Jovens LGBTQIA+ têm o dobro de risco de usar drogas (e começam mais cedo), revela novo estudo da USP; entenda

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Notícias de transporte Apr 17, 2026 IDOPRESS

Jovens LGBTQIA+ têm o dobro de risco de usar drogas. — Foto: Unsplash

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GERADO EM: 16/04/2026 - 15:16

Estudo da USP: Jovens LGBTQIA+ têm maior risco de uso de drogas

Um estudo da USP revela que jovens LGBTQIA+ têm até 2,3 vezes mais risco de usar drogas,começando mais cedo,devido a fatores como discriminação e estresse de minorias. A pesquisa analisou 1.492 jovens em São Paulo e Porto Alegre,constatando maior uso de tabaco,maconha e cocaína entre LGBTQIA+. Especialistas destacam a necessidade de políticas inclusivas para apoiar essa população vulnerável.

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Jovens LGBTQIA+ têm um risco até 2,3 vezes maior de usar drogas e início mais precoce. É o que mostrou um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista científica International Review of Psychiatry. Para especialistas,o cenário,constatado por diferentes trabalhos conduzidos ao redor do mundo,revela o efeito de fatores como preconceito,rejeição e medo de violência na população LGBTQIA+ e seus impactos na saúde mental.

A nova pesquisa acompanhou dados de 1.492 jovens das cidades de São Paulo e Porto Alegre participantes da Brazilian High-Risk Cohort Study for Mental Health Conditions (BHRC),um estudo de longo prazo com avaliações a cada quatro anos que teve início ainda em 2010. Os responsáveis pelo trabalho analisaram dados coletados entre 2017 e 2018,quando os voluntários tinham idades entre 9 e 21 anos,com uma média de 18 anos.

Os jovens responderam questionários com perguntas sobre orientação sexual,identidade de gênero e uso de quatro substâncias psicoativas: álcool,tabaco,maconha e cocaína. Do total,247 se identificavam como LGBTQIA+. Ao analisar os dados,os pesquisadores observaram maiores taxas de consumo na comunidade para todas as drogas menos álcool.

Em relação ao tabaco,48% dos jovens LGBTQIA+ relataram uso,proporção que foi de 37% entre os heterossexuais cisgênero (aqueles que se identificam com o gênero atribuído no nascimento). Para a maconha,a diferença foi de 40% versus 27% e,para a cocaína,de 7,4% contra 3,6%. Para o álcool,os percentuais foram de 85,9% e 83,7%,sem diferenças estatisticamente relevantes.

Com isso,os pesquisadores estimaram que a população LGBTQIA+ teve 66% chances de uso de tabaco,94% vezes mais chances de uso de maconha e mais que o dobro (2,28 vezes mais) de chances de uso de cocaína no período analisado.

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— Não temos outro dado do tipo no Brasil,e não é algo fácil de ser coletado,porque é muito sensível. Mas já sabemos,pela literatura internacional,que essa é uma população de maior risco,de maior vulnerabilidade,porque é estigmatizada desde cedo. O LGBTQIA+ passa por esse momento de “se assumir” para a sociedade que costuma ser algo muito difícil,especialmente para um adolescente — diz Caio Petrus Figueiredo,psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq) e do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (Cism),autor do trabalho.

Esse risco maior foi ainda mais significativo entre mulheres LGBTQIA+ cisgênero. O início do consumo de drogas foi,em média,entre 10 e 15 anos no grupo,enquanto para as mulheres heterossexuais cisgênero foi entre os 13 e 17 anos. E as taxas de uso foram especificamente maiores entre as bissexuais,em que 56% usavam maconha e 9,2% cocaína.

— Isso corrobora dados internacionais que temos na área que mostram que mulheres bissexuais têm pior saúde mental comparado com seus pares LGBTQIA+. Utilizamos um termo “penalidade bissexual”,que no senso comum é a bifobia. Acreditamos que elas enfrentam uma dificuldade dupla de se sentir pertencentes da população no geral,mas também da própria comunidade LGBTQIA+,além de ter o fator do gênero envolvido — explica Tauana Mendonça,doutoranda em Psiquiatria e Ciências do Comportamento na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Esse impacto na população LGBTQIA+ tem sido abordado cada vez mais na literatura científica. Um estudo conduzido com 4.610 alunos de 14 a 19 anos de escolas de ensino médio da região de Grande Vitória,no Espírito Santo,em 2023,também encontrou uma frequência 54% maior de experimentação de drogas entre indivíduos LGBTQIA+ e 76% maior de uso cotidiano. O trabalho foi publicado no ano passado no periódico International Journal of Environmental Research and Public Health.

Já uma meta-análise que englobou resultados de 304 trabalhos de diferentes lugares,com quase seis milhões de jovens,encontrou uma chance maior de uso para diversas substâncias,que chegava a ser 4,63 vezes superior para heroína entre jovens LGBTQIA+. O estudo,feito por pesquisadores americanos,foi publicado na revista Addiction.

— É um sofrimento psíquico mais forte que leva ao uso maior de drogas. Serve para ficarmos alertas e,sobretudo,melhorarmos nossas ações. Pouco ou quase nada é feito hoje. Precisamos ter um olhar mais atento com essa população e oferecer um cuidado melhor por parte de setores como atenção primária,familiares,gestores,um senso comunitário de modo geral — afirma Arthur Guerra,psiquiatra,coordenador do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Sírio Libanês e professor de Psiquiatria da USP.

Preconceito e medo de violência e rejeição ajudam a explicar cenário

Embora os trabalhos não examinem as causas exatas do uso de drogas,os especialistas explicam que é comum observar uma frequência maior em populações marginalizadas,como a LGBTQIA+,a negra,a de imigrantes,entre outras. Um dos fatores que contribuem é algo chamado “estresse de minorias”,explica Tauana,que é também pesquisadora do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero (PROTIG) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA):

— Conseguimos perceber que essas populações têm estressores crônicos bem específicos que vêm pela discriminação,preconceito,medo de violência,dificuldade de ser aceito e de se enxergar na sociedade. Isso já é um consenso,mas estudos têm começado a analisar em detalhes as repercussões em cada grupo.

A pesquisadora conduziu,como parte de sua dissertação de mestrado,uma análise de indivíduos que participam da mesma coorte utilizada no novo estudo da USP,mas que buscou a relação entre ser LGBTQIA+ e questões de saúde mental.

Os resultados,publicados em forma de artigo no periódico Journal of Affective Disorders,mostraram uma chance 3,37 vezes maior de jovens da comunidade relatarem transtorno de ansiedade,chegando a afetar quase 1 em cada 3,além de uma chance 2,17 vezes maior de depressão e 4,2 vezes maior de transtorno de estresse pós-traumático.

Já um levantamento nacional conduzido no ano passado pelo Instituto Cactus,entidade filantrópica ligada à promoção do bem-estar psíquico,junto à AtlasIntel,empresa especializada em pesquisas e dados,identificou que,dentro de um índice de saúde mental que varia de 0 a 1000,o de indivíduos homossexuais e bissexuais foi,respectivamente,547 e 531,mais de 100 pontos abaixo daquele de heterossexuais,que ficou em 681.

— A chave para reverter isso é pensarmos em ambientes de acolhimento para populações LGBTQIA+. Em relação ao uso de drogas,principalmente por entendermos que é um uso precoce,muitos estudos já mostraram o bullying,inclusive o digital,como espaço de discriminação e cerceamento da sexualidade desde cedo,e a busca do álcool e outras substâncias como uma perspectiva de válvula de escape — diz Tauana.

Ela defende a importância de se pensar em integrar essas temáticas com programas escolares,intervenções digitais,iniciativas que cheguem aos jovens e possam evitar os fatores de risco que levam ao uso de drogas. Figueiredo,autor do novo estudo,também acredita que os resultados devem motivar um olhar diferente para a população LGBTQIA+ nos serviços de saúde:

— Esse é um fenômeno que precisamos buscar integrar com a nossa clínica para conseguirmos promover políticas públicas capazes de oferecer um atendimento direcionado a essa população. E não um atendimento que segrega,mas que seja inclusivo. É incluir o olhar para essa população nos serviços que temos de modo a não reforçar mais estigmas.

Um estudo conduzido nos Estados Unidos com jovens LGBTQIA+,publicado no periódico PLOS One,identificou alguns fatores associados a uma probabilidade menor de uso de substâncias,entre eles: sentimento de orgulho e pertencimento; apoio familiar e social; conexões emocionais com familiares e a comunidade e acesso à educação de qualidade,cuidados de saúde e atividades sociais.

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