Da farda ao palanque: pelo menos 84 agentes de segurança são afastados para disputar a corrida eleitoral no Rio

Notícias de destino Aug 21, 2026 IDOPRESS

PM patrulha a Linha Amarela com um fuzil em punho — Foto: Márcia Foletto

A lista de policiais que chegam ao palanque com experiência política também inclui o coronel Fernando Príncipe Martins,conhecido como “Príncipe”,ex-comandante do Bope e candidato a deputado federal pelo PL. Em diversos posts,aparece ao lado de Flávio Bolsonaro,candidato à Presidência da Reppelo partido. A lista reúne um ex-sniper do Bope que mira o Palácio Guanabara,ex-secretários que deixaram o comando das polícias para tentar uma cadeira no Congresso ou na Alerj,um delegado que sobreviveu a um tiro de fuzil durante a megaoperação da Penha e do Alemão e candidatos que chegam às urnas com audiência de milhões de seguidores nas redes sociais. Há ainda quem carregue para a campanha investigações,punições disciplinares e histórias de sucessivas tentativas eleitorais.

Na Polícia Militar,são 51 integrantes afastados neste ano para disputar cargos eletivos. Na Polícia Civil,há mais 20 servidores apartados da corporação para a mesma finalidade: dez delegados e dez agentes de polícia,conforme informações do Departamento-Geral de Gestão de Pessoas,considerando os processos de afastamento recebidos e registrados pelo órgão. Já o Corpo de Bombeiros totaliza 13 afastados para disputar a eleição.

Ex-sniper do Bope mira no Palácio Guanabara

João Jacques Busnello — Foto: Cléber Júnior

Compondo o alto escalão da PM está o coronel João Jacques Soares Busnello,o coronel Busnello,ex-sniper do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope),candidato ao governo do Rio pelo Missão. Para compor a chapa,ele terá o bombeiro militar Rafa Luz como candidato a vice. A configuração atual é resultado de uma reorganização interna: inicialmente,Rafa Luz aparecia como nome para disputar o governo,enquanto Busnello ocuparia a vice.

Busnello também foi subcomandante do Bope e comandou batalhões da PM. Em 2009,encerrou uma ação de tomada de reféns em Vila Isabel,na Zona Norte do Rio,ao balear Sérgio Ferreira Pinto Junior,de 24 anos,libertando a comerciante Ana Cristina Garrido,que era mantida refém com uma granada em uma farmácia.

Em 2024,foi baleado duas vezes durante um assalto na Avenida 24 de Maio,no Riachuelo,também na Zona Norte do Rio. Os criminosos levaram a moto dele,que poucas horas depois foi recuperada por policiais militares na comunidade Rato Molhado,no Sampaio.

Esta,porém,não é sua primeira tentativa de transformar a carreira na corporação em trajetória eleitoral. Em 2018,disputou uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PRTB,recebeu 15.768 votos e não foi eleito. Em 2022,pelo PSD,obteve 774 votos e ficou como suplente.

A evolução também aparece na declaração de patrimônio. Em 2018,Busnello informou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter R$ 70 mil em bens. Neste ano,declarou R$ 950 mil,distribuídos entre uma casa de vila,avaliada em R$ 750 mil,e uma Fiat Toro,de R$ 200 mil. Rafa Luz declarou R$ 900 mil.

Ex-secretários

Marcelo Menezes,secretário da Policia Militar — Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

Entre os policiais que disputam vagas na Alerj e na Câmara dos Deputados,despontam os dois últimos secretários das polícias Civil e Militar. O coronel Marcelo Menezes (PL),que comandava a PM,disputa uma vaga de deputado estadual. Em março,ele e outros 11 secretários foram exonerados pelo então governador Cláudio Castro,que se preparava para disputar a eleição.

Antes de entrar na corrida eleitoral,Menezes estava à frente da corporação durante a megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão,na Zona Norte,em 28 de outubro de 2025. A operação deixou 122 mortos e foi a ação policial mais letal da história recente do estado. Para a disputa deste ano,ele declarou R$ 1,848 milhão em bens,entre aplicações,previdência,imóveis,conta corrente e um Ford EcoSport.

O secretário de Polícia Civil,delegado Felipe Curi — Foto: Fabiano Rocha

Na Polícia Civil,o ex-secretário Felipe Curi (PP) tornou-se candidato a deputado federal. Curi assumiu a Secretaria de Estado de Polícia Civil em 2024,depois de passar por diversas delegacias do estado. Em agosto de 2016,quando estava à frente da Delegacia de Combate às Drogas,foi baleado durante uma operação no Alemão. Um tiro de fuzil atingiu seu ombro e outro disparo acertou um carregador que carregava no bolso.

Cinco anos depois,recebeu promoção por ato de bravura pela operação que localizou Wellington da Silva Braga,o Ecko,então apontado como o miliciano mais procurado do estado. Ecko acabou morto após ser baleado pela polícia em junho de 2021.

A saída da secretaria o colocou diretamente no tabuleiro eleitoral. Em agosto deste ano,já candidato,teve sua candidatura lançada em um evento que contou com a presença de Douglas Ruas (PL),candidato ao governo do estado,apadrinhado por Flávio Bolsonaro (PL),candidato à Presidência. Antes de entrar oficialmente na corrida,Curi chegou a ser cotado para disputar o Palácio Guanabara e também o Senado.

Ele declarou R$ 2,46 milhões em patrimônio,formado principalmente por imóveis,além de R$ 288 mil em previdência privada e um automóvel avaliado em R$ 178 mil.

Ainda na Civil,o delegado Marcus Vinicius de Almeida Braga integra a lista de ex-secretários presentes nas urnas. Candidato a deputado estadual pelo MDB,deixou a Secretaria de Estado de Polícia Civil depois de um ano e cinco meses no cargo,em 2020,em meio a uma série de mudanças no governo Wilson Witzel. O pedido de exoneração ocorreu poucos dias depois da Operação Placebo,da Polícia Federal,que investigava suspeitas de desvios na construção de hospitais de campanha e teve entre os alvos o próprio Witzel e sua mulher,Helena.

Marcus Vinicius Almeida Braga Foto — Foto: Luiz Ackermann / Agência O Globo

Na época,Braga afirmou que queria dedicar mais tempo à família e que vinha trabalhando havia anos em funções de comando. Hoje,no registro eleitoral,aparece com ocupação de estudante,bolsista,estagiário e assemelhados. Declarou R$ 253,5 mil em bens,entre uma casa de R$ 175 mil e um carro de R$ 78,5 mil. Já havia disputado uma vaga de deputado federal em 2022,pelo Pros,e foi candidato a vereador do Rio em 2024,pelo MDB.

Há ainda o coronel reformado Luiz Henrique Monteiro Barbosa,ex-secretário de Ordem Pública de Volta Redonda,que disputa uma vaga de deputado federal pelo Avante. Em agosto de 2025,ele apareceu como suspeito em uma investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MP-RJ) sobre um esquema de venda fraudulenta de carteiras de habilitação no Sul Fluminense.

Segundo o órgão,entre os alvos estavam dois policiais militares,um deles o então secretário. A Operação Meia Roda apurava a atuação de uma organização que envolveria servidores do Detran,pessoas ligadas a autoescolas e clínicas médicas,despachantes e policiais militares. Os investigados eram apurados por suspeitas de corrupção passiva e organização criminosa. Neste ano,Barbosa declarou pouco mais de R$ 3 milhões em bens.

Entre tantos homens,uma mulher: A major Fabiana Silva de Souza (Avante),candidata a deputada federal,foi secretária da pasta de Vitimização e Amparo à Pessoa com Deficiência no governo de Wilson Witzel,em 2019. Antes,foi eleita para a Câmara em 2018 pelo PSL,com 57.611 votos,usando o slogan “a mulher na segurança”. A candidata já passou pelo PL e agora está no Avante.

'Príncipe' milionário

Coronel reformado Fernando Príncipe Martins (PL),ao lado de Flávio Bolsonaro e Douglas Ruas,todos do mesmo partido — Foto: reprodução

A lista de policiais que chegam ao palanque com experiência política também inclui o coronel Fernando Príncipe Martins,candidato à Presidência da República pelo partido.

Príncipe ficou conhecido nacionalmente em 2010,quando comandava o 9º BPM (Rocha Miranda) e foi exonerado da PM após a morte de um menino de 11 anos dentro de uma sala de aula de um Ciep de Costa Barros,durante uma operação do batalhão nas favelas da Quitanda,da Lagartixa e da Pedreira,todas próximas à escola.

Segundo sua declaração à Justiça Eleitoral,ele é o mais rico entre os PMs candidatos,com R$ 5.754.530,38 em bens. O patrimônio inclui um apartamento no Alto da Boa Vista,de R$ 1,2 milhão,outro na Barra da Tijuca,declarado por R$ 778 mil,uma Harley-Davidson 2020,avaliada em R$ 160 mil,e 50% de um prédio comercial,avaliado em R$ 1,47 milhão.

Príncipe também declarou participações na Solidez Segurança e Vigilância,de R$ 924,5 mil,e na Solidez Recursos Humanos,de R$ 45 mil. Entre os bens estão ainda um título do Iate Clube do Rio de Janeiro,de R$ 65.250,e um Porsche 2015,avaliado em R$ 1.017.226,51. Nas redes,acumula mais de 100 mil seguidores no Instagram.

Influencers

O Cabo Pereira — Foto: reprodução

A audiência digital é,aliás,outra porta de entrada da farda na eleição. O cabo Gabriel Fernandes de Oliveira Pereira (Avante),candidato a deputado federal,estreia na política com quase 2 milhões de seguidores no Instagram. Nas redes,aparece em fotos ao lado de Flávio Bolsonaro,candidato à Presidência,e recebe até comentário de Douglas Ruas,nome apoiado por Flávio na disputa pelo governo do Rio,que escreveu “meu deputado”. Ao TSE,Pereira não declarou bens.

Com audiência semelhante,o subtenente Batata da Madsen (PL),é conhecido por publicar vídeos curtos reagindo a ações policiais e flagrantes. Também aparece em diversas postagens ao lado de Flávio Bolsonaro e declarou R$ 619.465 em patrimônio. também na disputa estadual,a sargento Flavia Alves Pedra Louzada (PP) tem mais de 77 mil seguidores no Instagram. Ela já havia disputado uma vaga em 2022 e volta à corrida neste ano.

Os vices

A farda também aparece nas próprias chapas majoritárias. Anthony Garotinho (Republicanos) chegou a reunir três nomes ligados à PM em sua composição para vice-governador. A major Elaine Cristina Gonçalves Nogarol de Andrade (Democrata) foi anunciada para a vaga em 6 de agosto,mas desistiu nove dias depois. Aos 49 anos,ela tinha 24 anos de PM e passou pelo 24º BPM,atuou na coordenação do Segurança Presente em Paracambi e foi diretora de projetos do Heróis do Rio,iniciativa voltada a policiais feridos e familiares de agentes mortos.

Elaine havia entrado na chapa depois de um impasse com o nome inicialmente cotado para a vaga. Garotinho pretendia ter como vice o coronel da reserva Venâncio Moura (DC),mas o partido decidiu integrar a coligação de Eduardo Paes (PSD),impedindo a composição.

Com a desistência,Garotinho escolheu outro policial militar: o ex-subtenente André Monteiro (Democrata). Aos 55 anos,carioca e formado em Direito,Monteiro é policial militar reformado e passou mais de 20 anos no Bope. É coautor do livro “A retomada do Complexo do Alemão”,sobre a operação de ocupação realizada em 2010.

O ex-Bope André Monteiro (Democrata) e Anthony Garotinho (Republicanos) — Foto: Montagem/ reprodução

Monteiro disputa eleições desde 2012. Já foi candidato a vereador,deputado e governador e,em 2022,foi primeiro suplente na chapa de Daniel Silveira ao Senado. Neste ano,deixou a disputa por uma vaga no Senado para assumir a vice de Garotinho.

Outro nome da PM que mudou de posição na disputa majoritária é a tenente-coronel Erigreice,escolhida por André Marinho (Novo) para ser candidata a vice-governadora. Antes disso,já havia sido suplente de vereador em 2016 pelo PSC.

Coronel preso por assédio

O Coronel Lauro Botto,do Corpo de Bombeiros — Foto: Reprodução/ Instagram

Entrando na disputa enquanto responde a uma denúncia por assédio sexual contra uma subordinada no Corpo de Bombeiros do Rio,coronel Lauro César Botto Maia tenta uma vaga na Câmara dos deputados pela Federação Renovação Solidária (PRD/Solidariedade). Ele entra na disputa enquanto enfrenta,na Justiça Militar,uma punição disciplinar de 15 dias de detenção aplicada pela força.

Botto é réu em uma ação penal depois que a denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Rio (Gaesp/MPRJ) foi recebida pela Justiça Militar. Segundo a acusação,entre o fim de 2024 e julho de 2025,o coronel teria enviado,por meio de uma rede social,mensagens com conteúdo considerado inadequado a uma subordinada,com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual.

“Algumas das mensagens do denunciado passaram a ser feitas diretamente,inclusive tratando da vida pessoal da vítima,de forma insistente,inconveniente e constrangedora,sempre com sentidos ambíguos e,em pelo menos uma oportunidade,aludindo diretamente à sua condição de superior hierárquico”,diz a denúncia.

Na lista de Adilsinho

Candidato a deputado federal,o delegado da Polícia Federal Felício Laterça (Novo),procurou,em julho deste ano,a Superintendência da PF depois de ter seu nome citado em uma lista apreendida em 2022 na casa do contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho,o Adilsinho. Segundo a apuração do GLOBO,a lista reunia nomes de políticos e do pastor Márcio Poncio e acabou sendo um dos elementos que passaram a ser investigados na quinta fase da Operação Unha e Carne.

Laterça afirmou que foi justamente ele quem denunciou à PF a atuação da chamada máfia dos cigarros. Segundo o delegado,quando era deputado federal,recebeu um dossiê de 40 páginas elaborado pela Guarda Municipal do Rio com informações sobre Adilsinho,incluindo veículos,pontos de venda,fábrica e pessoas supostamente ligadas aos negócios. Ele encaminhou o material à PF.

O delegado disse aos investigadores que não sabia por que seu nome aparece na lista e afirmou: “Não sou corrupto e,se alguém pediu alguma coisa em meu nome,vou descobrir quem foi”. Também levantou a possibilidade de que a inclusão de seu nome tenha sido uma represália de algum político que tenha denunciado. Segundo ele,o documento que encaminhou à PF teria dado origem à Operação Smoke Free. Seu nome,de acordo com o material enviado,consta nos autos como testemunha.

Ele já disputou o mesmo cargo em 2018,pelo PSL,e em 2022,pelo PP. Em 2024,concorreu à Prefeitura de Macaé pelo PP. Neste ano,declarou R$ 2,87 milhões em bens,entre duas casas avaliadas em R$ 850 mil e R$ 775 mil,dois apartamentos,veículos e R$ 701,1 mil em aplicações e investimentos.

Sobrevivente da megaoperação

Delegado que teve a perna direita amputada após levar um tiro na megaoperação no Complexo do Alemão,recebe alta hospitalar — Foto: Agência O Globo

Na mesma chapa de Curi está o delegado Bernardo Leal,de 46 anos,agora candidato a deputado federal pela Federação União Progressista (União/PP). Leal foi um dos agentes atingidos durante a megaoperação. Baleado na perna direita por um tiro de fuzil,permaneceu quase uma hora e meia sob intenso tiroteio até conseguir ser retirado da região. A gravidade do ferimento levou à amputação da perna. Ao todo,recebeu 30 bolsas de sangue,passou por nove cirurgias,ficou sete dias em coma e permaneceu 47 dias internado.

Inicialmente,a amputação havia sido feita abaixo do joelho,mas precisou avançar até a parte alta da coxa por falta de vascularização. Leal voltou ao trabalho em janeiro deste ano,quase três meses depois de ser baleado. O então secretário de Polícia Civil,Felipe Curi (PP),o chamou de “herói”.

Hoje,Leal aparece no registro eleitoral como servidor público civil aposentado e declarou R$ 4,36 milhões em bens. O patrimônio inclui um apartamento em Botafogo,11 milhão; R$ 1,05 milhão em previdência privada; 50% de um apartamento,declarados em R$ 600 mil; R$ 375 mil em CDB; outro apartamento na Barra da Tijuca,de R$ 358,8 mil; além de outros imóveis,investimentos e uma loja na Tijuca.

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