
Falta de regra e fiscalização no uso das calçadas e de bicicletários por motos,bike elétricas e ciclomotores. Na foto,motos estacionadas em pilotis de prédio na Rua Henrique Valadares — Foto: Màrcia Foletto
Uma atividade simples como caminhar pela calçada se tornou um desafio em bairros do Rio. Se no trânsito o zigue-zague das motos entre os carros assusta motoristas e aumenta o risco de acidentes,nos passeios públicos são os pedestres que sofrem com os obstáculos sobre duas rodas. Diante de uma frota de 1,8 milhão no estado,a estrutura urbana se mostra insuficiente para acomodar tantos veículos,que muitas vezes estacionam em bicicletários e calçadas. Segundo o Anuário Estatístico do Detran-RJ,há 33 motos para cada cem carros. A proporção,que era de 25 para cada cem em 2021,revela o avanço acelerado desse meio de transporte.
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O resultado desse cenário é uma disputa cada vez mais frequente entre os que precisam parar o veículo e os que querem simplesmente passar. O entregador Adriano da Silva,de 49 anos,conhece de perto essa dificuldade. Para quem fica boa parte do dia sobre duas rodas,encontrar um lugar para estacionar pode ser mais complicado do que chegar ao destino. Ele conta que a falta de vagas demarcadas faz com que muitos assumam o risco de deixar os veículos em locais irregulares:
— Sabemos que é errado parar,mas essa acaba sendo a única opção porque não tem vaga. Tem muita moto para pouca vaga. A prefeitura,em vez de só multar,deveria começar a pensar em meios de resolver isso,essa escassez de vagas.
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José Ricardo,de 43 anos,tem uma barraca de lanches e costuma trabalhar próximo à Rua da Quitanda,no centro do Rio. Segundo ele,as motos transformam as calçadas da região em um estacionamento permanente.
— Antigamente,até tinha um guarda que via a irregularidade e multava. Agora não vem ninguém. Essa calçada aqui se tornou um ponto permanente para motos. Tinha até uma pessoa que cobrava pelas vagas,um flanelinha,mas depois acabou. O problema é sério — contou.
A frota de motocicletas no Estado do Rio cresceu 35,5% entre 2021 e 2025,de acordo com os dados do Detran. A evolução de 2024 para 2025 também chama a atenção: enquanto a quantidade de carros aumentou 1,4%,o número de motocicletas subiu 8,6% no mesmo período. Para Leonardo Veiga,do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP),esse crescimento em ritmo superior ao de carros está relacionado à insuficiência do transporte público,ao alto custo dos automóveis e à demanda por serviços de entrega e transporte por aplicativos.

Evolução da frota de motocicletas no Rio — Foto: Arte O GLOBO
— No aspecto econômico,a moto é muito mais barata que o carro: o seguro é mais em conta,a manutenção é mais simples e tem parcelas de financiamento mais baixas — observa o especialista,que vê o transporte público de baixa qualidade como um vetor para essa explosão. — Na maior parte do país,o transporte é precário,caro,inseguro e com cobertura insuficiente.
Na Rua São Clemente,em Botafogo,na Zona Sul do Rio,o problema do estacionamento irregular de motocicletas atinge outro equipamento destinado à mobilidade: o bicicletário. Na altura do número 10,motos estavam paradas nas vagas destinadas às bicicletas,reduzindo ainda mais o espaço disponível para quem utiliza esse tipo de transporte.
A situação também ocorre em Copacabana. Em frente a um mercado na Rua Barata Ribeiro,motos ocupam o bicicletário enquanto bicicletas elétricas e veículos autopropelidos (aquelas motinhas elétricas,que não são emplacadas) ficam espalhados pelas calçadas. Em alguns momentos,o pedestre precisa ziguezaguear para conseguir atravessar o trecho. A cena se repete em outros pontos de grande circulação da cidade,como nas imediações do Cemitério São João Batista e da estação do metrô,além da região das Barcas,na Praça Quinze.

Na foto,Rua Buenos Aires,esquina com Rua da Quitanda — Foto: Márcia Foletto
Uma comerciante de Botafogo que prefere não se identificar conta que motos e bicicletas elétricas tomam frequentemente a frente dos estabelecimentos.
— Elas ocupam toda a fachada da loja. Fica impossível passar. As pessoas passam pela rua porque as calçadas estão tomadas — relatou.
Segundo a CET-Rio,o estacionamento de motocicletas em via pública deve ser “perpendicular ao meio-fio”,desde que não haja placa avisando sobre proibição. Além disso,é expressamente vedado trafegar,estacionar ou parar em infraestruturas dedicadas a outros modos de transporte,como corredores de BRT,ciclovias,ciclofaixas,passarelas e calçadas. Nenhum veículo pode estacionar em praças ou calçadas.
A prefeitura informou que a cidade tem 5.425 vagas de estacionamento para motocicletas. Nas áreas onde já foi implantado o Rio Rotativo Digital,esses veículos só podem parar nos “bolsões” demarcados — que totalizam 591 vagas na Lagoa,em Copacabana,Ipanema e Leblon,que devem ser pagas com o aplicativo Jaé. O município explicou,no entanto,que esses espaços estão “em processo de revalidação,com a revisão e atualização do cadastro das áreas regulamentadas pelo novo sistema”.

É de quem chega primeiro. Motos dividem espaço com bicicletário na calçada da Rua São Clemente,em Botafogo — Foto: Márcia Foletto
As calçadas são vedadas às motos,assim como às bicicletas elétricas e comuns,a não ser que haja um bicicletário. Já as regras para o estacionamento dos ciclomotores e autopropelidos,cada vez mais frequentes na cidade,estão num limbo — não existe norma estabelecida até agora para essas “motinhas”,de acordo com a prefeitura.
Estacionar sobre calçadas é infração grave pelo Código de Trânsito Brasileiro: a multa é de R$ 195,23,com cinco pontos na carteira de motorista e remoção do veículo por guincho. A proibição vale para qualquer veículo.
Armando de Souza,presidente da Comissão de Trânsito e Mobilidade Urbana do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB),defende a necessidade de maior fiscalização em relação às motos.
— Nós vemos uma série de irregularidades no dia a dia,e a sensação é de que os órgãos competentes de trânsito não estão fazendo isso de forma eficiente. Todos os dias nos deparamos com manobras bruscas,falta de capacete,motos na calçada. O Código de Trânsito se alicerça no binômio educação e fiscalização. E faltam os dois. Não se educa nem se fiscaliza. Logo,não se protege a vida das pessoas,que é o objetivo do Código de Trânsito Brasileiro.
