
Perito da Polícia Civil trabalhando em ação no Humaitá — Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
GERADO EM: 24/06/2026 - 23:21
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A perspectiva de que o governo do estado amplie investimentos a partir da adesão do Rio ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) reacende o debate sobre uma das áreas mais estratégicas da administração: a segurança pública. O GLOBO ouviu policiais,peritos e especialistas para mapear quais são as prioridades do setor. Priorizar ações de inteligência,oferecer melhores condições de trabalho aos agentes e equipar as forças policiais foram alguns dos pontos levantados.
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O Propag estabelece que os estados participantes invistam,a título de contrapartida,um percentual do saldo devedor em áreas específicas da administração. No caso do Rio,o valor previsto para 2026 e 2027 é de R$ 3,1 bilhões,dos quais 60% devem ser destinados à educação profissional técnica de nível médio. Os 40% restantes,ou R$ 1,24 bilhão,serão usados em outras áreas do campo educacional,na infraestrutura e na segurança pública. A Secretaria estadual de Fazenda ainda trabalha na formatação do plano de investimentos do governo.
A perícia técnica é uma das áreas que apresentam o maior número de reivindicações. Os problemas apontados vão da escassez de carros a computadores defasados,passando pela estrutura física muitas vezes precária e descentralizada,pela falta de alguns equipamentos e pelo quadro de servidores reduzido. Das viaturas disponíveis na Secretaria de Polícia Civil,por exemplo,apenas 6,7% estão lotadas na Subsecretaria de Polícia Técnico-Científica.
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— A população reclama que a gente demora a atender,imagina se a viatura quebrar. Eu já atrasei vários atendimentos porque precisei trocar pneu. Toda semana um estraga,são velhos — diz Filipe Guimarães Teixeira,presidente da Associação dos Peritos do Estado do Rio de Janeiro (Aperj).
Um dos investimentos considerados mais estratégicos seria tirar do papel o projeto de construção de um complexo integrado para concentrar os principais órgãos da perícia do estado. A proposta prevê a reunião do Instituto Médico-Legal (IML),do Instituto de Identificação Félix Pacheco,do Instituto de Pesquisa e Perícia em Genética Forense (IPPGF) e do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE),permitindo maior integração entre as equipes,otimização de recursos e mais agilidade na produção de laudos.
O complexo daria uma sede definitiva,ao principal laboratório de DNA do estado,o IPPGF,que funciona há mais de dez anos em instalações improvisadas nos fundos da Academia de Polícia Civil (Acadepol).
— Seria uma coisa nova,um investimento alto,algo mais para o médio prazo. Essa integração faria as perícias acontecerem de forma mais rápida e reduziria custos de transporte de materiais e servidores — diz Teixeira.
Outro problema apontado é a falta de equipamentos para análises especializadas. Um deles é o microscópio eletrônico de varredura (MEV),utilizado para a análise detalhada de resíduos de disparo de arma de fogo que ficam nas mãos do atirador ou no corpo da vítima. Segundo um perito ouvido pelo GLOBO,que não quis se identificar,a Polícia Civil do Rio utilizava um equipamento emprestado pelo Inmetro que apresentou defeito há mais de um ano. A mesma fonte afirmou que já existe um processo para compra de um MEV novo por cerca de R$ 3 milhões,mas que o ideal seria ter pelo menos dois em funcionamento.
Um levantamento do Instituto Sou da Paz,divulgado no ano passado,apontou que no Rio de Janeiro apenas um em cada quatro assassinatos é esclarecido. O estado registrou índice de esclarecimento de 25%,considerado de baixo desempenho,segundo a pesquisa Onde Mora a Impunidade.
Peritos destacam ainda a necessidade de comprar um microcomparador balístico — usado para confrontar projéteis e estojos de munição encontrados em cenas de crime com materiais obtidos a partir de uma arma suspeita — e uma câmara de recuperação de projéteis,estrutura utilizada para realizar disparos controlados e coletar projéteis intactos. Hoje,os profissionais do ICCE usam uma estrutura improvisada: um cilindro cheio de algodão.
Eles ainda afirmam que é necessário informatizar e agilizar a análise dos locais de crime. Atualmente,as imagens são registradas pelos próprios celulares dos peritos e posteriormente inseridas em documentos produzidos manualmente em computadores que,muitas vezes,têm poder de processamento inferior ao necessário para o tratamento adequado das fotos.
Agentes da Polícia Civil ouvidos pelo GLOBO dão uma ideia de por onde começar: segundo eles,há necessidade urgente de incrementar as ferramentas utilizadas pela área de inteligência da corporação. Além da capacitação para a formação de programadores e analistas,os policiais destacam a falta de sistemas já disponíveis no mercado que poderiam tornar as operações mais precisas e eficientes.
— Já existe hoje no mercado uma ferramenta de inteligência que permite localizar alvos a partir de dados de celulares. Atualmente,tentamos fazer isso com outras tecnologias,mas de forma limitada. Com esse sistema,teríamos muito mais precisão — contou um agente que pediu para não ser identificado. Segundo ele,o equipamento custa cerca de R$ 6 milhões.
Um policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope),que pediu anonimato,afirma que a PM também precisa de investimentos em tecnologia para qualificar as operações. Para além da compra de blindados e armamentos,os agentes defendem a aquisição de ferramentas capazes de tornar as incursões em áreas dominadas pelo crime organizado mais seguras e eficientes.
Em um cenário em que traficantes utilizam drones para monitorar a movimentação das forças de segurança,a compra de um equipamento conhecido como Sentinel é tida como urgente.
— O Sentinel é um sistema de detecção de drones extremamente preciso. Com ele,conseguiríamos identificar,dentro de um determinado perímetro,tanto a localização do drone quanto a do operador do equipamento. Isso ajudaria a combater a estratégia dos criminosos de acompanhar nossas ações e reagir de forma violenta. Além disso,precisamos investir em bloqueadores de sinal,porque já é de conhecimento geral que os bandidos utilizam drones até para lançar granadas. Precisamos estar preparados para enfrentar esse tipo de ameaça durante as operações — afirmou.
Para o antropólogo e pesquisador Robson Rodrigues — ex-chefe do Estado-Maior da PM do Rio —,a prioridade na área da segurança deve ser a qualificação da gestão:
— O recurso é limitado e valioso. Se o estado começar a comprar equipamentos sem planejamento,corre o risco de repetir erros do passado. Antes de pensar em compras ou em novas operações,é preciso qualificar a gestão. O Estado do Rio é apontado por estudos como um dos menos eficientes no gasto com segurança. Considerando a complexidade da situação fluminense,isso torna ainda mais necessária uma aplicação eficiente dos recursos. O gestor precisa ser capaz de agir de forma cirúrgica e estratégica.
