
Chuvas no RS: pessoas tentam atravessar ruas alagadas no bairro Navegantes,em Porto Alegre — Foto: Carlos Fabal / AFP
GERADO EM: 04/06/2026 - 16:40
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Dois anos após as enchentes que atingiram 478 municípios,o Rio Grande do Sul investe em iniciativas para evitar novos desastres provocados por fortes chuvas,com apostas em ações de reflorestamento e incremento da infraestrutura de monitoramento meteorológico. Desafiado pela necessidade de reparar os estragos provocados pelas tempestades de maio de 2024,o estado se mobiliza para deixar pronto o planejamento de resiliência a tempo da chegada do El Niño,que deve começar a afetar o país a partir do segundo semestre deste ano.
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De acordo com cientistas,o fenômeno aumenta o risco de outro episódio de graves chuvas no Sul do Brasil.
Entre as medidas para evitar novos desastres,a Defesa Civil do estado já conta com o radar meteorológico instalado em Porto Alegre ainda em 2024. O equipamento,capaz de detectar a aproximação de chuvas e avaliar sua intensidade e direção em tempo real,cobre um raio de cerca de 150km. Em janeiro,o governo adquiriu outros três radares,que serão instalados em diferentes regiões do estado a partir do fim deste ano.

Novo radar metereológico instalado em Porto Alegre após tragédia das chuvas em 2024 — Foto: Divulgação
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De acordo com a Defesa Civil,também foram contratadas 130 novas estações de monitoramento para fornecer informações de 25 bacias hidrográficas do território,além do uso de equipamentos de modelagem hidrodinâmica,que monitoram o comportamento dos rios em áreas que concentram 60 municípios sob maior risco de inundações.
Ainda segundo o órgão,todos os 497 municípios do estado passaram a contar com Planos de Contingência (Plancon),estratégicos para a definição de ações em resposta a eventos adversos. Em 2023,88% das cidades gaúchas não tinham o documento formulado.
Como parte da solução,o governo gaúcho está implementando também o programa Reflora,voltado para a recuperação da vegetação nativa do Rio Grande do Sul. A iniciativa prevê o plantio de cerca de seis mil mudas de 34 espécies típicas da Mata Atlântica no estado. Com investimentos de R$ 5,2 milhões,o projeto utiliza uma abordagem biotecnológica desenvolvida pela Universidade Federal de Viçosa (UFV),em Minas Gerais. O método emprega material genético tirado de “árvores matrizes”. Esse material é enxertado em plantas jovens,com o objetivo de tornar esses indivíduos resistentes a intempéries. Então,por meio de estímulos e manejo,as mudas amadurecem de forma precoce. Árvores que levariam 20 anos para atingir a sua fase adulta podem chegar a esse estágio em oito anos ou menos.
Até o momento,para o Reflora,foram 290 matrizes georreferenciadas de 29 espécies nativas mapeadas em 13 municípios no estado.

Implementado no ano passado pelo governo gaúcho,projeto Reflora busca replantar 6 mil mudas em áreas afetadas pelas chuvas — Foto: Divulgação
O projeto tenta responder a um diagnóstico feito por ambientalistas. Segundo especialistas,a devastação florestal no estado foi um catalisador para as enchentes,uma vez que a presença de árvores na superfície garante a infiltração de boa parte da água das chuvas no solo,reduzindo,assim,os impactos de uma tempestade. Após décadas de desmatamento,resta pouca vegetação nativa no Rio Grande do Sul. Por isso,o risco de uma chuva forte provocar enchentes se torna muito maior.
— O estado destruiu toda a sua infraestrutura natural para lidar com enchentes. As árvores e a vegetação são necessárias para,em situações de grande chuva,criar,primeiramente,uma resistência à velocidade com que as águas se espalham,porque elas permitem que uma parte se infiltre no solo e não escoe com a mesma rapidez naquele momento — explica Sérgio Leitão,diretor executivo do Instituto Escolhas.
De acordo com um estudo da ONG,porém,a amplitude do projeto Reflora está bem aquém da demanda no estado. A pesquisa identificou necessidade de replantio de 1,16 milhão de hectares. Segundo a instituição,o maior déficit de vegetação se concentra no bioma dos Pampas,que cobre dois terços do Rio Grande do Sul e precisa da restauração de 751,3 mil hectares,enquanto a Mata Atlântica precisa de 414 mil. Para alcançar esse resultado,a ONG estima serem necessários R$ 19,7 bilhões para o plantio de até um bilhão de mudas. Muito mais do prevê o Reflora.
— Estamos falando de seis mil mudas para um estado que precisa de um bilhão e que necessita reconstruir toda a sua infraestrutura de plantio. Muitas pessoas ficaram sem ter onde plantar. Em diversas propriedades,não foi só a lavoura que se perdeu; o solo foi arrancado. Há casos de produtores com dezenas de hectares devastados. São áreas transformadas em pedra,sem condições de cultivo — explica Leitão.
Em paralelo,o estado também tem o desafio de atualizar seus mecanismos de mitigação a tempo de novas chuvas torrenciais que podem atingir o território gaúcho em função da chegada do novo El Niño. Em uma nota técnica,o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou o Sul do país como a região mais vulnerável ao excesso de precipitações.
— Os efeitos do El Niño costumam ser mais fortes e consistentes no Sul devido à forma como o fenômeno altera a circulação atmosférica. Em função do fenômeno,as frentes frias e áreas de baixa pressão tendem a ficar mais ativas e a permanecer estacionárias durante mais tempo,produzindo mais precipitação — explica Marcelo Seluchi,coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden.
