Foto de arquivo mostra o então líder supremo do Irã,aiatolá Ali Khamenei,ao lado de comandantes iranianos passando por membros da milícia Basij durante uma reunião em Teerã,em 26 de novembro d

Foto de arquivo mostra o então líder supremo do Irã,aiatolá Ali Khamenei,ao lado de comandantes iranianos passando por membros da milícia Basij durante uma reunião em Teerã,em 26 de novembro de 2007 — Foto: ISNA/AFP
GERADO EM: 04/03/2026 - 16:21
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Em um dos ataques aéreos mais recentes ao Irã,na madrugada de quarta-feira,as Forças Armadas de Israel anunciaram ter atingido infraestruturas das forças Basij,grupo paramilitar que ganhou fama pela repressão contra manifestações críticas ao governo dos aiatolás. A ação foi apenas uma dentre vários bombardeios direcionados contra bases policiais,centros de detenção,escritórios de inteligência e todo o aparato repressor que deu sustentação à teocracia iraniana nas últimas cinco décadas — em um movimento tático que pode indicar uma estratégia mais abrangente traçada por EUA e Israel para reduzir a capacidade de resposta e facilitar uma mudança de regime.
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As lideranças americana e israelense afirmaram que a troca de liderança no Irã era um dos resultados esperados com a operação conjunta — embora o nível de prioridade sobre o objetivo tenha variado em meio a declarações confusas,e por vezes ambíguas,do que se almeja alcançar com o esforço militar. A reiterada ofensiva contra a estrutura de poder interna do regime,para além de alvos militares como o programa de mísseis e do programa nuclear,indicam uma busca pela quebra da estrutura de poder.


— Este é claramente um dos principais objetivos desta operação: desmantelar a máquina operativa de um regime — afirmou Farzin Nadimi,analista de defesa focado em Irã no The Washington Institute for Near East Policy. — Muita gente tem recordações terríveis de ter sido detida,espancada e perseguida naqueles edifícios [atacados por EUA e Israel]. Vê-los virar fumaça faz parte do processo de desmantelamento deste estado policial opressor.
O aparato de repressão interna em que o governo autocrático fincou um de seus pilares garantiu ao regime resiliência para enfrentar o longo histórico de dissidências no país. Por gerações,opositores em busca de algum tipo de flexibilização por parte do regime pautado na sharia ou por melhorias nas condições de vida foram impiedosamente esmagados,sem força para enfrentar forças armadas pelo Estado. O último grande movimento popular,iniciado em dezembro do ano passado,foi suprimido ao custo de 7 mil mortos,segundo estimativas de algumas organizações de defesa dos direitos humanos que monitoram as violações no país.

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A estratégia em desenvolvimento no solo iraniano parece ter diferentes níveis de profundidade tática. Em um primeiro momento,os bombardeios cumprem o objetivo imediato de enfraquecer o aparelho repressor do regime,comprometendo uma eventual resposta à uma sublevação por grupos internos. Em simultâneo,os ataques também cumprem um papel anímico,a fim de mobilizar possíveis forças opositoras dispostas a levar a cabo a tomada de poder — algo menos previsível de antemão.
O presidente dos EUA,Donald Trump,fez um apelo para que o povo iraniano "aproveitasse o momento" para tomar o controle das instituições do país,ao anunciar a operação em um discurso no sábado. Há indícios de que Washington não esteja disposto a contar apenas com um movimento espontâneo. Fontes ouvidas pela CNN afirmaram que a Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA,na sigla em inglês) planeja fornecer armas e apoio a grupos curdos,a fim de criar uma frente terrestre para lutar contra o regime iraniano.

Forças curdas fotografadas em ofensiva a Mosul,em 2014 — Foto: AHMAD AL-RUBAYE / AFP
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Trump vem mantendo contato com lideranças curdas desde o fim de semana. Em um contato recente,ele falou por telefone na terça-feira com o líder do Partido Democrático do Curdistão Iraniano (KDPI),Mustafa Hijri. Bases do grupo foram bombardeadas pelo Irã nos últimos dias,que acusaram a ameaça de uma invasão ao país em meio aos ataques aéreos americanos e israelenses.
Analisados como um grupo,o histórico de relações com os EUA — e especificamente com Trump — é marcado por desconfiança. Em seu primeiro mandato,o republicano abandonou o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK),que por anos combateu o Estado Islâmico na Síria ao lado de forças americanas,em um momento de tensões com a Turquia. À época,o presidente dos EUA chegou a afirmar que os ex-aliados "não eram anjos" e que,em certos casos,eram "piores que o EI".
Maior etnia desprovida de Estado no mundo,as comunidades curdas estão espalhadas por países como Irã,Iraque,Síria e Turquia,e possuem traços culturais e sociais distintos. Não está claro se algum grupo aceitaria trabalhar em cooperação com EUA e Israel contra o governo iraniano,que é um inimigo comum,que reprime grupos no noroeste do país.
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O grau de sucesso de um levante apoiado por EUA e Israel passa por fatores que ultrapassam os letais ataques aéreos conjuntos,que fontes iranianas dizem já ter causado mais de mil mortes. A avaliação de analistas especializados em Irã é de que muito dificilmente forças oposicionistas conseguiriam sozinhas superar as forças iranianas entrincheiradas em meio aos bombardeios.
Dentro deste contexto,um fator que poderia desequilibrar a equação,seria o aumento das deserções entre as forças iranianas. Trump fez um apelo público para que homens da Guarda Revolucionária do Irã depusessem as armas sem resistir,prometendo anistia por sua participação no regime. Uma dissidência considerável poderia inverter o jogo,segundo analistas.
— Se conseguirmos esses dois elementos,deserções somadas à degradação do aparato de opressão,acredito que as pessoas [no Irã] podem ter uma chance de lutar — afirmou Farzan Sabet,analista de sistemas de armas e do Irã no Geneva Graduate Institute,na Suíça,apontando os fatores como essenciais para encorajar ataques internos.


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Imagem capturada da televisão estatal iraniana mostra o local que seria da escola da escola primária para meninas na província iraniana de Hormozgan,perto do estreito de Ormuz. — Foto: IRIB TV / AFP


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Frame de vídeo mostra pessoas inspecionando os danos em um local atingido após ataques dos EUA e de Israel em Teerã,no Irã — Foto: AFP
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Frame de vídeo de redes sociais mostram explosões em Teerã após EUA e Israel bombardearem a capital em ataque coordenado ao Irã — Foto: AFP

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Uma nuvem de fumaça se eleva após uma explosão relatada em Teerã após EUA e Israel bombardearem capital em ataque coordenado. — Foto: ATTA KENARE / AFP
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Projétil iraniano atinge base naval dos EUA no Bahrein — Foto: AFP

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Fumaça sobe nos céus de Abu Dhabi em meio a ataque retaliatório do Irã por agressões dos EUA e Israel — Foto: AFP
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O rastro de um foguete do sistema de defesa antimíssil Domo de Ferro de Israel é visível sobre os céus de Jerusalém — Foto: JACK GUEZ / AFP

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Fumaça de um ataque aéreo israelense na área sul do Líbano,al-Qatrani. EUA e Israel bombardearem a capital do Irã,Teerã,em ataque coordenado — Foto: Rabih DAHER / AFP
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EUA e Israel lançam ataque coordenado contra o Irã; bombas no Teerã (foto) começaram na manhã deste sábado (28) — Foto: ATTA KENARE / AFP

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Pessoas correm para se abrigar ao som das sirenes em Tel Aviv. As Forças Armadas de Israel afirmaram que seus ataques contra o Irã,em coordenação com os Estados Unidos,atingiram dezenas de instalações militares. — Foto: Jack GUEZ / AFP
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Motoristas lotam ruas de Teerã,capital iraniana — Foto: AFP

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O rastro de um foguete do sistema de defesa antimíssil Domo de Ferro de Israel é visível sobre os céus de Jerusalém — Foto: JACK GUEZ / AFP
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Imagens registram fumaça,danos em áreas urbanas e o clima de guerra que se espalha pela região.
Não houve nenhum sinal de grande deserção nas fileiras iranianas até o momento. Enquanto isso,os aliados demonstram menos entrosamento ao tratar sobre os objetivos da guerra do que em executá-la no front. Trump chegou a afirmar à imprensa americana que uma solução como na Venezuela,em que o poder interino poderia ser transferido para uma ala considerada "negociável" do regime,seria sua preferência — uma solução que desagrada o premier israelense,Benjamin Netanyahu,que pretende por fim à República Islâmica. O próprio Trump,porém,afirmou que tantas lideranças iranianas teriam sido mortas,que já não haveria lideranças para negociar uma continuidade ou transição.
Mesmo com uma queda de regime,não há garantias de que Trump ou Netanyahu ficariam satisfeitos com o resultado de uma revolução popular,como o próprio presidente americano reconheceu na terça-feira.
— O pior cenário seria fazermos isso [derrubar o governo] e,em seguida,quem assumir o poder ser tão ruim quanto o [regime] anterior,certo? — disse Trump. (Com NYT e AFP)
