\'Os imortais\',livro de Paulliny Tort — Foto: Unsplash/Europeana RESUMOSem tempo? Ferramenta de IA resume para você

'Os imortais',livro de Paulliny Tort — Foto: Unsplash/Europeana
GERADO EM: 07/04/2026 - 20:51
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Nova obra da brasileira Paulliny Tort,vencedora do prêmio APCA por seu livro de contos “Erva brava” (Fósforo,2021),“Os imortais” se passa no período pré-histórico. O romance segue a vertente de livros clássicos como “A guerra do fogo”,publicado em 1909 pelo francês J.-H. Rosny aîné,e “Antes de Adão” (1907),do americano Jack London,além de dialogar de forma mais direta com a série de livros “Os filhos da terra” (1980-2011),da americana Jean M. Auel,uma vez que ambas as histórias tratam do encontro entre Neandertais e Homo Sapiens.
Resenha: Em ‘Por que são tão lindos os cavalos?’,Julieta Correa conta as suas memórias da escuridão'Clube da Luta' faz 30 anos: 'culpam ele pelo Antifa,por Donald Trump,pelo movimento incel,por qualquer coisa',diz autor
Há diversas vertentes de estudos que tentam explicar como e por que os Neandertais teriam sumido,prevalecendo a existência de nossos ancestrais mais diretos,os Homo Sapiens. O livro de Tort parece buscar essa resposta,mostrando um clã de Neandertais convivendo em uma microssociedade organizada de acordo com leis,crenças e sabedorias próprias. Esse comportamento presente no livro conversa com dados reais de estudos recentes,mas diverge do senso comum,que via esses povos como “homens das cavernas”,com parca inteligência e atrasados socialmente.
Para mostrar a riqueza interior desses hominídeos que ainda não tinham desenvolvido bem a linguagem,Tort revela os pensamentos dos personagens e,através deles,suas falhas. Embora pouco se saiba dos diversos encontros possíveis entre Neandertais e Sapiens na história,a autora consegue costurar uma relação intrincada de intolerância e amor entre a garota Sapiens e as figuras de autoridade no clã Neandertal,como o Homem,a Mulher e a Velha.
Ao longo do livro,vamos acompanhando os comportamentos dessas pessoas e o quão desajustada a garota se sente em meio a eles,a começar pelo formato de seu corpo e rosto,muito diferentes do restante do grupo. No entanto,mesmo entre as pessoas do clã há ricos embates internos,como quando o Homem começa a se questionar sobre a efemeridade e o propósito da vida ou quando a Mulher reflete sobre o conflito entre Neandertais e Sapiens: “São assim,as guerras. Os 60 soldados alegam necessidades,mas procuram e encontram prazeres,prazeres terríveis,e a vingança e a desforra sempre são estímulos maiores que a vitória em si.”
Continuar Lendo
Vladimir Safatle: 'Passamos do fascismo restrito ao generalizado'
É interessante pensar que narrativas da Idade da Pedra podem ser vistas como romances históricos ou ainda ficções científicas,uma vez que mostram personagens reagindo e sendo afetados pelo tempo histórico em que vivem,e também por se basearem em dados científicos para a criação de um mundo impossível de ser retratado com fidelidade. Porém,a todo momento surgem descobertas na arqueologia,paleontologia e antropologia,que podem modificar os conhecimentos até então consolidados,fazendo essas obras correrem o risco de ficarem datadas.
O que faz,portanto,essas ficções resistirem ao tempo são outros vínculos estabelecidos com os leitores,principalmente o fato de trazerem uma visão da Pré-História impregnada pela contemporaneidade. Assim,o registro literário de como o olhar atual enxerga o passado às vezes é mais rico do que o dado histórico em si,como acontece em “Os imortais”,que une a perspectiva feminina com a vivência no Antropoceno por uma autora do Sul Global.
Se,por um lado,o ambiente inóspito da Pré-História,a falta de comunicação e a escassez estão longe do leitor contemporâneo,por outro também continuam sendo questões de graus diferentes em nosso presente. Quando Tort opta por retratar preconceitos com Sapiens,demarcações de gênero,medo do desconhecido e obsessão religiosa,torna-se impossível para o leitor não se reconhecer justamente nos hominídeos que não sobreviveram diante de mudanças climáticas e ambientes inóspitos.
Por outro lado,os Sapiens do livro parecem se adaptar às circunstâncias,lidam melhor com a natureza e são mais tolerantes com povos diferentes. Colocar uma garota Sapiens que se vê presa entre velhas e novas formas de viver é uma metáfora curiosa para o ser humano de hoje. Ao fim da leitura,nos perguntamos quem são os imortais. Se continuarmos tendo os comportamentos dos Neandertais de Tort,talvez a imortalidade da raça humana não esteja assegurada por muito tempo.
Bruna Meneguetti é escritora e jornalista
Autora: Paulliny Tort. Editora: Fósforo. Páginas: 249. Preço: R$ 84,90. Cotação: ótimo.
