
Lucas Moraes volta ao Rally dos Sertões como campeão mundial: ‘Sempre tive vontade de correr em casa como campeão do mundo’ — Foto: Reprodução / Instagram
De volta às origens,Lucas Moraes disputa o Sertões carregando uma conquista que mudou o tamanho de seu nome no automobilismo internacional. Primeiro brasileiro campeão do Mundial de Rally Raid (W2RC) em 2025,principal campeonato do rali cross-country internacional,o piloto retorna à prova que marcou sua trajetória com um sentimento diferente: pela primeira vez,corre diante do público de casa como campeão do mundo.
O título veio de forma dramática. Na etapa decisiva do Mundial em Marrocos,Moraes chegou ocupando a terceira posição na classificação e terminou com a taça. Uma virada que,para ele,teve um ingrediente tipicamente brasileiro.
— Acho que o primeiro sentimento foi de orgulho,uma honra poder representar o Brasil nesse nível de competição,competindo contra ídolos do esporte mundial,como Carlos Sainz,Nasser (Al-Attiyah) e Sébastien Loeb. Eu via eles sempre na televisão quando corria só o Sertões. Foi realmente uma sensação única. Acho que foi do jeito que o brasileiro gosta,nos últimos quilômetros da última etapa,de virada. Cheguei na etapa final em terceiro do campeonato e saímos como campeões — contou Lucas ao GLOBO.
A conquista também colocou o brasileiro em uma posição que poucos anos atrás parecia distante. O piloto que assistia aos grandes nomes da modalidade pela televisão passou a enfrentá-los — e vencê-los. A repercussão do título,conta,foi diferente de qualquer resultado anterior da carreira.
— Nunca recebi tanta mensagem na minha vida. E de vários outros atletas também. Acho que foi a primeira vez que isso aconteceu,pelo menos comigo. O brasileiro torce para quem ganha e acho que tem que ser assim mesmo. Ninguém vai torcer para quem fica em quinto — brincou.
Moraes espera que a conquista ajude a aumentar o interesse pelo Rally Raid no Brasil e,principalmente,facilite o caminho para uma nova geração. Na Europa,lembra,a modalidade possui uma tradição construída ao longo de décadas,impulsionada por competições como o Dakar e o Mundial de Rali.
— Espero que a gente possa contribuir e abrir mais portas tanto para gente participar quanto para torcer.
A participação no Sertões tem também um componente afetivo. Moraes tem uma relação familiar histórica com a competição e conquistou seu primeiro título nos carros em 2019. Desde que se tornou campeão mundial,conta que alimentava a vontade de voltar ao Brasil carregando a taça.
— Sempre tive uma vontade muito grande de correr em casa como campeão do mundo,de rever os amigos,de ver tanta gente que a gente vai encontrar pelo caminho. Correr no Brasil e nessa prova que eu amo,até pela relação toda que a minha família tem com a prova,é um momento muito especial. Fico feliz por conseguir encaixar no calendário do Mundial e correr aqui.
Foi justamente em 2019,quando conquistou seu primeiro Sertões,que a família encerrava um ciclo ligado à organização da competição. Para Lucas,a coincidência tornou aquela vitória ainda mais simbólica.
— Foi muito maluco porque foi quase o ciclo todo fechado quando meu pai vendeu o evento para outra companhia. Foi no ano em que a gente ganhou. Então,foi um momento muito especial para nós. Poder participar é sempre um privilégio muito grande.
Apesar da experiência acumulada no cenário internacional,Moraes não considera o Sertões uma preparação menor. A duração e o desgaste colocam a competição brasileira entre as mais exigentes de seu calendário.
— O Sertões é uma prova muito longa também. Depois do Dakar,é basicamente o segundo maior. Requer uma preparação muito importante da parte física porque você fica horas dentro do carro,num ritmo que hoje esses carros permitem andar muito forte. O pescoço,tudo isso,sofre muito dentro do carro.
O desafio não se restringe à dupla. Com a caravana avançando diariamente para uma nova cidade,mecânicos,engenheiros e profissionais de apoio também enfrentam centenas de quilômetros antes de preparar novamente o carro.
— Toda vez que a gente termina uma especial,volta para o box e eles fazem a manutenção do carro inteiro. Às vezes entra noite adentro para deixar pronto para o dia seguinte. Especialmente este ano,todo dia vamos nos deslocar para outra cidade. É um rali para todo mundo mesmo. Todo mundo tem que se deslocar 400,500 quilômetros para a próxima parada,chegar a tempo,receber o carro e fazer a manutenção necessária.
Depois de cada etapa,Lucas ainda participa do briefing com engenheiros e mecânicos. É nesse momento que a equipe analisa o dia anterior e começa a estabelecer a estratégia para a especial seguinte.
O Sertões,porém,é apenas uma parte de uma temporada ainda movimentada. Assim que deixar a competição brasileira,Moraes seguirá para o Marrocos para testes com sua equipe do Mundial. Depois,terá pela frente as etapas no país e Abu Dhabi na reta final do campeonato.
Defender o título não será simples. O brasileiro admite que a situação em 2026 é mais complicada,mas ainda vê possibilidades matemáticas e estabelece um objetivo mínimo para o encerramento do ano.
— Este ano está um pouco mais difícil para defender o título,mas ainda temos chance matematicamente. O foco é total em fazer bem essas duas etapas para ver se conseguimos pelo menos ficar no top 3 do campeonato.
