
Abandono das universidades federais de Belas Artes e Arquitetura no Campus da UFRJ do Fundão — Foto: Custodio Coimbra
GERADO EM: 01/06/2026 - 22:12
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Pelo segundo ano consecutivo,universidades brasileiras que integram a lista de melhores do mundo no ranking do Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR) perderam posições no levantamento,que mede a qualidade do ensino superior. De acordo com dados divulgados na segunda-feira,45 das 52 instituições do país tiveram piora no desempenho (87% do total),enquanto somente cinco melhoraram e outras duas ficaram estáveis.
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O presidente do CWUR,Nadim Mahassen,citou a queda no desempenho em pesquisa e a crescente competição global das universidades brasileiras com instituições mais bem financiadas como fatores que explicam o resultado. Em 2025,46 das 53 universidades listadas já haviam caído no ranking.
— O declínio das universidades brasileiras reflete anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos — disse ao g1.
O CWUR utiliza quatro indicadores principais para estabelecer o ranking anual: sucesso acadêmico de ex-alunos (25% da pontuação),qualificação do corpo docente (10%),desempenho em pesquisa (40%) e empregabilidade dos ex-alunos (25%). São avaliadas mais de 21 mil instituições e entram no ranking as 2 mil melhores.
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Ao todo,44 universidades brasileiras tiveram queda especificamente no indicador de pesquisa. Esse aspecto leva em consideração o total de artigos publicados (10%); os veiculados em periódicos de primeira linha (10%); aqueles que estão em revistas altamente influentes (10%); e os que são mais citados por outros pesquisadores (10%).
A Universidade de São Paulo (USP) segue na liderança entre as instituições brasileiras e da América Latina e Caribe,mas perdeu uma posição e ficou agora na 119° colocação,mesmo movimento registrado no ano passado. Ao GLOBO,a instituição destacou que ainda figura entre as 120 melhores do mundo e ressaltou que ocupa a 82ª posição no indicador de citações de artigos científicos.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),segunda instituição brasileira mais bem posicionada,por sua vez,perdeu 15 posições e ficou em 346° lugar. A Universidade de Campinas (Unicamp),que fecha o pódio nacional,teve uma queda de 10 posições na comparação com 2025 e agora aparece na 379° colocação.
A Universidade Harvard lidera o ranking pelo 15º ano consecutivo,seguida pelo MIT e Stanford. Embora os EUA dominem o topo da lista,o destaque é a China,impulsionada por investimentos no ensino superior: 98% das universidades chinesas melhoraram suas posições.
Professora da FGV/Ebape,Tassia Cruz relaciona a queda geral das universidades brasileiras no ranking a baixos investimentos no setor na última década. Ela terminou recentemente um estudo sobre as despesas federais desde 2011,com correção da inflação,e concluiu que o orçamento de 2025 foi menor que o de 2015,em termos reais. Além disso,o ensino superior representava,em 2011,37% do total dos recursos públicos para educação. No ano passado,essa porcentagem foi de 26%.
— As despesas em educação no Brasil vêm crescendo,mas em ensino superior não. Nos últimos dois anos até teve um crescimento bem pequeno,mas ainda abaixo de 2015 — afirma Cruz. — Os recursos para educação básica aumentaram,o que é ótimo,mas,infelizmente,está fazendo com que a educação superior não tenha aumento real de orçamento por mais de 10 anos.
Um dos resultados dessa estagnação de investimentos é o impacto sobre a área de pesquisa científica,normalmente a mais afetada em momentos de contingência financeira.
— O baixo orçamento vai se refletir na capacidade da universidade em produzir pesquisa de ponta — alerta Cruz.
Já o professor da UFBA Robert Verhine,especialista na avaliação da educação superior e pós-graduação brasileira,destaca que o foco do ranking está na “internacionalização”. A organização do CWUR leva em consideração o número de alunos e ex-alunos que receberam grandes distinções internacionais,como Prêmio Nobel. Outro indicador,pontua Verhine,é a qualidade do corpo docente,que também considera a premiação internacional de membros. O Brasil é afetado,afirma,por não dominar o inglês. O pesquisador afirma que “só através do inglês que se consegue citações internacionais das publicações e,apenas dominando o idioma que você vai ganhar prêmios internacionais”.
— Se você está preocupado com problemas brasileiros,você vai publicar em português,não em inglês. Vai publicar em revistas locais,não revistas internacionais — afirma. — O Brasil está piorando no sentido comparativo. Outros países estão avançando,enquanto o Brasil está subindo com menos velocidade. Tem muitos países que investem fortemente nas suas melhores universidades para se destacar internacionalmente.
Verhine pondera que enquanto China e Alemanha,por exemplo,têm grandes campanhas para promover apenas as melhores universidades e receber o prestígio de ocuparem a posição de melhores do mundo,o Brasil não possui um programa para levar as melhores ao topo. O país atua mais para “garantir qualidade mínima nas suas instituições do que promover uma qualidade máxima em poucas”,diz.
Professor do Instituto de Física da Unicamp e especialista em Ensino Superior há 20 anos,Leandro Tessler diz que deve haver cautela ao analisar o ranking. O professor afirma que critérios como a influência social da universidade ou o papel da instituição na inclusão social deveriam ser considerados neste tipo de listagem. Ele avalia que a diferença de pontos no ranking pode ocorrer devido a flutuações,na empregabilidade,critério que considera “bastante discutível”. O indicador,segundo a CWUR,é a média ponderada de alunos com posições de destaque nas duas mil empresas mais valiosas do mundo.
— Se você pegar os dados só do Brasil,a posição no ranking de empregabilidade da USP é 390º. Da UFRJ é 489°. Da Unicamp é 1557°,quer dizer,a Unicamp tá 1.000 posições abaixo da UFRJ em empregabilidade. Não ficou claro qual esse recorte de empregabilidade exatamente — critica.
Já as instituições brasileiras que ganharam posições foram a Universidade de Brasília (UnB),de 833° para 831°; a Universidade Federal de Uberlândia (UFU),de 1294° para 1283°; a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS),de 1367° para 1347°; a Universidade Federal do Rio Grande (FURG),de 1644° para 1629°; e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL),de 1946° para 1931°.
Em nota,o Ministério da Educação (MEC) disse “acompanhar com atenção os diferentes levantamentos internacionais sobre educação superior”. A pasta afirmou que tem atuado no “fortalecimento da educação superior pública,com ações voltadas à ampliação do acesso e da permanência estudantil,ao incentivo à pesquisa e à pós-graduação e à modernização da infraestrutura acadêmica”. Também destacou que,desde 2023,o governo federal ampliou os investimentos nas universidades federais e criou 139 cursos em áreas estratégicas,e citou que anunciou R$ 400 milhões em novos investimentos.
Leia a íntegra da nota do MEC:
"O Ministério da Educação (MEC) acompanha com atenção os diferentes levantamentos internacionais sobre educação superior.
Os rankings acadêmicos constituem referências importantes para o debate sobre o ensino superior e a pesquisa,embora adotem metodologias e indicadores próprios que contemplam dimensões específicas da atividade universitária.
O MEC tem atuado no fortalecimento da educação superior pública,ao incentivo à pesquisa e à pós-graduação e à modernização da infraestrutura acadêmica. Desde 2023,o governo federal ampliou os investimentos nas universidades federais,criou 139 novos cursos em áreas estratégicas,como Engenharia e Tecnologia da Informação,e dobrou o número de bolsas permanência destinadas a estudantes indígenas e quilombolas.
Além disso,neste ano,o MEC anunciou R$ 400 milhões em novos investimentos,por meio de quatro editais estratégicos para apoiar inovação,infraestrutura,permanência estudantil e a relação das universidades com a sociedade. Só com o INOVALab,o MEC está investindo R$ 150 milhões para remodelação e modernização de laboratórios acadêmicos de universidades federais de todo o país.
A expectativa é que esse conjunto de iniciativas contribua para o fortalecimento contínuo das universidades brasileiras e se reflita positivamente nos diversos indicadores nacionais e internacionais."
(* Estagiário sob supervisão de Marlen Couto,com informações do g1)
