
Socorrista venezuelano busca vítimas em um prédio destruído em Caraballeda,no estado de La Guaira — Foto: Martin Bernetti/AFP
A extensa destruição provocada pelos terremotos subsequentes de magnitude 7,5 e 7,2 que abalaram a Venezuela há exatos dois meses ainda é visível nas ruas de La Guaira,onde o governo venezuelano tenta manejar a crise imediata,enquanto equilibra uma delicada relação com os EUA e um processo de diálogo com a oposição. Com o setor do petróleo sob tutela imposta por Washington desde a captura de Nicolás Maduro,em janeiro,o governo em Caracas perdeu a gestão direta sobre sua principal fonte de receita — com montante estimado de US$ 13 bilhões (R$ 66,9 bilhões) indo para contas custodiadas pelo Departamento do Tesouro americano e liberado em movimentações sem qualquer transparência. Em paralelo,o governo aposta em uma aproximação com a oposição para destravar outros ativos financeiros congelados no estrangeiro — que poderiam cumprir um papel central na reconstrução do país,para além da destruição provocada pelos tremores.
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A estimativa de recursos venezuelanos sob custódia dos EUA foi apresentada pelo Financial Times,com base em dados de agências de monitoramento do mercado internacional de petróleo e das variações de preço no período entre janeiro e junho. O jornal britânico aponta que o total pode variar entre US$ 11,5 bilhões e US$ 13 bilhões (entre R$ 59,2 bilhões e R$ 66,9 bilhões). Autoridades americanas e analistas venezuelanos têm afirmado que repasses estão chegando ao país sul-americano,mas que os dados divulgados por Washington e Caracas impedem que se forme uma imagem clara dos recursos recebidos,repassados ou consumidos nas operações.


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O sistema imposto por Washington foi descrito recentemente por funcionários americanos ouvidos pelo New York Times como um "pagamento de mesada",com o secretário de Estado,Marco Rubio,tendo um papel central na operação. O republicano de origem cubana teria controle direto sobre as receitas,segundo as fontes do jornal,inclusive condicionando repasses a limitações quanto ao que poderia ser gasto.
— Não é que não estejam entrando recursos no país. Estão entrando — afirmou em entrevista ao GLOBO o economista Luis Vincente León,presidente da Datanalisis,mencionando que o volume de ingressos para o primeiro semestre dobrou entre 2025 e 2026,girando em torno de US$ 9 bilhões,segundo avaliações a partir de movimentações no sistema bancário. — Se há algum desconto ou não,não sabemos,porque há uma certa opacidade nas contas,e não se reporta exatamente o que entra.
Embora os repasses estejam acontecendo e as vendas tenham aumentado com o aval americano — que retirou sanções impostas ao petróleo venezuelano —,o papel de centralidade do governo dos EUA no sistema é motivo de preocupação no Palácio de Miraflores,onde o humor americano passou a ser o principal termômetro. A decisão de iniciar um diálogo democrático com parte da oposição,até recentemente algo fora do radar das autoridades chavistas,foi tomada por pressão americana,mesmo sem garantia de que atender às exigências devolverá a autonomia anterior.
Mesmo antes dos terremotos,a Venezuela convivia com graves crises econômicas,políticas e sociais. Cerca de 8 milhões de pessoas abandonaram o país por causa das tensões políticas e de uma crise financeira profunda ainda longe do fim. Dados oficiais apontaram uma hiperinflação de 475% em 2025. A infraestrutura defasada compromete a vida cotidiana e a atividade econômica,com apagões registrados em várias regiões do país. Um relatório recente apresentado pela Conindustria,maior associação industrial da Venezuela,indicou que o setor não produziu durante metade das horas de trabalho possíveis no segundo trimestre,em média,por causa de apagões.

Veja imagens da destruição causada pelos terremotos em La Guaira
De todo modo,o fenômeno natural tornou-se uma camada adicional de pressão ao fragilizado governo. O dano material a edifícios residenciais,prédios públicos e infraestrutura variam de US$ 19,6 bilhões (R$ 100,8 bilhões),na conta do Banco Mundial,a até US$ 37 bilhões (R$ 190,4 bilhões),de acordo com o Escritório da ONU para a Redução de Riscos de Desastres. E o impacto humano,de acordo com o balanço mais recente divulgado pelas autoridades venezuelanas,é de 6.438 mortos.
— Não podemos minimizar o custo dos terremotos,mas é preciso desmistificar a ideia da crise do país como um produto deles — afirma León. — Os efeitos financeiros deles são manejáveis,mas a situação da economia,não.
O analista também explica que os danos registrados na Venezuela se concentraram em La Guaira,responsável por algo em torno de 1,8% do PIB do país. Embora seja necessário investir em moradias populares para pessoas vulneráveis afetadas e reparar ativos com valor estratégico,como o Aeroporto Internacional Simón Bolívar,de Maiquetía — que realizou um primeiro voo teste na semana passada,em um passo para a retomada da operação —,edifícios de maior padrão ficariam sujeitos a investimentos de capital privado e pagamentos de seguro.

Voluntários participam das buscas por corpos entre escombros de prédios em La Guaira,em 9 de agosto — Foto: Juan Barreto/AFP
A crise mais recente foi rapidamente incorporada às discussões políticas,incluindo os recém-abertos diálogos do governo chavista com a oposição apoiada pelos EUA — que pressiona por um processo de redemocratização e reestruturação administrativa completos. Ao fim de uma rodada de negociação entre o presidente da Assembleia Nacional,Jorge Rodríguez,e a líder Dinorah Figuera,uma nota conjunta apontou como um dos primeiros consensos entre os setores a união de forças para recuperar ativos venezuelanos retidos no estrangeiro — uma possível fonte de alívio financeiro para Caracas.
Bilhões de dólares em ativos financeiros venezuelanos foram congelados no estrangeiro durante o governo Maduro,em meio a uma crise de legitimidade envolvendo as contestadas eleições do presidente capturado pelos EUA. Com a retomada de relações com Washington,o relaxamento de sanções e o processo de diálogo com a oposição,o acesso aos recursos parece uma realidade mais próxima.
Em uma carta endereçada ao rei britânico Charles III,a presidente interina Delcy Rodríguez mencionou os danos provocados pelo terremoto ao solicitar a liberação de US$ 19 bilhões (R$ 97,7 bilhões) em lingotes de ouro retidos no Banco da Inglaterra desde 2018.
— O terremoto coloca na agenda todo o debate sobre esses recursos no exterior,que são de propriedade venezuelana — afirmou León. — [A crise] tem sido um chamado para que atores internacionais,como os próprios EUA,pressionem pela liberação desses recursos.
Não há uma estimativa unificada,mas múltiplas fontes citam entre os valores retidos no estrangeiro 31 toneladas de ouro,com valor de mercado aproximado de US$ 4,4 bilhões (cerca de R$ 22,6 bilhões),no Banco da Inglaterra,e cerca de US$ 5 bilhões (R$ 25,7 bilhões) em Direitos Especiais de Saque junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Em agosto,o Tribunal de Justiça de Lisboa ordenou a liberação em favor do governo de Delcy de uma quantia de US$ 1,5 bilhão,que estava retida em uma instituição financeira de Portugal.
