
Montagem com o Palácio do Grão-Pará,em Petrópolis,e o repórter João Vitor Costa — Foto: Arte
GERADO EM: 24/06/2026 - 16:28
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“O jornalismo é dinâmico”. Essa frase é um bordão da minha chefe,Leila Youssef,que coordena a produção da editoria Rio em todas as manhãs. E,em 19 de junho,essa máxima definiu o meu dia. A manhã havia começado com uma pauta de violência — tiroteio e guerra de facções em Rio das Pedras,na Zona Sudoeste do Rio — e a tarde acabou com uma matéria de página inteira sobre um herdeiro da Família Imperial do Brasil trancado do lado de fora de um palácio em Petrópolis.
Eu havia sido o segundo repórter da minha editoria a chegar à Redação e assumi a cobertura da segunda madrugada consecutiva de tiros na comunidade berço da milícia no Rio. Quando minhas atenções estavam todas voltadas para isso,Leila passa em frente ao meu computador e faz o anúncio sobre a dinâmica da nossa profissão. Mas era só um spoiler: sobre o que eu iria escrever depois? Ela só me falaria quando eu concluísse essa primeira missão.
Nesse meio tempo,o que eu ainda não sabia é que a editora de Audiência do GLOBO,Gabriela Goulart,havia encontrado um burburinho por aí sobre o possível despejo real e avisado à chefia da Rio. Diariamente,ela busca por assuntos que possam alavancar nossa audiência (e,com esse tema,acertou em cheio). Faltava,então,a gente se debruçar sobre a pauta para confirmar os detalhes e publicar a matéria mostrando como o caso havia ido parar na Justiça após Dom Pedro Tiago de Orléans e Bragança ser impedido de entrar no Palácio do Grão-Pará.

Justiça do Rio de Janeiro determinou a devolução do Palácio do Grão-Pará,a Pedro Tiago de Orleans e Bragança após o descendente de Dom Pedro II relatar ter sido impedido de entrar no imóvel e encontrar as fechaduras trocadas. — Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Enquanto minha cabeça ainda estava em Rio das Pedras,a fotografia decidiu que enviaria uma equipe a Petrópolis,com a possibilidade de nossa fotógrafa Márcia Foletto dar de cara na porta dos aposentos reais. Em ocasiões normais,eu também iria nessa viagem,mas neste dia precisei seguir da Redação porque seria impossível concluir o que estava fazendo e ainda pegar uma hora e meia de estrada (pelo menos três horas,somando ida e volta).
Márcia já devia estar na Rodovia Washington Luiz,perto da subida da Serra de Petrópolis,quando comecei a me inteirar do caso do despejo. Era preciso entender o que era aquele palácio,de estilo neoclássico,tombado pelo Iphan,e tentar chegar ao Príncipe Dom Pedro Tiago de Orleáns e Bragança — registrado assim,com “Príncipe Dom” no nome — para,além de ouvi-lo para a matéria,conseguir abrir as portas do imóvel para nossa equipe. E ele não foi o único com quem falei aquele dia: teve advogados,polícia,vizinho,processos e até quem falasse em off.
No meio desse caminho,com algumas notas oficiais e consultas em mãos,já dava para publicar a matéria,mas faltava o “molho”. Dom Pedro Tiago trancado do lado de fora (trocaram as fechaduras) foi o primeiro detalhe primordial a se confirmar. O segundo foi cravar que havia uma briga familiar: eu sabia que havia três Orleans e Bragança no quadro societário da empresa ré no caso,a Companhia Imobiliária de Petrópolis,mas saber que eram pai e tios do príncipe tornou a história mais interessante.

Dom Pedro Tiago de Orleans e Bragança no Palácio do Grão-Pará,em Petrópolis: príncipe chegou a ficar trancado do lado de fora do imóvel — Foto: Márcia Foletto
Tem dias que dá tudo certo (jornalista precisa de fé) e esse foi um deles. Márcia foi autorizada a entrar no palácio às 13h daquela sexta-feira: o combinado era fotografar o interior,mas ela também convenceu o príncipe a posar para a sua câmera (ela começou a imaginar as imagens com o trineto da Princesa Isabel em meio a salões e pompa do local). Um golaço!
— A coisa mais engraçada é que,quando me apresentei,perguntei como ele gostaria de ser chamado. Imaginei que talvez preferisse “dom” ou “príncipe”,mas ele falou logo: ah,pode me chamar de Pedro,ou Tiago,tanto faz — conta Márcia Foletto.
O jornalismo é dinâmico,é verdade,mas a fofoca segue como critério infalível de noticiabilidade,ainda mais falando da Família Real. Não chega a ser como a Coroa britânica,que segue viva e sempre atrai os holofotes. Por aqui,porém,onde a monarquia chegou ao fim em 1889,tratar de um príncipe ainda deu o que falar,talvez pelo anacronismo do tema.
No Instagram do GLOBO,a publicação sobre o caso rendeu mais de 3 mil comentários,alguns ironizando o título real. “Minha mãe também me chama de príncipe,deve ser a isso que a matéria tá se referindo”,disse um dos usuários.
E a novela palaciana promete novos capítulos. Ré no caso do príncipe Pedro Tiago,a Companhia Imobiliária de Petrópolis agora entrou com um pedido de reintegração de posse contra outros dois Orleáns e Bragança. Desta vez,o imóvel em questão é a Casa da Princesa Isabel,no centro histórico de Petrópolis,onde moram os alvos da ação.
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