Japão por abrigar centenas de coelhos que circulam livremente e interagem com visitantes. Segundo os pesquisadores,os animais não são lebres japonesas nativas,mas coelhos domésticos europeus introduzidos na ilha há décadas.
De acordo com o estudo,a população desses coelhos está fortemente relacionada à alimentação fornecida pelos turistas. Observações anteriores mostraram que o número de animais aumentou significativamente antes da pandemia de Covid-19 e diminuiu quando o fluxo de visitantes caiu temporariamente,reforçando a dependência da espécie da oferta humana de alimento.
Os impactos já são visíveis na vegetação. O intenso pastoreio dos coelhos eliminou grande parte das plantas rasteiras e dos galhos mais baixos das árvores,formando uma marca conhecida pelos pesquisadores como "linha dos coelhos",que evidencia a pressão exercida sobre o ambiente.


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Azu,a gata-de-pallas,espécie considerada o felino mais velho do mundo,é vista em seu recinto no Kobe Animal Kingdom,em Kobe — Foto: AFP


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Azu,em Kobe — Foto: AFP
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Filhotes de gato-de-pallas,espécie considerada o felino mais antigo do mundo,são vistos em seu recinto no Kobe Animal Kingdom — Foto: AFP

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Filhotes de gato-de-pallas,são vistos em seu recinto no Kobe Animal Kingdom — Foto: AFP
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Cinco filhotes de gato-de-Pallas,espécie nativa da Ásia Central conhecida pela expressão naturalmente sisuda,nasceram em maio no Kobe Animal Kingdom e agora podem ser vistos pelos visitantes
Além das mudanças na paisagem,os cientistas observaram alterações nas relações entre espécies. Javalis foram vistos consumindo restos de comida deixados por turistas,alimentando-se de carcaças de coelhos e,em alguns casos,tentando atacar animais vivos.
— Quando ouvimos pela primeira vez que um javali havia predado um coelho vivo,ficamos surpresos. Sabe-se que javalis consomem carcaças,mas eles normalmente não são considerados animais que caçam presas vivas ativamente — afirmou Shingo Kaneko,professor da Universidade de Fukushima e principal autor do estudo.
Segundo ele,a proximidade entre humanos,coelhos e javalis chamou a atenção durante o trabalho de campo.
— Durante nossa pesquisa,ficamos impressionados com o quão próximas eram as interações entre javalis,coelhos e pessoas na ilha. Nesse ambiente isolado,pareciam ocorrer situações incomuns que normalmente não observamos em outros lugares — disse.
Os autores destacam que a caça de coelhos por javalis não é o principal problema identificado,mas um dos sinais das alterações ecológicas provocadas pela alimentação suplementar ao longo dos anos.
Os pesquisadores acreditam que a comida deixada pelos turistas atrai javalis para áreas com grande concentração de coelhos. Ao mesmo tempo,a elevada densidade desses animais aumenta a disponibilidade de carcaças e a frequência dos encontros entre as duas espécies,favorecendo comportamentos raros em condições naturais.
O estudo também identificou que outras espécies oportunistas,como corvos e milanos-negros,passaram a explorar restos de alimentos e animais mortos,indicando que os efeitos da prática se espalham por toda a cadeia ecológica da ilha.
Apesar dos resultados,os autores ressaltam que o turismo de observação da vida selvagem não é prejudicial por si só. A recomendação é que a alimentação dos animais seja regulamentada e monitorada para evitar impactos indesejados sobre o ecossistema.
Entre as medidas sugeridas estão o controle da venda e do fornecimento de alimentos aos coelhos,o monitoramento da população e da recuperação da vegetação,além da avaliação dos efeitos sobre outras espécies. Os pesquisadores também defendem a cooperação entre comunidades locais,operadores turísticos,cientistas e autoridades para desenvolver estratégias que conciliem turismo,conservação ambiental e bem-estar animal.
