O plano de paz de 10 pontos apresentado pelo Irã a autoridades americanas incluía reparações pelos danos sofridos durante a guerra — Foto: Arash Khamooshi/New York Times

O plano de paz de 10 pontos apresentado pelo Irã a autoridades americanas incluía reparações pelos danos sofridos durante a guerra — Foto: Arash Khamooshi/New York Times
GERADO EM: 08/04/2026 - 17:15
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O Irã tornou público um plano de dez pontos para encerrar o conflito com os Estados Unidos,um dia após a entrada em vigor de um cessar-fogo temporário de duas semanas,acordado na noite de terça-feira. A proposta foi considerada pelo presidente Donald Trump como “uma base viável para negociar”,mas inclui exigências que entram em choque direto com posições já defendidas por Washington,especialmente sobre o programa nuclear iraniano e a presença militar americana no Oriente Médio.
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Um funcionário da Casa Branca afirmou que os pontos divulgados pelo Irã não correspondem ao plano mencionado pelo presidente Donald Trump. O representante falou sob condição de anonimato para tratar de discussões internas.
A proposta iraniana foi apresentada na manhã seguinte ao cessar-fogo e inclui demandas como a retirada das tropas americanas da região,a reafirmação do controle sobre o estratégico Estreito de Ormuz e a manutenção do direito ao enriquecimento de urânio.
Parte dessas exigências entra em choque com uma proposta de 15 pontos elaborada por mediadores americanos no mês passado. O conteúdo do plano não foi divulgado oficialmente,mas,segundo autoridades ouvidas pelo The New York Times sob anonimato,o documento aborda os programas nuclear e de mísseis balísticos do Irã,além da segurança do comércio marítimo.
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Em negociações anteriores,representantes dos Estados Unidos pressionaram pela limitação do alcance dos mísseis iranianos e pela interrupção total do enriquecimento de urânio.
Na quarta-feira,Trump fez referência a esse plano ao afirmar,em redes sociais,que “muitos dos 15 pontos já foram acordados”,reiterando a defesa da política de “nenhum enriquecimento de urânio”.
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A seguir,os dez pontos apresentados pelo Irã,segundo a agência estatal IRNA,e os possíveis pontos de divergência com os objetivos de Washington:
Na proposta anterior,de 15 pontos,apresentada por mediadores americanos,a previsão era apenas de um cessar-fogo temporário. Já o Irã defende a formalização de um acordo que estabeleça o fim permanente das hostilidades.
De acordo com entrevistas com especialistas em segurança regional e um ex-diplomata iraniano,essa é uma das principais demandas de Teerã e deve concentrar os esforços do país nas negociações.
A proposta tende a se tornar um dos principais pontos de atrito nas negociações. O Estreito de Ormuz é uma rota estratégica por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial,e a capacidade do Irã de restringir ou interromper esse tráfego já provocou impactos relevantes na economia global. Diante desse cenário,a aceitação dessa condição por parte de Washington e de países árabes do Golfo é considerada altamente improvável.
O Irã propõe encerrar confrontos em todas as frentes,incluindo os embates envolvendo o Hezbollah,seu aliado no Líbano,o que pode vir a se tornar um ponto de convergência nas negociações. Estados Unidos e Israel,no entanto,pressionam Teerã a conter a atuação de uma rede de milícias apoiadas pelo país na região,conhecida como “Eixo da Resistência”.
Durante o conflito atual,esses grupos lançaram ataques com drones e mísseis contra alvos americanos,países do Golfo e o próprio território israelense. Entre eles está o Hezbollah,alvo de uma ofensiva de grande escala por parte de Israel,que chegou a anunciar planos para ocupar áreas do sul do Líbano.
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Apesar da proposta iraniana,o governo israelense sustenta que o cessar-fogo em vigor não se aplica às suas operações no território libanês,o que mantém incertezas sobre a inclusão dessa frente em um eventual acordo de longo prazo.
A proposta prevê a saída completa das forças dos EUA de bases no Oriente Médio,incluindo países do Golfo,Iraque e Israel. Especialistas consideram improvável que Washington aceite essa condição.
O Irã pede compensações pelos danos sofridos durante o conflito,que atingiram em larga escala não apenas instalações militares,mas também infraestruturas civis e industriais consideradas estratégicas.
Segundo autoridades iranianas,a destruição inclui fábricas farmacêuticas e siderúrgicas,pontes,universidades e instalações de energia,o que impacta diretamente setores essenciais da economia e dos serviços públicos do país.
Apesar da dimensão dos prejuízos apontados por Teerã,não há,até o momento,qualquer indicação de que as autoridades dos Estados Unidos estejam considerando oferecer compensações financeiras ou outro tipo de reparação no âmbito das negociações.
A proposta contraria diretamente as declarações mais recentes do presidente Donald Trump,que voltou a defender a política de “enriquecimento zero” de urânio por parte do Irã.
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Diante do impasse,diplomatas da região têm buscado alternativas para aproximar as posições. Uma das possibilidades discutidas é que Teerã deixe de realizar o enriquecimento de forma ativa ou limite a atividade a níveis mínimos e simbólicos,dentro do permitido para fins civis,como geração de energia. Ainda não está claro,se Washington aceitaria esse tipo de flexibilização.
Desde a criação da República Islâmica,após a Revolução de 1979,os Estados Unidos passaram a impor ao Irã uma série de sanções primárias — medidas que restringem diretamente transações financeiras,comércio e acesso do país ao sistema econômico internacional.
Em rodadas anteriores de negociação,mediadores defenderam a flexibilização parcial dessas sanções como contrapartida a concessões do Irã em seu programa nuclear. Na quarta-feira,o presidente Donald Trump voltou a mencionar essa possibilidade,ao citar a oferta de “alívio de tarifas e sanções” como parte de um eventual acordo.
Além de restringir diretamente o comércio com o Irã,os Estados Unidos também aplicam sanções secundárias,que atingem países e empresas estrangeiras que mantêm relações comerciais com Teerã,ampliando o alcance das medidas econômicas.
Assim como ocorre com as sanções primárias,esse ponto é visto como potencialmente negociável nas tratativas,a depender das concessões que o Irã esteja disposto a oferecer,especialmente no campo nuclear.
Em junho do ano passado,a Agência Internacional de Energia Atômica aprovou uma resolução contra o Irã pela primeira vez em duas décadas,ao concluir que o país não estava cumprindo suas obrigações no âmbito da não proliferação nuclear. Teerã criticou a decisão e afirmou que a medida teve motivação política.
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Embora os Estados Unidos não tenham poder direto para reverter decisões da agência,especialistas avaliam que Washington pode atuar diplomaticamente para influenciar países aliados dentro da AIEA,em uma eventual negociação mais ampla com o Irã.
O histórico de tensões entre o Irã e a comunidade internacional é marcado por uma série de resoluções das Nações Unidas,motivadas,em grande parte,pelo avanço do programa nuclear de Teerã. Em outubro passado,a organização voltou a impor sanções ao país,sob a justificativa de que o governo iraniano violou os termos do acordo firmado em 2015,cujo objetivo era limitar o enriquecimento de urânio.
Embora o governo dos Estados Unidos tenha influência para mobilizar aliados em favor da revogação dessas medidas,analistas indicam que tal movimento só ocorreria mediante um acordo abrangente. A suspensão das sanções da ONU depende de um compromisso concreto de Teerã que encerre definitivamente as incertezas sobre a proliferação nuclear na região.
