
Charge The Arsenic Waltz (A Valsa do Arsênico) faz referência aos vestidos feitos com arsênico para que ficassem com o verde da moda — Foto: Wikimedia Commons
Acompanhar as últimas tendências da moda pode,às vezes,significar sacrificar a própria saúde e o conforto em nome do estilo.
Tendências modernas — como cintas modeladoras que sufocam,sapatilhas frágeis e bolsas grandes demais — têm causado sofrimento a muitas pessoas que as utilizam. No entanto,essas tendências são inofensivas quando comparadas a muitas modas do passado — algumas das quais chegavam a ser letais.
A invenção do salto agulha na década de 1950 gerou opiniões divergentes. Embora,para quem os usava,o sapato tenha se tornado um símbolo de feminilidade e empoderamento — com muitas mulheres apreciando a altura extra que ele proporcionava —,outras achavam o salto agulha desconfortável para caminhar.
Logo surgiram preocupações sobre os possíveis danos causados por esses saltos. Em 1953,a revista britânica de fotojornalismo "Picture Post" publicou uma matéria intitulada "Os Perigos do Salto Agulha",citando alertas de médicos sobre os riscos iminentes associados ao uso desses calçados,que iam desde torções no tornozelo até fraturas ósseas.
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Décadas mais tarde,as preocupações com os efeitos nocivos dos sapatos de salto alto persistem. Estudos demonstraram uma relação direta entre o uso de saltos altos e lesões musculoesqueléticas.
No entanto,não é apenas o ato de usar saltos agulha que causa danos. Em 2016,o jornal "The Telegraph" noticiou que saltos agulha haviam sido usados como armas em centenas de agressões. Em 2013,a cidadã americana Ana Trujillo,apelidada de "Assassina do Salto Agulha",foi condenada à prisão perpétua por perfurar o namorado 25 vezes com um sapato de salto agulha de camurça azul.
O espartilho tem uma história longa e frequentemente controversa,que remonta a séculos atrás. A partir do século XVI,ele passou a ser uma peça de roupa íntima — feita de barbatana de baleia e,por vezes,de aço — utilizada para modelar a cintura.
Contudo,ao longo dos anos,cresceram as preocupações sobre os possíveis danos do uso de espartilhos,especialmente devido à prática do "tight lacing" (aperto excessivo dos laços para reduzir drasticamente a cintura).
Por exemplo,em 1793,o médico e anatomista alemão Samuel Thomas von Sömmerring publicou um livro discutindo suas preocupações em relação ao uso prolongado de espartilhos extremamente apertados. Nele,ele escreve que a prática poderia comprimir as costelas e outros órgãos internos,além de causar deformidades na caixa torácica.
Em junho de 1890,a revista "The Lancet" também publicou um artigo destacando os efeitos devastadores do uso de espartilhos extremamente apertados,incluindo fraturas nas costelas,danos aos órgãos,dificuldades respiratórias,deformidades e até a morte.
Embora a moda de usar espartilhos muito apertados possa ter passado,ainda existem preocupações quanto aos impactos que versões mais modernas,como as cintas modeladoras,podem ter no corpo. Pesquisas demonstraram que o uso de roupas apertadas,como essas cintas,pode prejudicar a respiração.
Durante a era vitoriana,surgiu uma tendência mortal envolvendo um tom específico de verde-esmeralda,que se tornou popular em tecidos,artigos de decoração e na moda. No entanto,o verde era uma cor difícil de produzir. Para obter esse tom vibrante e na moda,os costureiros vitorianos utilizavam um corante específico chamado "verde de Scheele",que era carregado de arsênico.
O público não tinha consciência de quão prejudiciais eram esses vestidos com arsênico até que o renomado químico A.W. Hofmann publicou um artigo em 1862,intitulado "A Dança da Morte",expondo a perigosa toxicidade do corante verde. Na semana seguinte,a popular revista satírica "Punch" publicou uma charge intitulada "A Valsa do Arsênico",que mostrava um esqueleto vestindo um traje de baile.
Os efeitos letais do uso desses vestidos incluíam úlceras,falência de órgãos e,por fim,a morte. As jovens que confeccionavam esses vestidos em fábricas também sofriam sintomas como feridas abertas,convulsões,vômitos e até a morte.
A Rainha Elizabeth I era conhecida por sua tez de porcelana,considerada na época um sinal de beleza e status. No entanto,a maquiagem que ela usava para obter esse visual servia também como uma máscara para cobrir as cicatrizes de varíola em sua pele.
A Rainha alcançava sua tez pálida utilizando a "cerusa veneziana",uma maquiagem à base de chumbo que,acredita-se,tenha causado sua morte. Pesquisas recentes revelaram que a maquiagem branca da Rainha Elizabeth I era,na verdade,uma combinação de chumbo e vinagre branco,o que permitia que o chumbo fosse absorvido pelo organismo em quantidades maiores do que em outras fórmulas de ceruse veneziana.
Assim como muitas outras tendências de moda,a maquiagem à base de chumbo tem uma longa história. A rainha egípcia Cleópatra usava um delineador kohl à base de chumbo — algo que pesquisas mais recentes indicam que pode,ter prevenido doenças.
O cabelo,tantas vezes um símbolo de moda,tem sido alvo de muitas tendências tóxicas ao longo dos anos.
Por exemplo,o penteado Pompadour da década de 1900 — batizado em homenagem à cortesã francesa do século XVIII,Madame de Pompadour — obtinha seu volume graças ao uso de pomadas à base de chumbo,que eram muito populares na época,porém tóxicas.
O início do século XX também presenciou uma tendência incomum e perigosa: produtos enriquecidos com rádio,incluindo tônicos e óleos capilares. Alguns desses produtos prometiam que a radioatividade estimularia o crescimento do cabelo e curaria a caspa. Em certos casos,o rádio era até mesmo aplicado nos fios para que brilhassem no escuro. No entanto,a exposição prolongada ao rádio trazia diversos efeitos nocivos,afetando inclusive os ossos e o sangue — muitas vezes anos após o uso.
Em 1871,as jovens meia-irmãs de Oscar Wilde compareceram a uma festa de Halloween na Irlanda. Como figuras da alta sociedade,ambas vestiam-se seguindo a última moda,usando saias volumosas com armação de crinolina. Porém,enquanto dançavam,suas saias enormes incendiaram-se ao tocar a chama de uma vela,e ambas infelizmente morreram.
A história trágica delas não foi um caso isolado. Estima-se que,durante a era vitoriana,mais de 3.000 mulheres tenham sofrido o mesmo destino.
A crinolina era apreciada por sua leveza e pela liberdade de movimento que proporcionava; contudo,era uma peça difícil de manejar e altamente inflamável. Em 1858,o The New York Times relatou uma média de três mortes por semana,tornando a crinolina uma das tendências mais perigosas da história.
Assim como as tendências de moda mudam,também mudam os riscos associados a elas. No entanto,podemos nos considerar muito mais afortunados do que nossos antecessores,visto que as tendências atuais são,em grande parte,menos letais do que muitas que existiram no passado.
* Naomi Braithwaite é professora de Moda e Cultura Material,Nottingham Trent University,no Reino Unido.
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
