Rua na Maré será protagonista de projeto urbanístico feito com apoio de arquiteto colombiano referência em Medellín

Notícias do hotel Aug 4, 2026 IDOPRESS

Edgar Mazzo (de camisa florida,à esquerda) andou pela Maré acompanhado por lideranças da Redes da Maré e do Instituto Manu — Foto: Divulgação / Patrick Marinho

O primeiro passo é um detalhe. Escolher uma rua e,num pedacinho dela,construir um jardim comunitário. Não podem faltar mesas,cadeiras,nem uma cozinha pública. É para todos os moradores conviverem ali,apropriando-se do lugar. Não será permitida a entrada de armas ou drogas. Carros e motos também não podem circular. O espaço é sagrado. Edgar Mazo faz uma pausa. Os olhos brilhantes e os braços agitados davam dimensão à empolgação do sonho. Arquiteto colombiano referência por projetos em Medellín,ele fala respeitosamente sobre a Nova Holanda,onde esteve por dois dias em julho,a convite de representantes da Redes da Maré,do Instituto Manu e do Insper. Juntas,essas três instiuições planejam um projeto piloto: transformar,por meio do urbanismo social,a Rua Sargento Silva Nunes.

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A iniciativa surgiu mais ou menos em abril,quando as organizações — parceiras num programa de bolsas de estudo a alunos de áreas vulneráveis — resolveram dar vida a trabalhos de conclusão do curso de Urbanismo Social do Insper,feitos por jovens da Maré. Em comum,eles davam protagonismo às ruas do complexo,composto por 16 comunidades,apontando a necessidade de torná-las mais dignas e acessíveis. Ou,nas palavras de Edgar,mais espontâneas à “convivência”.

Nos dias em que caminhou pela Nova Holanda,o arquiteto conheceu prédios da Redes,almoçou no polo gastronômico do Parque União,comunidade vizinha,e ouviu urgências de moradores. Muito da cultura mareense lembra Medellín,recorda ele,principalmente a vida das ruas,com os comércios e serviços,mas também as mazelas: falta de saneamento,forte ocupação,insegurança,construções irregulares,fios embaralhados em postes — cenas que pertencem ao passado da cidade colombiana. Mas a resilência,tão cara aos moradores de ambos lugares,é o impulso para a mudança a ser arquitetada por lá,garante.

— Essas realidades são consequências da iniquidade que existe nas comunidades do Rio,do Brasil,de Medellín,do mundo. Contudo,há um forte engajamento das pessoas,sobretudo dos moradores,em transformar esses elugares — afirma.

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A escolha da Rua Sargento Silva Nunes não foi por acaso. Ela é a que concentra edifícios da Redes,como a sede e a biblioteca. Nela,há restaurantes,barbearias,salões de beleza,lojas de roupa e de utensílios para casa. Nos fundos,sentido Baía de Guanabara,encontram-se quadras de futebol,uma escola pública e o 22º BPM. Edgar viu ali possibilidade para o sonho.

— Me surpreendeu muito uma cozinheira que compartilhou memórias sobre o pai. Ela falou da importância,para eles,de mesas na rua. Eu não esperava isso,porque todos estávamos focados na necessidade de árvores,e quando ela falou isso,eu imediatamente comecei a ver essas mesas,alimentos sobre elas,pessoas convivendo ali. Foi uma imagem muito evocadora — conta.

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No primeiro dia na Nova Holanda,Edgar administrou um workshop junto ao também arquiteto — e colombiano — Juan Sebastian Bustamonte,coordenador do Núcleo Arquitetura e Cidade,do Insper. Amigos desde Medellín,os dois compartilham os mesmos princípios em relação ao urbanismo social e à transformação da Maré. Para Sebastian,o projeto ideal seria interligar,inicialmente,todas as ruas onde há prédios da Redes,aumentando a conexão dos programas oferecidos pela ONG aos equipamentos públicos existentes,como as escolas e quadras.

— Para mim,é muito importante a gente pensar: “Para quem são as ruas?”. Na Maré,elas são para circulação de veículos. Não existem espaços públicos de convivência. E eles são fundamentais ali,principalmente se a gente considerar que as casas são pequenas,apertadas. Então,existe uma necessidade da rua. Em Medellín hoje,as favelas têm os melhores projetos,os mais bonitos. E tem que ser assim mesmo. As favelas têm que ter os melhores equipamentos públicos,os melhores transportes públicos,programas de educação,de emprego,de empreendedoria,de esporte. É um tema urgente.

O otimismo dos arquitetos permanece mesmo ao comentarem sobre a presença do crime organizado no complexo. A renovação em Medellín,cidade já considerada a mais perigosa do mundo entre as décadas de 1980 e 1990,ensinou-os que o cuidado das ruas,juntamente à melhoria na condição de vida de seus moradores,afasta os grupos criminosos.

— Eu e Edgar pertencemos a uma sociedade muito resiliente e,por isso,nós acreditamos na mudança,ainda mais naquelas que parecem impossíveis. Acredito que nós temos todas a capacidade de fazer uma inovação em governança. É bom o governo estar presente nesse processo,mas se não estiver,a gente faz de outra forma. Hoje,o mundo inteiro está pensando em uma governança colaborativa,na qual o setor privado,universidades e coalizões territoriais (como a Redes da Maré) lideram processos de mudança.

O projeto na Maré,contudo,ainda não tem data de finalização: é algo para médio prazo e,como explica a Redes,está em fase inicial de escuta dos moradores (a mais importante,destacam). Depois dela,há na agenda conversas com representantes da prefeitura e de instituições parceiras que realizam serviços nas comunidades.

'Não podemos deixar que a mudança seja abstrata'

Edgar Mazo visitou o Complexo da Maré nos dias 20 e 21 de julho. Depois,seguiu para a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP),onde participou como convidado em mesas sobre urbanismo social. Formado em arquitetura pela Universidade Nacional da Colômbia e mestre em Processos Urbanos e Ambientais pela Universidade Eafit,ele é conhecido pelos projetos arquitetônicos que relacionam,de forma digna,paisagem e cultura. Ao GLOBO,ele deu uma entrevista exclusiva,na qual abordou expectativas em relação à intervenção urbana na Maré,estendendo-se,também,ao Rio de Janeiro.

O urbanismo social valoriza as riquezas locais na elaboração de projetos arquitetônicos. Quais riquezas foram identificadas na Maré?

— Vimos ruas com muitas possibilidades de transformação a partir de pequenas ações locais. Foi surpreendente,por exemplo,encontrar mesas e cadeiras nas ruas,pequenos jardins junto às entradas das casas. Isso nos mostrou como a atitude das pessoas transforma de maneira particular o lugar e como o somatório de muitas ações gera impacto. Há muitos sonhos escondidos ali,então,quando começamos a conversar e a ver,as possibilidades de mudança surgem.

É muito comum ouvirmos pessoas dizerem que o Rio de Janeiro não tem mais jeito,principalmente considerando o contexto da criminalidade. Como você consegue manter otimismo em relação as mudanças vendo,dinâmicas violentas coexistindo com outras mazelas sociais por aqui?

— Eu penso que é próprio da nossa natureza,de nosso trabalho e da nossa atitude no mundo imaginar o melhor,que pode haver mudança e ir criando possibilidades dignas para as pessoas. Então,me toca identificar ali (na Maré) nosso contexto de origem (de violência). Eu vi,sim,criminalidade,armas na favela,mas vi muito mais pessoas trabalhando,crianças,homens e mulheres que vivem ali e não são desse sistema. Penso que as pessoas que escolheram esse caminho (do crime) o fizeram acreditando que era o melhor. Se conseguirmos transformar os lugares,novas alternativas surgem para os moradores e as ações de mudança aparecem naturalmente como parte desse movimento.

Como você imagina a transformação de ruas na Maré? Por onde começaria?

— Eu escolheria uma rua pequena e faria um acordo com todos que vivem ali. Diria que ali não entram carros,não entram armas,não há consumo de drogas e construiria um jardim. Na metade dele,colocaria umas mesas,uma cozinha aberta. Não precisa ser um grande plano. Imagino também aulas acontecendo nesse espaço,pessoas parando para conversar,cuidando do jardim,da rua. E nada de mal aconteceria ali,seria como a origem de uma nova cidade. Um lugar sagrado.

E você identificou qual seria esse lugar? Alguma rua chamou sua atenção?

— Na verdade,não. Muitas ruas são interessantes. Eu me centraria em apenas uma,num pedacinho dela para ser específico. Espero que esteja perto ou tenha relação com um dos lugares construídos pela Redes da Maré,mas também gostei de outras. Por exemplo,a que tem um campo de futebol. É bonita,tem muitas possibilidades.

No workshop,você e Sebastian comentaram sobre a importância do apoio governamental para as mudanças em Medellín. Disseram que,por mais que não seja tudo perfeito,funciona. Como fazer,aqui no Rio,projetos como esse terem continuidade apesar das mudanças de governo?

— Eu acho que não tem que esperar o Estado. Ele é ausente de muitas maneiras nesses lugares. Então,acredito que falta realmente entendermos que o projeto é de (e para) moradores que estão vivendo todos os dias em condições inadequadas. O segredo é a auto-organização,o trabalho pelo lugar em que vivemos e entender que,unidas,as comunidades tem grandes poderes de transformação. Precisamos assumir essa responsabilidade,não deixar que a mudança seja abstrata. Temos que agir como sujeitos.

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