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Frida Kahlo em foto de 1939 — Foto: Nickolas Muray
GERADO EM: 12/04/2026 - 20:13
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Um conjunto histórico da arte mexicana do século XX que inclui uma série de pinturas de Frida Kahlo vem atraindo um público recorde ao Museu de Arte Moderna da Cidade do México há semanas. Em fila,as multidões querem admirar as cerca de 70 peças da conceituada Coleção Gelman,que não era exibida no país há quase 20 anos.
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Para muitos apreciadores de arte,porém,a exposição é um consolo de pouca valia,já que deve ser enviada para a Espanha em junho,como parte de um acordo entre a proprietária mexicana – a família de industrialistas Zambrano,do norte do país – e o Banco Santander da Espanha,que a administrará enquanto estiver no exterior.
O acordo de transferência do acervo,originalmente reunido por Jacques e Natasha Gelman,casal glamoroso de imigrantes da Europa Oriental,irritou a elite cultural local,que afirma que a decisão privará os mexicanos de um tesouro artístico e viola as regras de patrimônio cultural que proíbem que obras importantes deixem o país por longos períodos.
Cerca de 380 acadêmicos,artistas e outros destaques assinaram uma carta publicada no site De Museos em março,exigindo que o governo Sheinbaum explique por que essas obras estão sendo autorizadas a sair do país. Em outra mensagem,pediram aos museus da Noruega,Suíça e Alemanha com exposições de Kahlo já programadas que "se solidarizem" na defesa dos direitos dos mexicanos. "Uma geração inteira foi privada da presença pública permanente que os proprietários originais imaginaram para essa coleção",escreveu o grupo na segunda missiva,publicada na plataforma de arte e-flux.
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A disputa envolveu a presidente,que em seis de abril defendeu o acordo e disse que as autoridades estavam cumprindo a lei. Na coletiva diária,Sheinbaum disse que "quem insiste que a coleção não ficará no México é contra nosso governo".
De acordo com o combinado entre o Santander e os Zambrano,as obras serão exibidas no Faro Santander,museu no norte da Espanha com inauguração prevista para junho,ao lado da coleção de aproximadamente mil itens da fundação do banco.
Uma pessoa próxima à família,que pediu anonimato por não estar autorizada a falar publicamente sobre o assunto,informou que a Gelman vale "milhões de dólares",e foi segurada em "cerca de um bilhão".
As objeções ao acordo giram em torno das regras destinadas a manter no país as obras de cerca de dez artistas mexicanos célebres dos séculos XIX e XX. A arte de Kahlo,por exemplo,foi declarada "monumento artístico" em 1984,e qualquer obra sua que estivesse no país naquela época não pode sair permanentemente,apenas emprestada a instituições estrangeiras por até dois anos. Podem até ser vendidas,desde que permaneçam no México.
Para James Oles,professor de arte do Wellesley College que mora no México,o decreto – publicado um ano depois que a biografia escrita por Hayden Herrera acendeu o pavio da Fridamania – provou ser "premonitório",pois a demanda internacional pelas obras de Kahlo disparou nos últimos 30 anos. "El Sueño (La Cama)",autorretrato de 1940,foi vendido em leilão em Nova York em novembro de 2025 por US$ 55 milhões,incluindo taxas,recorde para um artista latino-americano.
Os críticos também afirmam que o acordo trai os desejos de Natasha Gelman,falecida em 1998. De acordo com Janet C. Neschis,que representa a Fundação Jacques e Natasha Gelman,a família sempre teve a intenção de manter a coleção no México,mas a cópia do testamento dela,de 1993,a que o "The New York Times" teve acesso,é menos explícita. Embora estipule que as obras devam ser exibidas em um museu,descreve etapas específicas para a retirada da coleção do país,as quais os Zambrano estão seguindo,de acordo com uma pessoa próxima à família. "Sempre foi intenção de Natasha manter a coleção no México",garantiu a advogada.
Gelman deixou a coleção para Robert Littman,curador norte-americano que foi amigo de longa data e seu conselheiro,mas uma série de disputas sobre a propriedade das obras levou Littman a deixar de exibi-las no México em 2008. Os litígios foram derrotados na justiça,segundo Gerardo Estrada,ex-diretor-geral do Instituto Nacional de Belas Artes e Literatura (Inbal),instituição governamental que administra vários museus,para quem Littman é o legítimo proprietário.
De fato,o testamento diz que a coleção lhe foi "legada",estipulando que os 95 itens que a compõe deviam permanecer juntos,mas Littman vendeu algumas e acrescentou centenas de outras. (Segundo Estrada,ele se prontificou a vendê-la ao governo em 2000,mas a proposta foi recusada. Ele não se lembrava dos valores,mas a imprensa afirma que,na época,foi avaliada em US$ 200 milhões.)
Durante anos,o destino o acervo foi um mistério – até que o Santander revelou,em janeiro,que a família Zambrano a havia comprado em 2023. Littman não respondeu às nossas mensagens telefônicas. Para Estrada,o plano de transferência para a Espanha é "lamentável". "Autoridades espanholas e mexicanas chegaram a comentar que chegue a ficar por lá cinco ou dez anos,o que reforça as suspeitas e rumores de que não volte tão cedo. Para os mexicanos,ela se tornou um verdadeiro mito. É muito popular,muito querida."
De fato,"Modern Tales",a mostra do Museu de Arte Moderna,atraiu quase 120 mil pessoas desde que foi inaugurada,em meados de fevereiro,de acordo com Alejandra de la Paz,atual diretora-geral do Inbal. Entre os destaques estão um óleo sobre masonite de 1943 de Kahlo intitulado "Autorretrato (Diego em Minha Mente)" e seu "Autorretrato (Com Colar)" de 1933,além de obras de Diego Rivera,José Clemente Orozco,David Alfaro Siqueiros,Gunther Gerzso e María Izquierdo,todos membros importantes do movimento moderno.
Embora haja exposições constantes do trabalho de Kahlo – em Houston,Londres e Nova York só este ano –,há poucas obras suas nos museus mexicanos. O Inbal conta com algumas pinturas,garante o historiador de arte Luis-Martín Lozano,entre elas "As Duas Fridas",famoso óleo sobre tela de 1939 que faz parte do acervo do Museu de Arte Moderna do México.
Entretanto,o acervo mais importante,mantido no Dolores Olmedo,região sul da Cidade do México,de propriedade privada,está fechado há seis anos. A instituição,que também abriga uma grande coleção de obras de Diego Rivera,declarou em fevereiro deste ano que reabriria no fim de maio. (Anúncio esse que foi resultado de uma campanha de meses realizada por organizações indígenas locais,alegando que o fechamento violava seu direito de acesso ao patrimônio cultural.)
Segundo Oles,o trabalho de Kahlo é tão caro que talvez não faça mais sentido comprá-lo. "Em vez de gastar dinheiro com uma Frida talvez devesse investir na reforma dos museus",afirmou,referindo-se ao governo mexicano.
