Na foto,a ciclovia da Rua do Catete. Confusa,ela divite a pista com pedestres e veículos de carga e descarga. No trecho antes do Largo do Machado,ela fica entre a calçada e o estacionemento,e no tr

Na foto,a ciclovia da Rua do Catete. Confusa,ela divite a pista com pedestres e veículos de carga e descarga. No trecho antes do Largo do Machado,ela fica entre a calçada e o estacionemento,e no trecho após,ela fica junto as pistas — Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
GERADO EM: 07/04/2026 - 22:25
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O prefeito começou a semana lançando um monte de regras para as bicicletas elétricas. Parecem boas,ainda que cheguem atrasadas. Espero que funcionem. Só tem um detalhe:
Aqui é Rio de Janeiro.
Para não dizer que estou de implicância com o lugar onde moro,tem outros que também são assim. Lembram daquela frase do Mussolini? “Governar a Itália não é difícil,é inútil”. É lá e cá. O carioca segue a mesma toada. É muito gente boa,é generoso,é gentil e tals,só tem um pequeno probleminha,que já apontei várias vezes: é disléxico com regras. Não é que faça por mal,é que simplesmente não consegue entender o que está escrito na lei. Se as regras forem de trânsito,aí é que ferrou de vez. Carioca olha o sinal vermelho e fica pensando: “Que interessante,será uma instalação artística?”. Proibido estacionar? Que placa estranha,qual será o seu significado? E lá vai ele com a chave na mão,deixando o seu carro a atrapalhar o trânsito. Tudo na paz,de boas.
Qual é o único momento em que o carioca toma tenência? Quando vê um guarda. Diante do boné branco acontece um milagre: o desatento e desordeiro cidadão tem um ataque de civilidade,um surto de educação e passa a respeitar tudo o que estava ignorando segundos atrás. Uma metamorfose que só pode ser explicada pela sábia filosofia de botequim: aqui só funciona quando dói no bolso.
O problema é que — como escrevi aqui há um ano e nada mudou — os guardas sumiram da cidade. Não sei se é culpa do aquecimento global,do Xandão ou da má fase do Flamengo. Desapareceram. Moro no início do Jardim Botânico e trabalho no alto da Gávea. Entre os dois vou por ruas movimentadas,de mão dupla. Guardas? Nem pensar. Como o leitor pode comprovar na sua própria rua ou bairro,o trânsito na cidade virou uma mistura de “barata voa” com briga de foice,com pitadas de Mundo Animal.
Na falta de qualquer autoridade para botar ordem na bagunça,todo mundo acha que tem razão. O motorista de ônibus pensa que os carros,as motos e as bicicletas só estão nas ruas para atrapalhar o seu serviço e que,sendo ele o maior de todos,o resto lhe deve vassalagem. Os carros agora estão “espremidos” entre os motoqueiros de um lado e as bicicletas elétricas do outro. Assustados,pensam que os dois estão mancomunados para atrasá-los no caminho para o trabalho ou arrancar seus retrovisores. O motoqueiro é uma alma livre,faz o que dá na telha,não está nem aí para carro,bicicleta ou ônibus. Uma mistura de bandoleiro com suicida — nem falo do mototáxi,a maneira mais fácil e rápida de arrumar uma pensão do INSS. O cara da bicicleta elétrica,que muitas vezes é um adolescente avoado como o meu filho,tenta se enfiar onde dá,o que na maioria das vezes é um perigo tanto para ele quanto para os outros.
E ainda tem o mais indefeso dessa selva,o coitado do pedestre. Este sofre com as bicicletas comuns,as elétricas e até as motos,quando resolvem “cortar caminho” espanando todos que encontram pela frente nas calçadas.
Diante desse apocalipse viário,até agradeço ao prefeito pelas novas regras. No entanto,seria muito mais útil se ele levantasse da cadeira,colocasse um boné branco e fosse para as ruas,com apito e bloco de multas,botar em prática o que é só teoria.
Se liga,prefeito: aqui só funciona quando dói no bolso.
