
Homem imerso em pensamentos — Foto: Magnific
GERADO EM: 28/05/2026 - 19:48
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Tem uma cena que quase todo mundo conhece. Você está dirigindo,esperando o café na padaria ou deitando para dormir quando aparece,sem aviso,o rosto daquela pessoa. O que ela disse. O que ela fez. O que você devia ter respondido. Em segundos,o ombro endurece,a mandíbula trava,o coração acelera. Faz cinco,dez,vinte anos da história,mas o corpo reage como se fosse hoje.
Essa é a parte que a gente sente. O que a ciência tem mostrado nas últimas décadas é a parte que a gente não vê acontecer.
No fim dos anos 1990,a psicóloga americana Charlotte Witvliet,do Hope College,conduziu um experimento que se tornou clássico. Pediu a voluntários que pensassem em alguém que os havia machucado de verdade. Em alguns momentos,deveriam alimentar o ressentimento,repassar a cena,nutrir a mágoa. Em outros,tentariam enxergar a humanidade do ofensor e imaginar um gesto interno de perdão. Enquanto isso,sensores mediam pressão,batimentos,suor e tensão facial. Nos minutos de rancor,o corpo entrava em alerta. Nos de empatia,o alarme cedia. Não era metáfora. Era fisiologia.
Outros estudos chegaram a conclusões parecidas. Pessoas com maior tendência a perdoar parecem apresentar menor pressão arterial em repouso e melhor recuperação depois de conflitos. Pesquisas sobre hostilidade,raiva crônica e desconfiança também encontraram associação com marcadores inflamatórios ligados ao risco cardiovascular. A mensagem não é que sentir raiva adoeça alguém. Raiva faz parte da vida. O problema é transformar a ferida em endereço fixo.
O mecanismo faz sentido. Ruminar uma ofensa ativa vias parecidas com as do estresse agudo. O sistema simpático liga,adrenalina e cortisol entram em cena,vasos se contraem,a pressão sobe,músculos se preparam para uma ameaça que já não está mais ali. O corpo foi desenhado para esse alarme durar pouco. A corrida da onça,não a lembrança da onça repetida por vinte anos.
Quando o alarme vira modo de vida,ele pode contribuir para inflamação de baixo grau,piora do sono,aumento da pressão arterial e maior vulnerabilidade emocional. Não é que toda mágoa vire doença. É que a mágoa crônica fala a língua biológica do estresse.
O rancor não fica confinado à memória. Ele atravessa o corpo. Aparece no sono ruim,na irritabilidade,na tensão muscular,na fome emocional,na dificuldade de descansar. O passado,quando não encontra saída,continua pedindo passagem pelo presente.
Em 2012,um estudo com mais de mil idosos americanos encontrou um achado provocador: pessoas que só perdoavam sob condições,apenas se o outro pedisse desculpa,reconhecesse o erro ou compensasse o dano,apresentavam maior risco de morte no período analisado. A saúde física ajudava a explicar essa associação. O corpo de quem mantém a ferida aberta por tempo demais pode pagar uma fatura silenciosa.
Aqui é preciso separar duas coisas. Perdoar não é dizer que tudo bem. Não é absolver o agressor,apagar a memória,voltar para uma relação insegura ou fingir que a dor não existiu. Perdão,no sentido usado por boa parte da pesquisa,é uma mudança interna de quem foi ferido. É deixar de entregar ao outro a chave da própria paz.
O psicólogo Fred Luskin,de Stanford,trata o perdão como uma habilidade treinável,não como um dom reservado a pessoas iluminadas. Essa talvez seja a parte mais importante. Perdoar não muda o passado. Muda o espaço que o passado ocupa no presente.
A boa notícia é que esse circuito pode ser treinado. Quando a pessoa consegue sair da repetição da ferida e recuperar algum senso de controle,o corpo responde. Não é amnésia. É redirecionamento de atenção. Não é fraqueza. É autopreservação. Talvez a frase certa seja: a gente perdoa não para inocentar o outro,mas para conseguir prosseguir.
